THE DELAGOA BAY REVIEW

09/07/2010

ROCAMBOLE* EM PORTUGAL

Filed under: História — ABM @ 3:16 am

por ABM (Sexta-feira, 9 de Julho de 2010)

Antes de mais, os defeitos de Histórias Rocambolescas da História de Portugal, composto por João Ferreira (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010): 1) o preço, 23 euros na FNAC, é um pequeno escândalo, e só espero que o João meta a melhor parte do que paguei no seu bolso; 2) está relativamente mal editado, na medida em que as suas milhentas pequenas histórias nalguns casos sobrepõem-se e, logo, repetem-se de vez em quando. Eu se fosse o João dava umas marteladas no texto aqui e ali e aquilo fluiria como uma brisa.

Mas, dito isto, que na verdade são males menores, vamos às coisas boas.

Apesar das suas 327 páginas (se se excluir o magnânimo, amigável prefácio de Ferreira Fernandes, eminência do Diário de Notícias, e a relativamente extensa bibliografia no fim do livro), tem uma estrutura com lógica e, mais importante, é eminentemente legível. O exmo. Leitor que sabe umas coisas sobre a história dos portugueses (a real e a ficcionada, isto é) não adormece ao meio da obra nem fica a pensar que está a ler um daqueles insuportáveis, grandiloquentes tratados sobre a história de Portugal. Creio que isto tem que ver com a dupla personna do João, que quando não é historiador é jornalista e vice-versa. Nesta caso, vem ao de cima o jornalista, que sabe que tem dez parágrafos para contar a história e não mais, não vá o seu leitor mudar de ideias e ler outra coisa. Da economia aplicada resulta uma eficácia que em geral não pagou um custo em termos de atenção ao detalhe e exactidão.

Então vamos a alguns detalhes, logo na parte I:

1. O “milagre de Ourique” – foi fabricado no século XV
2. As “cortes de Lamego” – tudo mentira. Nunca houve
3. A rainha Santa Isabel – era santa apenas no sentido etimológico mas não no eclesiático
4. Escola de Sagres – nunca existiu uma “escola de Sagres”. Tudo falso
5. D. Sebastião – foi um rei totó, com amplas provas disso

Na Parte II, sobre mortes violentas, entra nos detalhes de Inês de Castro, cuja morte foi um assunto de Estado, um pouco como o uso das acções douradas da PT por Sócrates a semana passada; o conde Andeiro, João II, a Inquisição, Damião de Góis, os Távora, D.Carlos e o filho e finalmente Sidónio Pais. Isto, suponho, para lembrar que nem sempre as coisas eram resolvidas amigavelmente.

Mas há muito, muito mais.

O livro de João Ferreira contém nada menos do que 68 destes episódiozinhos, que escalpa metodicamente.

Confesso que eu já mais ou menos sabia os detalhes de 80 a 90 por cento do que a obra relata. Só que o que sabia foi extraído de um monte de informação. Aqui está tudo arrumado, classificado, destilado e à disposição.

A única coisa que mais ou menos suscitou-me dúvidas foi quanto ao episódio de Sebastião de Aviz. Aqui na obra (página 41, 2º e 3º parágrafos) o João refere que, na sequência de Alcácer-Quibir, o seu corpo nunca foi encontrado, e que, talvez pela tentativa de arrumar o assunto de uma vez, não vão os seus (então) novos súbditos inventar a teoria do Encoberto – que, claro, inventaram – o novo rei, um espanhol filho e neto de portugueses, Filipe I, pagou um resgate por um corpo qualquer, que foi piedosamente trasladado de terras mouras para Portugal e depositado no Mosteiro dos Jerónimos, onde ainda se encontra hoje, apesar de não ser dos destinos principais de quem ruma aquele monumento religioso hoje em dia. Ora, em tempos li um relativamente espesso livro só sobre o assunto deste último monarca da dinastia de Aviz, e nesse livro parecia estar perfeitamente documentada, até ao que me pareceu o ínfimo detalhe, o percurso do corpo de Sebastião, desde Alcácer-Quibir até ao seu presente túmulo. Claro que entendo perfeitamente que, se eu fosse um árabe a precisar de umas massas e aparecesse um delegado de Filipe I com dois sacos cheios de moedas de ouro a dizer que queria o corpo de D. Sebastião, nem que eu matasse e depenasse a sogra, arrumava o negócio logo ali. Mas o João não consubstancia, e fiquei com o relato do outro livro atravessado na garganta.

Claro que isto se resolveria com duas penadas. Bastava fazer uma recolhazinha de osso e meter naquelas máquinas enormes que destilam o DNA e resolve-se logo se aquilo é o Dom ou se é um desgraçado qualquer que foi negociado a peso de ouro com os enviados de Filipe. Mas a julgar pela parvoeira que se viu com os ossos de Afonso Henriques em Coimbra, quase que mais vale ficar-se pela especulação literária.

Outra coisa que me surpreendeu algo (mas entendo perfeitamente que isto seja apenas uma coisa minha) é que o João voou desportivamente por cima de todo o episódio colonial afro-asiático. Mas entendo perfeitamente a perspectiva do João. Para quem é de cá, aquilo foi uma coisa menor num sítio mais longe que o caraças, que só começou há quinhentos anos e acabou com um distante bang em 1975. As lamechices do PREC, na mesma altura, com essas saudosas figuras luzidas do firmamento nacional de então (Mário Soares, Álvaro Cunhal, Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo Saraiva de Carvalho), mereceram copiosa nota.

Ou será que o João está-se a guardar para Rocambole Portugais, Parte II? sim, porque o filão que ele descobriu ainda nem vai a meio.

Se há algo que a obra de João Ferreira sucede em fazer é, espero, despertar um maior interesse neste alucinante percurso de que nós hoje somos menos que a mera pontinha de um longo, longo lápis. Gerações e gerações de portugueses lutaram desalmadamente, sofreram vicissitudes incríveis, lutaram e prevaleceram em circunstâncias que à partida não ofereciam qualquer margem para a esperança, mentiram, roubaram, vigarizaram, foram nobres, foram ignóbeis, apelaram a Deus, e o maldisseram também.

Tudo isso para que Portugal felizmente pudesse chegar aos nossos dias, para que pudesse ser governado por gente como os políticos que temos hoje, para que todos nós pudéssemos, em quase impecável democracia, comprar televisões plasma aos chineses e Mercedes aos alemães e cereais aos americanos e franceses (tudo a crédito) e os nossos filhos se tornassem ser a geração no agregado mais mariconça, mais mimada e menos preparada em 900 anos de história para tomar conta deste naco de terra e passá-la à geração seguinte (sem ser uma colónia espanhola ou um dócil apêndice de uma união política, isto é. Em geral essa é que é a parte difícil).

Uma geração que, paradoxalmente, sabe qual é o modelo de computador portátil mais caro e o té-lé-lé mais tecnologicamente avançado. Mas que não sabe qual é a sua história porque não a lê nem, assim, pode colher os seus ensinamentos.

Talvez com esta abordagem de João Ferreira essa geração preste um bocadinho mais de atenção ao assunto e os Maschambeiros entretanto se divirtam um bocado.

Quanto aos primeiros, vou esperar sentado.

*Sobre Rocambole, ver aqui.

1 Comentário »

  1. A verdade é que o mito é mais importante do que a história.
    É com o mito que se forma a idiosincrasía de um povo.
    Alem de que o sonho é, quase sempre, mais bonito do que a realidade.

    Comentar por Nuno Jordão — 11/07/2010 @ 1:39 pm


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