THE DELAGOA BAY REVIEW

01/07/2010

A SUBSIDIÁRIA HESPANHOLA

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

Esta nota vem na sequência de um desabafo algo apressado que fiz atrás.

Eu sei que pode ser penoso para alguns dos exmos. Leitores acompanhar este assunto meio esdrúxulo de uma assembleia geral de uma empresa de telefones portuguesa e porque é que eu atrás refiro ao que aconteceu como o equivalente da explosão de uma bomba atómica no firmamento económico português.

Mas peço a indulgência de me acompanharem, e eu prometo manter as coisas simples. O assunto acho que importa entender.

Ora vamos lá.

Era Uma Vez a Pê Tê

A PT, sigla que descreve a empresa anteriormente conhecida como Portugal Telecom, opera um conjunto de empresas total ou parcialmente detidas, desde as redes de telefone, dados, conteúdos, televisão por cabo, satélite, etc. Outrora um gigante (para Portugal) publicamente detido, a empresa foi sendo privatizada e hoje é uma empresa privada, mesmo se alguns dos seus accionistas sejam entidades afins ou alinhadas com os governos do dia. Dada a sua dimensão e importância para Portugal, o governo há uns anos atrás achou por bem criar algo chamado “acções douradas” (em inglês, golden shares), que são apenas 500 acções, mas a quem foram conferidos o direito de veto numa série de circunstâncias. É uma espécie de Conselho da Revolução no mundo dos negócios (o Conselho da Revolução existiu em Portugal até 1982, que não era eleito e era composto por uns ilustres quaisquer, tinha a função de fiscalizar e vetar o que os cidadãos e o governo faziam. Podia vetar legislação aprovada pelo parlamento).

A Galinha dos Ovos de Ouro

De entre as várias negociatas que fez ao longo dos anos, muitas delas más, fez uma que foi um verdadeiro negócio da China: há uns anos atrás, ainda estava o Brasil naquela fase indefinida de crescimento, a PT comprou metade uma empresa no Brasil chamada Vivo. A Vivo essencialmente opera na área dos telefones móveis mas tem hoje sérios atractivos: a) cerca de 47 milhões de clientes (isso é cinco vezes mais que a totalidade da população portuguesa) e a crescer rapidamente, b) é muito rentável, c) tem perspectivas de crescimento consideráveis, se se compararem com o mercado português, que está esgotado, ou com os restantes investimentos da empresa, que nem chegam aos calcanhares daquilo que a Vivo representa, d) complementando o que está dito atrás, opera no Brasil, de longe a maior nação na América Latina, e que tem vindo a crescer de forma muito interessante nos últimos cinco anos. O Brasil é considerado um mercado estratégico para Portugal e para as empresas portuguesas; e e) os lucros da Vivo neste momento representam 46 por cento das receitas brutas do grupo PT. É muito dinheiro.

De Lá Nem Bons Ventos Nem Bons Casamentos

O pequeno problema que a PT teve neste caso desde a origem, tem que ver com quem se meteu quando comprou a metade da Vivo (e recordo que quem estava do lado da empresa hespanhola na altura era um português, o genial António Viana Baptista, filho de José Viana Baptista, um antigo…ministro português dos Transportes e Comunicações).

A empresa hespanhola chama-se Telefónica, S.A., que é suposto ser a equivalente da PT em Hespanha.

Mas há uma pequenina diferença entre as duas.

É que, em termos de capitalização bolsista e dimensão dos negócios, a PT está para a Telefónica como eu estou para o Eng. Belmiro de Azevedo (o pater familias da Sonae).

Só para o exmo. Leitor ter uma vaga noção do que falo, neste momento a capitalização bolsista da PT (isto é, o valor total do número das acções emitidas vezes o valor da cotação de cada acção) é de cerca de 8 mil milhões de euros. A da Telefónica é de 84 mil milhões de euros. Só dez e meia vezes maior.

O que, em termos reais, significa que a PT lidar com a Telefónica é o mesmo que o exmo. Leitor querer beber um cházinho em sua casa com uma manada de búfalos raivosos.

O Campeão do Mundo Lá da Rua

Para os portugueses, a PT não é uma empresa qualquer.

É um “peso-pesado”.

É a maior empresa cotada na bolsa portuguesa. Em Maio de 2010, a PT representava 17.56 por cento da totalidade da capitalização do PSI 20, o conjunto das principais empresas portugueses cotadas em bolsa, no que era seguida pela EDP com 14.51 por cento e a Galp Energia com 13.51 por cento (ver a fonte desta informação).

Os portugueses em geral, e os políticos e os homens de negócios pós-25 de Abril ainda mais, vivem esta alegoria, agora e mais uma vez posta em causa por este evento: acreditam no capitalismo, acreditam na Europa, e ainda mais bradam a necessidade de irmos para Hespanha.

Mas mantendo a “independência nacional”. Ou, mais caritativa e quiçá mais tesamente, “mantendo os centros de decisão dentro de fronteiras”.

Esquecem-se de um pequeno detalhe: que, do lado de lá da fronteira, acontece precisamente o mesmo. Os hespanhóis também acreditam no capitalismo. Acreditam na Europa.

E acreditam que Portugal é ou poderá vir a ser, uma coutada sua, para caçarem até não haver mais caça.

No que são acompanhados por meia dúzia de angolanos com muito, muito, muito, dinheiro (é o petróleo, estúpido).

A diferença é que, no Portugal actual, os portugueses não parecem possuir de momento o génio nem, muito especialmente, o capital requerido, para travar este combate.

Isso já se viu em vários casos em ponto, como por exemplo na “expansão” do BCP para outros mercados, em que a Espanha foi quase sumariamente ignorada, para além de umas trocas de participações, a Caixa Geral de Depósitos viu-se grega para entrar lá dentro, e houve o quase caricato (mas genial) acto de despedida do Sr. António Champalimaud, quando foi até Madrid e vendeu todo o seu grupo financeiro ao Grupo Santander, quase provocando o pânico em Lisboa, e que motivou a célebre frase de um ministro, dizendo que Portugal não era uma “república das bananas”. Que o era, provou-se logo a seguir, quando partes do império Champalimaud foram retalhados e dados aos amigos, entre os quais a Caixa Geral e o próprio BCP, que já na altura era maioritariamente detido por estrangeiros, vingando o apelo patriótico de Jardim Gonçalves, que clamava para que os centros de decisão das empresas permanecesse em Portugal – isto é, sob o seu controlo.

Ou seja, desde o 25 de Abril, nunca se formulou uma estratégia de soberania nacional alternativa ao “orgulhosamente sós” de Salazar. Foram todos enchendo o papo com este ou aquele negociozinho, este ou aquele subsidiozinho, a capturazinha administrativa desta ou aquela oportunidade.

E aqui estamos, em 1 de Julho de 2010, os Hespanhóis prontos a começar a dar a machadada final.

E são estes os grandes sócios da PT e os donos da outra metade da empresa brasileira Vivo.

A Vivo a Cores e ao Rubro

Desde há cerca de dois anos, a Telefónica começou a sondar a PT para lhe vender a sua metade da Vivo. Não é preciso ser-se nem Henrique Granadeiro, nem Zeinal Bava, o descendente de família com raízes moçambicanas que agora aufere um salário milionário como o número um executivo da PT, para se perceber que, tendo em conta a evolução da Vivo e do mercado brasileiro, que, sem ela, a PT valia pouco mais que um chavo. Se vendesse e tivesse depois ideias de como investir esse lucro, ainda se podia encarar uma venda.

Mas a PT nunca apresentou, nem parece ter ideias do que fazer se vendesse a Vivo.

Coitados.

Por sua parte, a Telefónica, desejosa de aumentar o seu espólio de participações, insistia em que a PT saísse da Vivo.

E, há uns meses, passou ao ataque.

Comprou mais acções da PT na bolsa e tornou-se um dos seus accionistas de referência.

Formalmente, propôs à PT um preço pela venda da sua participação.

A PT recusou.

A seguir, subiu consideravelmente a parada.

A PT recusou outra vez.

Até que a semana passada, a Telefónica colocou na mesa um preço quase exorbitante (segundo o artigo do Economist de hoje, uma medida do seu próprio desespero) : oferecia 7.15 mil milhões de euros pelos 50 por cento da Vivo que são da PT.

E deu um prazo para os accionistas da PT se decidirem.

A reunião dos accionistas da PT realizada (a Assembleia Geral, ou AG) ontem ao fim da manhã era para decidir se vendiam ou não.

A Assembleia Geral da PT

Na AG da PT realizada na manhã de ontem, estiveram representados 68.5 por cento da totalidade dos accionistas. Dos votos presentes, para se aprovar a venda da participação de 50% da PT na Vivo, eram necessários 50 por cento mais um voto de entre os presentes. Sabe-se que 73 por cento dos accionistas votaram por vender. Entre eles, incluia-se o Banco Espírito Santo, um dos principais accionistas e uma presença quase histórica na PT. Mas o representante do Estado português apareceu na sala com a sua “acção dourada” (500 acções com direitos especiais) e votou contra. Ordens de Sócrates.

E assim, não foi aprovada a venda.

O Que Disse Ricardo Salgado

Numa conferência de imprensa a seguir à assembleia de accionistas, Ricardo Salgado, presidente do BES, disse tudo o que havia a dizer nestas circunstâncias.

Que, independentemente de tudo o resto, a matemática era (é só podia ser) uma.

Que a capitalização bolsista total da PT hoje era de cerca de 7.8 mil milhões de euros.

Que a oferta da Telefónica pela venda dos 50 por cento da Vivo era de 7.2 mil milhões de euros

Que a diferença entre a oferta de uma participação da PT e a própria capitalização bolsista da PT era de apenas 800 milhões de euros.

E fez uma pergunta retórica: será que tudo o que a PT tem para além da Vivo só vale 800 milhões de euros?

A sua resposta óbvia e cristalina: que o preço oferecido pela Telefónica era mais do que bom, mas que, não havendo resolução para esta situação, que o passo lógico seguinte será a Telefónica simplesmente fazer uma OPA sobre a PT (ou seja, comprar toda a PT através de uma Oferta Pública de Aquisição), transferir na mesma a Vivo para a Telefónica, e ficar com o resto ou mais tarde vender a carcaça do que resta da PT a outra entidade.

Ricardo Salgado foi mais longe na sua explicação: referiu que, devido ao pacote de regulamentação bancária conhecido como Basileia III, irá haver uma muito maior exigência do reforço do capital e da gestão dos riscos por parte dos bancos, entre os quais o seu, o que essencialmente não vai permitir ao BES, futuramente, deter participações em empresas não financeiras (como a PT).

Ou seja, a prazo, o BES, o maior accionista na PT, vai ter que vender a sua participação na PT de qualquer maneira. Basicamente, não terá como evitar ter que tomar esta medida.

E o lucro de uma venda da Vivo permitiria ao BES talvez reforçar os seus capitais próprios (como se espera que Basileia III virá impor). Ou a PT fazer outra coisa qualquer, como por exemplo limpar o seu passivo, que não é pequeno.

Ilacções

O governo português cometeu um erro de proporções verdadeiramente épicas ao vetar a venda da Vivo, pois isso poderá forçar a Telefónica, e, por extensão, a Hespanha, a testar a ideia, detida por alguns portugueses, de que o capitalismo que se pratica dentro de fronteiras lusas é ou pode ser diferente do que já está postulado para a União Europeia.

Pior, o que referiu Ricardo Salgado é totalmente correcto: o passo lógico seguinte da Telefónica é comprar a PT e torná-la numa subsidiária sua.

Será caricato usar as acções douradas para parar isto. Mas se o fizer, a PT e o governo português terão uma guerra de proporções épicas pela mão.

O que é mau para os negócios.

E a reacção, sempre fleugmática, da Comissão Europeia já foi divulgada e refere o seguinte: The Commission believes that the “golden share” is incompatible with european legislation, in particular as it constitutes an unjustified restriction on the free movement of capital and the right of establishment, in so far as it hinders both direct investment and portfolio investment.

E assim eu pergunto novamente uma questão de fundo, a única questão de conteúdo para esta geração de portugueses:

Que país é este que a actual geração de portugueses afinal quer que venha a ser?

Uma subsidiária de Hespanha?

Um país que pratica o capitalismo só quando lhe convém?

Se José Sócrates acha que a PT é “estratégica”, então que a compre e meta lá uns amigos a tomar conta daquilo. E voltaremos todos ao capitalismo cha cha cha dos tempos do condicionalismo do professor Salazar.

Para ver se é melhor.

4 comentários »

  1. […] A SUBSIDIÁRIA HESPANHOLA → […]

    Pingback por A PT E A BOMBA ATÓMICA | ma-schamba — 01/07/2010 @ 4:12 am

  2. Peço desculpa aos exmos Leitores, por gralha técnica a secção dos comentários esteve desactivada durante umas horas. Já funciona….podem disparar à vontade.

    ABM

    Comentar por ABM — 01/07/2010 @ 10:55 pm

  3. Não sendo especialista na matéria (aliás, especialista em nada), apetece-me sugerir àquele jornalista brasileiro que o ABM refere num post aí em cima, Evelson de Freitas(descobridor do reino da Suazilãndia no ano da graça de 2010),para quando estiver de regresso a casa, faça aqui uma paradinha neste reino de Portugal e da PT e reporte para o Brasil como é bela esta democracia lusitana, donde os absolutismos já foram varridos faz muitos muitos anos.

    Comentar por ERFERREIRA — 02/07/2010 @ 1:28 am

  4. Sr Ferreira

    Temo pelos resultados do jornalista. Especialmente se ele souber do Rei da Madeira.

    Comentar por ABM — 02/07/2010 @ 2:12 am


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