THE DELAGOA BAY REVIEW

09/08/2010

MOÇAMBIQUE PARA OS RICOS

Filed under: Economia de Moçambique — ABM @ 10:59 pm

por ABM (9 de Agosto de 2010)

Segundo o sítio Panrotas, dedicado ao negócio do turismo, “o governo de Moçambique anunciou um aumento na taxa dos vistos para turista. Agora, as liberações passam a custar US$ 82 por pessoa no Aeroporto Internacional de Maputo e na fronteira de Komatipoort – as principais portas de entrada do país. A recomendação é para que todos os turistas, com viagem marcada para Moçambique, estejam cientes do aumento da taxa de visto antes da chegada.”

Sendo, supostamente, o turismo uma área crítica para o desenvolvimento do país, e a competitividade dos países feroz pela atracção dos turistas para visitarem as suas estâncias, é no mínimo curioso o anúncio desta medida, que deve ser das mais anti-turismo estrangeiro que eu já vi em muitos anos em qualquer parte do mundo.

Especialmente numa fase de recessão mundial e em que o produto turístico moçambicano ainda busca alguma definição e qualidade (a qualidade que há é ainda excessivamente cara, ou seja, pelo mesmo preço compra-se muito melhor noutros mercados.

Nomeadamente para o mercado português, que é um desses países ainda de alguma expressão e dos que ainda tem voos directos regulares para a capital moçambicana, exigir 82 dólares por um visto de entrada (que é meramente, admita-se, uma medida administrativa, agora com um cariz algo extorsionista), em cima do que já é exigido para viagem e estadia, este valor apenas vai tornar óbvio que o melhor é ir para outro lado qualquer.

Mas eles lá sabem.

6 comentários »

  1. Uma correcção creio que importante: os turistas britânicos, australianos, americanos e europeus não necessitam de visto para entrar na África do Sul e portanto não pagam (conforme informação do link fornecido no texto).

    Normalmente os países que querem desenvolver a indústria turística fazem precisamente isso…

    Comentar por Mussicadzi — 10/08/2010 @ 6:13 pm

  2. Por curiosidade fui consultar os casos do Botswana e Suazilândia e a situação é idêntica à da África do Sul… ou seja: americanos, britânicos, canadianos, australianos e a grande maioria dos europeus não necessitam visto e portanto não pagam para fazer turismo nestes países…

    Comentar por Mussicadzi — 10/08/2010 @ 6:19 pm

  3. Fui ver mais três países: Malawi, Maurícias e Namíbia “alinham” na mesma política da África do Sul, Botswana e Suazilândia – não cobram aos cidadãos com as nacionalidades acima citadas…

    Curiosamente o Quénia fez isto:
    “From 1 April 2009 until the end of 2010, Kenya has halved its visa fees to $25, with no cost for children under 16.”

    Comentar por Mussicadzi — 10/08/2010 @ 6:29 pm

  4. Sr Mussicadzi

    Agradeço os detalhes adicionais.

    Jpt

    Continuo a achar o privilégio caro e quiçá exagerado. E folgo em saber que, naquilo que porventura possa interessar, que no que concerne a circulação de pessoas e no mínimo a eliminação de vistos, ou pelo menos o seu pagamento, entre os “irmãos”, o que eu vejo é retrocesso, e não avanço. No caso português (que é o que eu sou, documentalmente) em troca dos milhões que supostamente são canalizados em termos de ajudas, de “cooperação” e de investimento, o mínimo de cortesia que se podia fazer é desonerar pecuniária e processualmente a pouca circulação de pessoas que transitam entre os dois países.

    Não o fazer é tornar ocas as lânguidas, repetidamente feitas, declarações de interesse em que os dois povos se aproximem.

    Sendo, adicionalmente, sabido, que a maioria crítica do turismo que produz receita a sério se faz do famigerado “primeiro mundo” para países como Moçambique, vir com esta da receitazinha do vistozinho para sacar mais algum é, como alguém já me disse, dar um valente tiro no pé. É assim que se vai desenvolver África? Moçambique? (ainda pensei que o dinheiro era para se dar a cada turista uma máscara para não respirar os benignos fumos e a poeira que vão ser cuspidos da Mozal, mas não).

    Ou, como já referi em título, se calhar a intenção é mesmo o país só ser para ser visto pelos ricos. Ainda que o tal de primeiro mundo estes dias ande com algumas dificuldades.

    Comentar por ABM — 10/08/2010 @ 7:42 pm

  5. 1. apenas disse que os preços dos vistos não eram exagerados. Mais, os preços dos vistos eram substancialmente diferentes. Por exemplo o visto obtido na embaixada moçambicana em Lisboa era subtancialmente mais caro do que o obtido em Mavalane ou RGarcia. Insisto, não serão os 30 usd a mais que constituem o obstáculo ao desenvolvimento do turismo. Este(s) radicam noutros locais – e fundamentalmente no oligopólio das viagens aéreas no espaço aéreo moçambicano [no qual partilha, com lauta percentagem, a TAP – e aí sim colhendo (directa ou indirectamente) contrapartidas da ajuda pública ao desenvolvimento e, até, de indução estatal ao investimento público-privado.] A isenção de vistos, a que aludes, presume uma reciprocidade – à qual Portugal dificilmente aderiria, em particular devido a questões multilaterais que teria que resolver na sua articulação europeia.

    Ou seja, a questão que levantas, sendo obviamente interessante, é algo de pormenor. O Estado moçambicano precisa de fundos,e a curto-prazo, e procura obtê-los assim. Não me parece que sejam estas as mão do rei midas mas enfim.

    A mim, neste eixo de referências, interessar-me-ia muito mais outra problemática que surge agora. O incremento (cerca de 1000 por cento: de 3000 para 30 000 meticais anuais) do pagamento das autorizações de residència anuais para estrangeiros (DIREs), que esse sim me parece de complexa compreensão. Por várias razões – quem poderá pagar 700 dolares anuais para ter o documento? Malawianos, tanzanianos machambeiros? Ruandeses refugiados? Zimbabweanos foragidos do colapso económico? Os núcleos indo-paquistaneses, muito diluíveis no país? Não me parece. Julgo, aí sim, ser uma medida “ad hominems” – em particular as “comunidades” (termo que apenas uso como descrição coloquial) de quadros portugueses, sul-africanos e brasileiros, as burguesias imigradas actualmente mais visíveis. No caso brasileiro com particular incidência de ligados aos interesses mineiros acredito que sejam soluções resolvidas pela(s) grande(s) empresa(s). Não tanto nos outros dois casos, de maior pulverização quanto à presença. Enfim, este é um caso que tem não só outras implicações económicas como, verdadeiramente, políticas [quanto aos Dires dos portugueses, a 700 dolares o ano, tem ainda a questão que – com toda a certeza o Estado português calará – de haver já um acordo aceite por ambos os Estados que isenta os cidadãos residentes de pagamentos sobre os vistos de residência. Mas nem isso servirá, julgo para tornear o assunto]

    Enfim, um longo comentário apenas para referir que nada me choca (nem me surpreende) nesta questão dos vistos de turismo.

    Compreendo os argumentos que referes bem como os do leitor Mussicadzi. Mas há uma grande distinção: a Africa do Sul, bem como Botswana, Maurícias, Suazilandia, Namibia têm realmente economias turísticas francamente importantes nos respectivos quadros económicos nacionais (quanto às receitas, quanto ao emprego). Moçambique não a tem. E isso implica uma menor importância social das questões do turismo, um menor lobi para uma particular atenção a estas questões, uma maior permeabilidade a interesses outros, neste caso de curto-prazo. Não, como tal, uma mera irracionalidade económica.

    Comentar por jpt — 11/08/2010 @ 6:02 pm


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