THE DELAGOA BAY REVIEW

25/06/2010

O SONHO QUE EU TIVE

Filed under: António Botelho de Melo, História Moçambique — ABM @ 3:37 am

por ABM (Sexta-feira, 25 de Junho de 1975)

Foi há 35 anos e parece que foi há momentos.

Em 1975 eu tinha 15 anos de idade.

Um ano antes, em finais de Abril, descobrira que a independência da minha terra, que sabia que viria um dia próximo, afinal viria muito mais depressa. Afinal, eram uns homens brancos em fatos cinzentos na Metrópole a que agora (então) chamavam “fascistas” que impediam a independência da minha terra. Fizeram uma guerra por causa disso. Os “terroristas” afinal eram os da minha terra e haviam lutado contra os outros. Não eram terroristas.

Eram libertadores.

Quando chegaram os primeiros guerrilheiros para patrulhar a cidade de Lourenço Marques, vinham mal vestidos, armados até aos dentes e alguns de óculos escuros, não falavam português, eram rudes. Por causa de uma série de distúrbios em Setembro e Outubro, toda a gente que eu conhecia na Polana pareceu acreditar que as coisas iam piorar, não melhorar. Na minha escola, os professores abandonavam os postos, faziam as malas e iam-se embora, para o longínquo Portugal. Nos jornais, a retórica agudizava-se: tudo era questionado, tinha que se reinventar a sociedade, tudo estava mal.

No fim do ano, receoso de perder o ano escolar por as aulas no liceu estarem a tornar-se numa brincadeira, decidi ir estudar para Coimbra. Milagrosamente, os meus pais autorizaram e arranjei maneira de para lá ir, apesar de nem sequer me ocorrer alguma vez questionar a minha “moçambicanidade” ou o apego ao que era o único lugar do planeta a que eu chamava “a minha casa”. Tinha 15 anos. Estudar era a prioridade. A única prioridade. Fui para Coimbra, a única cidade que gostara de visitar em Portugal.

Onde, por ser branco, ninguém reparava que eu era africano.

Em Junho de 1975, os meus pais continuavam a viver em Moçambique, se bem que reportavam que tudo se estava a complicar rapidamente. A cidade estava-se a transformar num campo de concentração em que todos eram suspeitos. O meu pai não ligava, fazia parte da mudança de regime e de poderes. Rapidamente Moçambique iria entrar nos eixos. Tanto havia por fazer e o futuro só podia ser risonho. Já a minha mãe não estava confiante: “eles não sabem o que estão a fazer e querem um ajuste de contas”. Para ela, uma discreta açoreana arrancada das ilhas pelo aventureirismo do marido, Moçambique nunca foi um poiso seguro. “Esta terra não é nossa, é deles. Um dia têm que tomar conta do poder”. Já tinha vivido sete anos em Macau, onde o meu pai comandara um pelotão de … moçambicanos, as tropas Landins. Irónico, o meu pai açoreano a comandar cem moçambicanos em Macau nos anos 50. Parece outro mundo dentro de outro mundo.

No dia 25 de Junho de 1975, eu estava em Coimbra. Todo o dia escutei colado a um velho rádio Panasonic preto do professor José Sacadura, a emissão em directo de Lourenço Marques feita pela emissora nacional portuguesa. Quase que nem acreditava. Meu Deus, chegou o Grande Dia. Finalmente. Moçambique independente. Quase que me beliscava. À meia-noite em Moçambique (uma ou duas horas antes em Coimbra) com dificuldade, de entre o ruído das ondas curtas, ouviu-se a voz de Samora Machel a proclamar a independência. Foram momentos de emoção. A minha terra tinha todo o futuro pela frente. E os erros tinham-se corrigido: agora eram moçambicanos a tomar conta do seu governo.

Cumpria-se o destino.

No Estádio Salazar, rapidamente rebaptizado de Estádio da Machava, soube depois, estiveram o meu pai, como jornalista da Tribuna, onde ele escrevia umas coisas (a maior parte a ver com futebol, se me lembro) e uma irmã minha.

Uns meses depois, sem pré-aviso, apareceram-me o meu pai e a minha mãe à porta da casa em Coimbra. Cada um com uma mala. Exaustos. Tinham decidido sair de Moçambique. Acharam que não era possível viver mais lá. Toda a família enfrentava um futuro de total incerteza e dificuldades.

Muitos anos depois, descobri que o novo governo moçambicano tinha passado uma lei qualquer da nacionalidade. Afinal eu não era moçambicano, nem podia ser. Era português. Diziam-no os meus irmãos moçambicanos. Como os meus pais eram açoreanos de origem, e eu era menor, não tinha qualquer voto na matéria. Não interessava o que eu pensava, o que eu sentia, o que tinha visto, pelo que tinha passado. Os dados haviam sido jogados. A História não se compadece. Para todos os efeitos, sentia-me apátrida.

A vida continua, e em geral para a frente. Pus o assunto de lado, guardei os meus sentimentos para mim, e fiz pela vida. Trinta e cinco anos depois, continuo a achar que os moçambicanos são meus irmãos. Tendo vivido em meio mundo, ainda me sinto em casa em Moçambique, apesar de todas as reviravoltas, e de agora precisar de obter um visto de Estrangeiro para visitar a minha terra. E de lá ser tratado, por quem não me conhece, como tal. Até há quem ache que foi muito bem o que fizeram a gente como eu, apanhada pelos ventos desta História. E necessário o percurso em que a minha terra se tornou durante décadas um dos países mais pobres do mundo. Onde morreu mais que um milhão de pessoas. Para quê? não sei.

A tudo isso assisti, de muito longe, indignado, preocupado. Quando falava de Moçambique, a minha família sempre me dizia “esquece aquilo”.

Mas nunca esqueci aquilo.

E, ironia das ironias, um dia tive a chance de voltar e até de fazer lá umas coisas. Foi uma sorte que tive. Um privilégio. E aí pude confirmar que eu tinha razão. Que não podia, que não devia, esquecer. Não me era possível esquecer.

E, após um quase apocalipse, vi Moçambique, lentamente, a emergir novamente das cinzas. Cheio de problemas, tantos problemas.

Mas a emergir.

Senti nisso algum conforto. Pois a promessa de Moçambique, a mesma promessa que eu senti naquele momento, naquela noite escura em Coimbra em Junho de 1975, quando fechei os olhos e sonhei, para a única terra que sempre senti como a minha, tardiamente, estava, finalmente, a começar a cumprir-se.

E como esse sonho era, e é, belo.

A minha terra, independente.

3 comentários »

  1. Quero cumprimentá-lo pela excelente memória e dar-lhe os parabéns pela independência. Muito boa crónica.

    Comentar por ERFERREIRA — 25/06/2010 @ 6:41 pm

  2. Sr Ferreira

    É só uma notinha para assinalar o que foi aquilo para mim… obrigado.

    Comentar por ABM — 25/06/2010 @ 6:49 pm

  3. Imagine o que foi assistir aos festejos, no local. Imagine que , mais pessoas que também gostavam, gostam de Moçambique, assistiram ao desfil da Independência. Mas imagine também que naquela altura, foi proposto assinar um requerimento, era assim que se chamava, a quem tinha mais de 10 anos de Moçambique, poder ficar com a nacionalidade moçambicana e tivesse regeitado, que tal como o ABM, não tiveram culpa de nascer noutro sítio. A diferença é que o ABM, nasceu em Moçambique, o outro tinha nascido em Portugal. Imagine também que a melhor solução foi o não ter assinado o requerimento ( Refiro- me a finais 1976 ). Ñão foi fácil. Por isso há quem tenha entranhado o cheiro, daquela terra e os outros que a conheceram porque foram cooperar, ou chama-lhe outra coisa qualquer, foram, se calhar aprender a gostar, com vida facilitada, vida de latinfundiário (para usar uma palavra que não foge ao nome do sítio).

    Comentar por js — 25/06/2010 @ 11:30 pm


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