THE DELAGOA BAY REVIEW

16/06/2010

BOLETIM DO MUNDIAL Nº15: O VERDADEIRO COMEÇO

Filed under: Mundial de Futebol 2010 — ABM @ 4:03 am

por ABM e George Ribéro (16 de Junho de 2010)

Aqui vão dois dias de comentários, que incluem o início do campeonato para as equipas brasileira e portuguesa.

Holanda 2 Dinamarca 0

Futebolisticamente, a Holanda é agora conhecida como a Laranja. Mas em tempos foi conhecida como a Laranja Mecânica (lembram-se do filme de Stanley Kubrick? A música era qualquer coisa digna de ser ouvida).

Porquê Mecânica? Por causa do que eles lá chamavam o Futebol Total. Em que os defesas também atacavam e os avançados também defendiam. Logo, baralhavam os adversários. E ontem a Holanda ganhou limpinho, nem precisava que um adversário marcasse na própria baliza porque não precisava dessas ajudas. É uma das selecções favoritas, juntamente com a Alemanha, Brasil, Espanha Argentina e Itália. Não, não nos esquecemos de Portugal mas … bem, adiante.

Japão 1 Camarões 0

Desta não se estava à espera. De facto, os Camarões têm muito bons jogadores mas aquilo lá é um bocado como aquelas orquestras de província, em que cada virtuoso toca para o seu lado. Os Camarones são muito individualistas. Faltou-lhes fio de jogo, isto é,  jogo colectivo. Ciúmes uns dos outros???  Talvez! Os Samurais aproveitaram e arrumaram-nos.

My name is Lini, Fellini

Itália 1 – Paraguai 1

O George também não esperava estes resultado. O Paraguai até impressionou. A Itália é sempre aquela equipa cínica que marca mesmo não merecendo. Tem muita experiência, maturidade e sabe quando e como deve atacar. Não adianta ficar a pensar no resultado. A Itália vai passar à fase seguinte e — pronto.

No ultimo Campeonato do Mundo em 2006, jogou mal de principio e acabou a ganhar o jogo e o Campeonato, contra a França e ainda teve o Materrazzi a levar uma famosa cabeçada do Zidane. Esta é uma selecção muito perigosa e matreira.

Nova Zelândia 1  – Eslováquia 1

Talvez estas sejam das selecções mais fracas deste Mundial Africano. Para alguns jogadores, a bola até atrapalha, pois é redonda e rola, o que a torna fungível. Para estes dois deviam ter utilizado uma bola … quadrada. Talvez um cubo com arestas arredondadas. Um Rubik’s Cube sem pontas.

O jogo foi a maior seca, era tão mau, tão mau, que o meu controlo remoto mudava de canal sozinho sem eu fazer nada. Sem jogadores de topo ou pelo menos longe da ribalta. Por outro lado, é um jogo excelente para se fazer uma siesta, das 14:00 ás 16:00 ou um pouco menos só para ver o golo da Nova Zelândia e a cara perfeitamente lixada dos Eslovacos, que estiveram a ganhar por 1-0 até aos últimos instantes da partida e já sonhavam com telegraminhas de felicitações lá de onde eles vêm. Esta foi de facto uma grande  … partida que nos pregaram. Bem, de qualquer maneira, a haver um vencedor, teria que ser a Eslováquia, que dominou mais o jogo, um pouco no sentido daquele velho ditado que diz que em terra de cegos quem tem olho é rei. Foi a estreia da Eslováquia num Mundial de futebol.

Portugal 0 – Costa do Marfim 0

Dada a impenitente pendência lusofónica desta casa, gasta-se um bocado mais de cuspe analítico neste jogo e no dos nossos brothers brasileiros.

O jogo com a Costa do Marfim foi um em que, como diria o jogador Cristiano Ronaldo, prontes, ambas as equipas, prontes,  tiveram um real cagaço em perder o jogo, prontes. Para além dos encontrões e aquela piada de maricon do Erricson de colocar o Grobga sentada na cadeira estilo bomba atómica à espera de entrar para resolver a coisa (não resolveu porra nenhuma) no fundo não arriscaram muito e aquilo deu num empate que põs as duas selecções a fazerem contas de cabeça.

E fazer contas é a sina dos Adamastores, que se apuraram para este Mundial a fazer contas at last minute. Eles e dois terços de Portugal. Aliás, tem sido quase sempre assim. Acaba por ter mais piada pela imprevisibilidade e conjuga-se bem com aquele espírito épico-sofredor-fatalista-poético e de incerteza que faz os portugueses beber muito vinho, cantar fados deprimentes, eleger políticos incompetentes que lhes mentem como respiram e no fim deixar o país inteiro afundar-se, compor odes sobre como a vida é um calvário que pode e quase sempre acaba mal, e para arrematar, o final da Mensagem do Fernando Pessoa, sugerindo que no fim falta sempre fazer mais qualquer coisinha, havendo tempo, e tempo havendo, para…fazer mais umas continhas, claro.

O resultado final deste jogo deixa tudo em aberto (para se fazer contas) mas, na opinião do nosso treinador de Sofá George S. Ribéro, a exibição foi muito pobre, os tugas sem arriscarem muito, com passes e mais passes e mais passes, um futebol sem profundidade, os Adamastores presos de movimentos e até displicentes.  Se calhar talvez as duas semaninhas de estágio na bela Covilhã com boa comidinha e partida para a África do Sul uma semana antes do inicío do Mundial tenha sido muito pouco (o exmo. Leitor coloque aqui a sua desculpa favorita).

Aliás, segundo uma revista da praça, durante o estágio, os jogadores levantavam o rabiosque da cama às 09:00 da madrugada, passavam horas a jogar matraquilhos, disputar partidas de pingue-pongue, jogar jogos de playstation e, infamemente, ainda lhes foi retirado o álcool do bar por causa das tentações, o que é uma estupidez. Coincidentemente, é precisamente isso que faz o meu puto de dez anos. A do álcool não entendo. O Coluna foi supremo e toda a gente sabe que emborcava um bom tintol antes e depois, e se preciso durante. O Queiroz, que é mocambicanês e que conhece perfeitamente o Sr. Coluna, devia aprender umas coisas com ele. O Eusébio aprendeu e foi o que foi.

Quanto aos melhores em campo do lado português foram, segundo o George, o Raúl Meireles, o Fábio Coentrão e talvez os centrais Ricardo Carvalho e Bruno Alves. O Deco esteve muito apagado. O Liedson, muito desapoiado, nada fez. O Cristiano Ronaldo (que nos intervalos do jogo aparecia nos anúncios do Beije a dar tarolos numa bola e a dizer para comprarmos uma conta qualquer) ainda teve uma bola a bater na barra e a partir daí andou o resto do jogo a passear. Ainda se envolveu com um Costa Marfinense que lhe deu uma canelada e levou um cartão amarelo desnecessáriamente, penso que por insultá-lo em madeirense em vez de marfinense. O Danny também jogou abaixo das suas possibilidades. A dada altura, na segunda parte, Portugal passou a jogar em 4-4-2 com o Liedson e o Ronaldo na frente, Simão e Deco nas alas e Raúl Meireles e Pedro Mendes no miolo. Um único senão: O Deco TEM que jogar no meio e não encostado à direita mas o esquema táctico estava a melhorar quando o Carlos Queiroz achou que estava muito melhor, bem de mais, e então resolveu mudar tudo. Entrou o Tiago e pronto, lá vieram os Africanos para cima dos Tugas. Esquema a rever no próximo jogo com os filhos dedicados do Grande e Querido Líder Kim Sung Il.

A surpresa do dia: segundo a Fifa, o Man of the Match foi o Cristiano Ronaldo! Estes tipos realmente não acertam. Isto deve ser obra duns infiltrados do Real Madrid…o quê, o nome agora também é estatuto no futebol? Houve melhores de ambas selecções e ele não foi it.

Brasil 2  – Coreia do Norte 1

Nós devíamos colocar ali em cima uma imagem brasileira mas por uma questão de estética que realmente me diverte, vai uma celestial alusão aos seus adversários do dia.

Quando o jogo começou, os nossos irmãos brasileiros já sabiam que mais cedo ou mais tarde iriam trucidar estes tipos. Arriscando a ira do Grande e Querido Líder e filho do Pai de todos os valorosos cidadãos-combatentes norte-coreanos, tem que ser dito que um só jogador do Brasil deve valer tanto como metade da equipa inteira da Coreia do Norte. O que ninguém esperava era que o Brasil sofresse um golito, muito sofregamente festejado pelos Coreanos nortenhos, coitados, pois deve ter sido a quota minima que o Querido Pai lhes disse antes do jogo para trazerem para casa senão levavam todos no focinho e eram despachados para o meio dos campos de minas da DMZ. Assim, a televisão norte-coreana, que activamente pratica a “cultura do orgasmo” versão Kim Il Sungueana (op. cit. vide J.C.  das Neves), que em vez do jogo (que -admita-se – só iria distraír os filhos do Grande Pai do usufruto da sua Felicidade Eterna) transmitiu mais uma daquelas mega-chachadas sobre qualquer coisa do Filho do Grande Líder, pôde interromper a emissão com as notícias de mais uma Grande Vitória sobre a escumalha Ocidental, marcando um Golo Patriótico durante o jogo contra uns estrangeiros quaisquer que falavam uma língua impronunciável. Que não eram nem os chineses nem os japoneses, pois tinham a pele com cores esquisitas e os olhos redondos.

Pode ser que confiança a mais tivesse dado nisso de os nossos irmãos terem deixado escapar um golo para dentro da baliza brasileira. Mas a verdade é que estava frio como o caraças lá em Jonesburg, nem os tipos com as Vovozelas conseguiam aquecer a goela.  E há que reconhecer algum espírito de generosidade na vitória. Aliás, se conheço Lula da Silva, agora que o Brasil está a emergir, daqui a nada ele está a bordo do Lula One a caminho de Piong-Pangue para obrigar os coreanos a acabarem com aquela macacada toda que dura há mais que meio século.

No fim, o resultado final obviamente não espelha a diferença que existe entre estas duas equipas. 7 a 0 era mais realista. Para além da qualidade do futebol Brasileiro ser vastamente superior,  digamos que foi uma vitória da fantasia sobre um esquema táctico (muito) mais rígido.

Se alguma coisa fez, o Brasil provou hoje que é um sério candidato a Nº1 do Mundial.

O golo do defesa Maicon foi … simplesmente soberbo. A esta hora o guarda-redes norte-coreano ainda deve estar no quarto dele (guardado pela SNASP Kim-Il Sungueana, que treinou a moçambicana em tempos) a tentar desenhar a jogada, para ver se compreende como é que a bola passou entre o corpo dele e o poste, chutada de um ângulo quase impossível. Como dizem os nossos irmãos do Acordo Ortográfico – Jóia!! Válêu!!!! Grande golo do Maicon que foi este ano treinado pelo José Mourinho, no Inter de Milão. Maicon, indubitavelmente, the Man of the Match.

Grande tristeza para o treinador norte-coreano, que numa entrevista antes do jogo disse que queria lá saber dos brasileiros, os seus homens iam ganhar tudo e todos pois queriam trazer mais uma vitória e um sorriso aos lábios do Dear Leader. Oh santa pachorra. Eu já vi um filme assim, acho que o Tom Hanks, em que ele vivia o que mais tarde se descobriu era uma vida fictícia, para alimentar uma telenovela realista, em que ele era a personagem principal. No fim descobriu a verdade, não gostou e voltou para a redoma.

Acho que era uma comédia.

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3 comentários »

  1. Brilhante parceria ABM. Esse tal de George existe mesmo ou nao passa do teu lado futebolistico envergonhado de se assumir como tal? Agora ate a mim me apetece ver o mundial…. Muito bem!

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    Comentar por AL — 16/06/2010 @ 5:52 pm

  2. Sra Baronesa

    Apesar de inspirado naqueles heterónimos do Sr. Fernando Pessoa, e de a internet a tal se proporcionar, até esta data, peque a ocasional suspeita, nunca fiz uso dessa figura de estilo.

    Realmente não risco uma linha em futebol e para além do Mourinho e do Cristiano Ronaldo, estou a leste do que se passa no futebol.

    O George Ribéro não só existe, como é um especialista no assunto, há anos que vê tudo e mais alguma coisa relacionado com o futebol. Quando aqui a casa começou a série “Boletins do Mundial”, aí ao segundo que escrevi apercebi-me que se não dissesse nada sobre os jogos em si estava feito. Em desespero de causa (os Maschambianos não perdoam estas coisas) telefonei ao George e pedi-lhe apoio técnico, de forma resumida, o que tem feito e estou-lhe grato pela paciência de me aturar.

    Os que visitam esta casa poderão aferir se estamos a dar o tiro para o lado certo… sendo que eu labuto mais nas questões digamos que acessórias e o George na questão futebolística per se. Eu edito a versão final.

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    Comentar por ABM — 16/06/2010 @ 6:05 pm

  3. Bem-vindo seja esse co-ma-schambeiro

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    Comentar por jpt — 16/06/2010 @ 11:45 pm


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