THE DELAGOA BAY REVIEW

08/06/2010

E PLURIBUS NENHUM

Filed under: Economia Portuguesa, Politica Portuguesa — ABM @ 1:37 pm

por ABM (8 de Junho de 2010)

E Pluribus Unum era o lema do Desportivo, o honorável clube desportivo onde cresci em Moçambique nos anos 60 e 70 do século passado, e a primeira frase em latim que aprendi a entender, significando, pensava eu, qualquer coisa como “um por todos, todos por um”.

Levou algum tempo a compreender a origem da frase, e que eu estava errado. Aparentemente em tempos o Desportivo esteve a um fio de se tornar uma sucursal do então “metropolitano” Sport Lisboa e Benfica, que também contém no seu símbolo uma águia e a mesma frase. Mas, lá para os anos 40 ou 50 do século passado, um coronel ou general que vivia em Moçambique logrou impediu-lo, o Desportivo permaneceu independente de afiliações metropolitanas e, em sua homenagem, e até 1975, a sua efígie decorava a entrada do clube, altura em que os ciclónicos ventos da mudança erradicaram o busto lá colocado pelos sócios do clube para as catacumbas da história: ele era branco, colonialista e fascista como os outros todos, tinha que desaparecer para dar lugar ao novo Moçambique. O clube, que se chamava desde 1921 Grupo Desportivo Lourenço Marques (o nome do senhor, não da cidade), em 1976 mudou o nome para Grupo Desportivo de Maputo (o nome da cidade). Ficou lá o pedestal, pirosamente decorado com uma águiazinha negra meio depenada e uma magnífica sala de troféus, que foram desaparecendo com os anos, especialmente os de prata.

Quando mais tarde fui viver para os Estados Unidos, para minha surpresa, descobri a mesma águia e o mesmo lema em latim nos sêlos dos Estados Unidos da América (um dos quais se pode ver em cima).

E descobri que “afenal” a frase não queria dizer nada daquilo. A tradução correcta é “de todos, um”, significando a união das treze colónias britânicas que primeiro formaram os Estados Unidos da América em 1776, numa só entidade federal.

Este foi o pensamento que me ocorreu enquanto esta manhã lia a declaração do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada na tarde de ontem, respeitante à actual situação na União Europeia, e que pode ser lida aqui e aqui.

Considerei o aviso do FMI curioso e um pouco irónico. Há umas quatro semanas, antes do governo do Sr. José Sócrates ter mais uma vez timidamente subido os impostos aos contribuintes fiscais portugueses, os comentadores da praça, de que saliento o Dr. Medina Carreira, avisavam que, ou o governo do dia fazia o que tinha que ser feito, ou o mesmo seria feito por uma anónima delegação do FMI, que a qualquer altura aterraria na Portela de Sacavém.

O FMI, entre outras nobres e necessárias funções, tem o inglório papel de emprestar dinheiro a governos como último recurso, em troca de, por parte de quem recebe, medidas tipicamente pouco aceites até em democracias, como aumentos de impostos, apertar dos cintos, liberalizações de sistemas e outras medidas de “ajustamento”.

Durante a quase falência das finanças públicas portuguesas entre 1983-1985, os Men in Black e óculos escuros do FMI vieram a Lisboa e fizeram exactamente isso.

Mas desta vez, o FMI lançou um aviso a toda a União Europeia, no contexto de uma análise anual feita às políticas emanadas de Bruxelas.

Resumidamente, o que o relatório refere (cito, tradução minha) é que “a actual crise resulta de políticas fiscalmente insustentáveis, dum insuficiente progresso no estabelecimento da disciplina e flexibilidade, necessários para permitir o funcionamento adequado da união monetária, e uma gestão inadequada da área Euro”.

E conclui, afirmando que falta à União Europeia completar o seu processo de união monetária.

O que é que isto significa para os contribuintes portugueses?

Para já, nada para além do que se vê nas notícias, e que é muito mau.

Mas, com base do que já foi feito, de que se destaca a facilidade de crédito de 750 mil milhões de euros para apoiar países com problemas (em que Portugal é um dos mais facilmente mencionáveis), o futuro é prenho de dificuldades e sacrifícios. Aproxima-se rapidamente um estado virtual de bancarrota e, apesar do luso e euro-discurso oficial, detecta-se a crescente indisponibilidade dos países-âncora da Europa (Reino Unido, França, Alemanha) para continuar a suportar o que, da sua óptica, constituem comportamentos financeiros e fiscais insustentáveis e pouco responsáveis.

O que o FMI vem dizer é algo que muita gente já suspeita: que é preciso agir, e que, simplesmente, o tempo não está do lado da União Europeia. Enquanto que, com todos os problemas e fragilidades, as economias norte-americana e chinesa vão arrebitando (os EUA em 2010 crescerão 3%, cifra que os portugueses não vêem há mais que uma década), a Europa agoniza e não consegue acordar no caminho a seguir.

Em Portugal e noutros países da Europa, esperam-se novas e muito mais severas medidas correctivas. Conhecendo o governo do dia, isso significa mais e mais impostos directos e indirectos, tarifas, derramas, etc. Pois reformar o sector público e o que custa, parece ser uma impossibilidade matemática.

Ou seja, num plano mais vasto, para já, da união do conjunto dos países, não está a resultar um todo maior que as partes. A “bomba” do endividamento público começa a contagiar tudo.

E não apareceu ainda um Abraham Lincoln europeu a fazer um discurso de Gettysburg.

E o tempo está a esgotar-se.

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