THE DELAGOA BAY REVIEW

06/08/2010

JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA

Filed under: Imprensa Portuguesa — ABM @ 5:06 am

Edward R Murrow, um ícone do jornalismo norte-americano

por ABM (6 de Agosto de 2010)

A morte de Mário Bettencourt Resendes veio salientar a minha constatação quanto à crescente precariedade e preciosidade, no actual jornalismo português, daquela mistura de qualidade, experiência, perspectiva, objectividade, independência e honestidade frontal que faz desta actividade profissional uma das mais nobres e quiçá importantes da vida social e política modernas. Mário Crespo também está lá. E também uma jornalista da SIC que tem enorme potencial (não sei o nome dela).

Mas pouco mais. Pelo menos mais um.

A entrevista que deu na estação por cabo TVI24 na madrugada de 6 de Agosto (programa Livraria Ideal, excelentemente apresentado por João Paulo Sacadura), veio recordar-me que esses elevados padrões de jornalismo existem e estão de saúde na pessoa de José Pedro Castanheira (JPC).

Para quem tem o azar de não saber, JPC faz jornalismo há uns 40 anos e há 20 que é jornalista (sob a designação de “repórter principal”, que espero queira dizer que receba mais umas massas no fim do mês) no semanário Expresso, de Lisboa, sendo a meu ver uma das suas maiores valias, ainda que algo sub-aproveitado, pois se JPC fosse americano ele hoje já estaria na equipa do 60 Minutes e teria uma bruta equipa e orçamento para fazer aquilo que eu acho que seria um serviço crítico a Portugal, seguindo os passos do grande Edward R Murrow (o senhor que está lá em cima a ler uma revista e que é um ícone do jornalismo norte americano e uma inspiração para mim e mais algumas pessoas, espero).

Na breve entrevista, José Pedro Castanheira explicou o problema da sua área de especialidade, que é simples.

Sobre isso, falo mais abaixo.

A sua presença no programa foi a propósito de um estudo que fez e agora publicou, sobre um tal José Aires de Azevedo, sob o título Um cientista português no coração da Alemanha Nazi, que à partida parece ser uma versão portuguesa do Dr. Mengele e que fez pesquisa clínica sobre “higiene” racial, a pureza da raça e essas coisas exóticas, muito na moda nos círculos de Hitler e em muitas partes da Europa nos anos 30 do século passado, onde se buscavam bases científicas para justificar porque é que as pessoas de raça branca estavam, e deviam estar, no topo da cadeia alimentar humana. Em 1943 Azevedo regressa a Portugal e basicamente é ostracizado e desaparece do mapa, queixando-se JPC que a família dele, que ainda anda por aí, fugiu dele (de JPC) aceleradamente, sabe-se lá porquê, deixando a história mais ou menos a meio (se calhar não acham lá muita piada ao que o seu antepassado andou a fazer, pois o tema estes dias é políticamente incorrecto).

JPC referiu ainda um assunto, uma outra história quase inacreditável, que tem vindo a analisar, sobre Annie, que, revela, foi a única filha do conhecido major Fernando Silva Pais, o número um da Pide nos últimos tempos da II República (aka “Estado Novo”) que às tantas casou-se com um diplomata suíço, que entretanto foi transferido para Cuba em 1959 e que, só para chatear, apaixona-se assolapadamente pelo liricismo da revolução comunista ocorrida então naquela ilha, e ficou lá a viver, participando alegremente nos seus rituais, desde andar em comícios fardada de verde à Fidel, a, de rabo para o ar, apanhar cana de açúcar de catana na mão na altura das colheitas, para ajudar la Révolución. Entretanto Silva Pais estava em Lisboa em cima da Pide a proteger a ditadura liderada sucessivamente pelos dois professores e a dar porrada em tudo o que estivesse à esquerda da direita, que, a acreditar no que se lê, era o país inteiro. Ela só vem a Portugal em 1974, depois do 25 de Abril. Foi ver o pai na prisão de Peniche, onde ocorreu um reencontro emocional. Ela aparentemente adorava o pai mas não a mãe.

Para saber mais, o exmo leitor vai ter que se comprar o livrinho de JPC.

Mas a parte da curta entrevista que me fez pousar a chávena de chá (o João Paulo Sacadura bem tentou mas com meia hora para incendiar e deitar os foguetes fez o que pôde, eu podia ficar a ouvi-los mais três horas) foi quando JPC falou da sua actividade profissional e proferiu uma frase quase murrowiana: referindo-se ao jornalismo actual em Portugal, disse qualquer coisa como “o estado da imprensa é o melhor termómetro do estado da democracia” – sugerindo em seguida que algo anda mal em Portugal.

E referiu fenómenos e tendências que infelizmente são facilmente constatáveis aqui do lado de quem consume o seu produto; a rápida tabloidização da grande imprensa portuguesa, o reforço do jornalismo sensacionalista e popular(ucho) – que ainda por cima tem a vantagem de ser muito mais barato e, pelo sensacionalismo (rasca) que lhe está associado, tem mais impacto. Diz ainda que o tempo presente é um desafio para o jornalismo de investigação, que é muito mais caro, e requer um tipo de abordagem que exige muito mais dos seus profissionais, pois não permite abordar os temas apenas pela rama, abordagem que estes dias é o pai nosso de cada dia.

Na televisão então é uma praga.

O que ele não disse, mas que para mim decorre, é que o negócio do jornalismo português, sendo cada vez mais corporativo e empresarial (já lá vão os tempos em que os jornais e as estações de televisão tinham um patrão e dono, que, bem ou mal, decidiam os seus alinhamentos) procura originar o produto o mais barato possível e que gere a maior receita possível (custo do programa a dividir por share de audiência mais receita publicitária agregada igual a lucro) sendo que, como membro da comunidade empresarial, terá assim a tendência de mais facilmente procurar consensos com a restante comunidade empresarial e os governos da casa. Os resultados directos são a prostituição da actividade, o debilitar do debate público e o enfraquecimento da vivência democrática.

Nos últimos quinze meses tem-se assistido a claros indícios desta tendência.

No caso da TVI, tudo indica que foi uma negociata: o negociar da conveniência editorial à conveniência política, com umas trocas de participações pelo meio e o expelir do casal Moura Guedes/Moniz de uma organização.

E não só aqui. Na mitológica CPLP (Brasil e Cabo Verde excluídos), onde imperam regimes que um estudo publicado a semana passada no Economist classificava como (em inglês, sorry) authoritarian ou flawed democracies, com poucas excepções, a tendência é ainda mais acentuada para se praticar um jornalismo mais cor de rosa, positivista, desenvolvimentalista, situacionista. Quantas Prisas e TVI’s há por lá.

Mas isto é apenas um pensamento.

Apesar de apenas ter tido tempo de referir apenas alguns tópicos, o que JPC abordou esta noite merece séria reflexão.

Por exemplo, imagine o exmo Leitor Edward R Murrow a investigar o chamado Caso Freeport.

Seria uma festa.

E para variar, por uma vez, credível.

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3 comentários »

  1. Sr ABM,

    Claro que se trata do excelente José Pedro Castanheira?
    Só agora dei pelo lapso (embora ele já venha do post que nos transmitiu a entrevista de Réne Pélissier), porque fui à procura da editora d’Um Português no Coração da Alemanha Nazi’. Estou curioso sobre este livro.
    Partilho a lástima sobre a escassez de bons jornalistas no rectângulo, mas outra coisa não era de esperar após a criação de cursos de jornalismo a esmo.
    A jornalita da sic, será a Cândida Pinto? Aprecio alguns trabalhos seus sobre Angola.
    Resta-me cumprimentá-lo por mais este excelente post.

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    Comentar por ERFERREIRA — 08/08/2010 @ 3:49 am

  2. Sr Ferreira

    Claro que é o José. Já corrijo… maschambeiro alerta vale por um exército. Obrigado.

    A Cândida Pinto anda um pouco arredada…não sei mesmo o que anda a fazer. Boa. Mas não é a pessoa a que me referi. Acho que a Sra faz a hora a seguir ao Mário Crespo na Sic Notícias depois das 10 da noite (hora de Lisboa). Vou ver se apanho o nome dela e depois registo aqui. Ela é muito boa, um pouco espartana mas aquela cabeça funciona mesmo. Preparada e focada quando dialoga com os convidados.

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    Comentar por ABM — 09/08/2010 @ 2:35 am

  3. Sr Ferreira

    A jornalista da SIC Notícias que atrás me referi é a Ana Lourenço. Modera um programa chamado Constrastes.

    Cinco estrelas a qualquer título.

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    Comentar por ABM — 11/08/2010 @ 5:08 am


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