THE DELAGOA BAY REVIEW

25/06/2010

O CENTURIÃO CAÍDO

Filed under: EUA — ABM @ 5:31 am

A afegã mais famosa do mundo

por ABM (Sexta-feira, 25 de Junho de 2010)

Esta crónica quase descarrilou com o anúncio vindo de Mónaco, informando que o monarca reinante daquele magnífico paraíso fiscal a uns quilómetros de Nice, Alberto, 52 anos, vai casar com a antiga nadadora sul-africana Charlene Wittosck. Os Maschambeiros, embevecidos, aplaudem.

O tema desta crónica, no entanto, é o General Stanley McChrytal, até ontem o chefe pouco contestado do esforço de guerra norte-americano (e “aliado”, o que inclui 266 portugueses que por lá andam a expensas do Estado português). Até ontem, porque Barack Obama, que parece ainda estar a testar as águas enquanto supremo chefe das forças armadas norte-americanas, foi à televisão e anunciou que mandava substituir McChrystal pelo mais consensual General Petraeus na condução do que é que seja que os americanos pretendem fazer no Afeganistão.

O que é curioso, por duas razões.

Primeira Razão

A primeira, é que, para Obama, a questão da guerra, iniciada de forma quase imprudente pelo seu muito criticado antecessor, fora um tema central da sua candidatura. Ele era, afinal, o candidato do bom senso e até da Paz. Na Suécia, o Comité Nobel até se lembrou de lhe atribuir o prémio da Paz, deixando muitos de boca aberta com o gesto, até certo ponto até o próprio Barack, que, preocupado com o sentido em que as coisas andavam domesticamente, fez um discurso quase bélico perante a sua algo atónita audiência.

Ora, sendo um tópico central da sua candidatura, teria que ser um ponto fulcral das suas decisões assim que tomou posse como presidente dos Estados Unidos.

E, até certo ponto, foi. Sob a providencial e algo inesperada liderança de Petraeus (uma escolha resultante do total desespero da equipa de George Bush) os americanos passaram a gestão da guerra e do país aos iraquianos, que efectivamente passou a ser uma guerra civil, em parte alimentada por vizinhos poderosos e desconfortáveis por ter um Iraque que se dá com os Estados Unidos, à sua porta.

Mas nessa altura já todos percebiam que o grande problema iria ser no Afeganistão. Obama decidiu mudar o foco da guerra americana para aquele país, aumentando significativamente o número de tropas e orçamento para fazer frente aos radicais islâmicos que lutavam pelo controlo do terreno, contra um governo assediado, liderado pelo presidente Karzai.

Sendo uma guerra supostamente baseada numa coligação internacional e com contornos diplomáticos e sociais muito complexos, para não falar de que seriam certamente os norte-americanos o principal financiador e sustentáculo de todo o aparato, a escolha de McChrystal, um cowboy militar irreverente e desde o primeiro momento defensor de uma guerra sem quartel aos rebeldes taliban, baseada numa luta incessante através de equipas de black-ops (cujo número no terreno quadruplicou), deixou alguns de boca aberta.

No espaço de um ano, a coligação internacional efectivamente desmantelou-se, o número de civis mortos por “engano” ascendeu a níveis difíceis de aceitar, e no fim o próprio McChrystal teve que cingir os seus homens de agirem da forma como estavam a agir, pois os próprios americanos (para não falar dos afegãos) consideravam a sua actuação inaceitável. Desprezava a diplomacia e os líderes da sua coligação, que a todos chamava de “mariconços” sem excepção. E em vez de lidar com Karzai, cujo desempenho tem sido cada vez mais posto em causa, confraternizava com ele.

Mas há muito mais. McChrystal desprezava o seu chefe e quase todos os que o rodeavam.

O que me traz à segunda razão.

Segunda Razão

O que acabou por trazer abaixo o comandante em chefe das tropas americanas no Afeganistão não foi tudo o que disse ou fez. Pese a impressão que todos temos de que o presidente dos Estados Unidos é das pessoas mais bem informadas no planeta, o que o fez decidir substituir McChrystal (a primeira substituição a este nível desde que Harry Truman despediu o General MacCarthur no fim da guerra da Coreia nos anos 50) foi um artigo escrito para uma revista americana, o Rolling Stone Magazine.

Na edição que vai ser publicada nos Estados Unidos hoje, dia 25 de Junho.

E que, para os Maschambianos que lêm inglês e que terão a paciência de o ler, pois é um pouquinho longo, pode ser descarregado aqui.

Mas que garanto que mais do que vale a pena ler pois está soberbamente escrito. E é quase inacreditável.

Claramente, tragicamente, Obama enganou-se na pessoa que escolheu para esta missão crucial para os Estados Unidos.

No fim, com a sua arrogância, McChrystal prestou um mau serviço ao seu presidente e ao seu país, e por extensão a todos nós. A guerra no Afeganistão não é uma guerra qualquer. Se o Médio Oriente permanece o foco de tensão global, um Afeganistão dominado por fundamentalistas islâmicos poderá ser – e já foi – uma ameaça séria à estabilidade do mundo. Por isso é que há 266 portugueses (heróis todos eles) naquele esforço e por isso é que vale a pena, e faz sentido, eles estarem lá. Eu duvido da inocência do acesso de um jornalista do Rolling Stone Magazine ao seu círculo restrito. Provavelmente McChrystal já sabia que tinha os dias contados e, na sua maneira narcisista e exagerada de gerir as suas relações, quis sair batendo com a porta. Lamentavelmente.

O seu substituto, o General Petraeus, não cometerá os mesmos erros.

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