THE DELAGOA BAY REVIEW

13/08/2010

SOBRE A CULTURA DE TRABALHO AFRICANA

Filed under: Economia de Moçambique, Sociedade portuguesa — ABM @ 3:33 am

por ABM (Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010)

Na edição de Agosto da revista Prestígio, que por estas alturas já deve estar a circular em Maputo, li um interessante comentário feito por Rui Guerra, despoletado por uma afirmação de Mo Ibrahim, empresário sudanês (e uma espécie de estrela depois de instituir um prémio que já beneficiou Joaquim Chissano) que, num discurso que fez numa visita recente a Maputo, fez uma daquelas declarações arrebatadoras e abrangentes que todos costumamos fazer sentados à volta dum café em privado, mas que na realidade dificilmente resistem uma análise ponderada.

Este tipo de análise é muito comum na cultura portuguesa. Invariavelmente começa mais ou menos assim: “o problema de Portugal é….”. E disparam em todas as direcções, no espaço, no modo e no tempo, desde a permanência exagerada do predilecto ditador do século XX, até ao assassínio dos Távoras, o derrube da monarquia, o extremismo de Afonso Costa, a manutenção extemporânea das colónias e a fixação no futebol (entre outras).

A minha favorita é que o problema de Portugal é estar no seu DNA a mania das elites vigentes em Lisboa alegremente alternarem-se ou derrubarem-se impenitentemente, não em defesa dos interesses dos que lá vivem, mas dos seus próprios interesses, fazendo uma pirueta desssa realidade e vendendo-a como uma qualquer gloriosa revolução imparável, moderna e civilizadora que a todos beneficiará e que perpetuará a existência da nação – até que mais uma crise qualquer faça surgir os senhores que se seguem. É uma espécie de nacionalismo feito à medida. Não aconetce nada durante quarenta anos, e de repente um terramoto 8.0 na escala de Richter.

É a história vista um pouco como as sucessivas camadas de uma cebola, com uma pitada de marxismo atirada ao barulho.

Mas voltando ao Rui Guerra e ao Mo.

Segundo o Rui, a afirmação da hora de Mo foi que o problema de África era que “os africanos não têm uma cultura de trabalho”.

Se calhar acertadamente, mas só parcialmente assim.

Rui Guerra não concorda e rebate Mo, em três frentes. Refere os milhões de mamanas e os agricultores no mato que trabalham que nem cães e de sol a sol.

Refere ainda que o fazem, apesar de na maioria dos casos não terem minimamente condições para o fazerem e ainda menos para prosperarem.

E refere que se calhar (e a meu ver, o que se esperaria precisamente de Mo Ibrahim) o dedo se devia ser apontado às elites locais e à sua deficiente liderança.

Rui Guerra conclui referindo que, não havendo nem condições nem recompensa adequada pelo trabalho, que não existe motivação para trabalhar – donde se conclui que, por outros caminhos, ele “afenal” concorda com a aferição do Sr. Ibrahim.

O que Rui Guerra está a dizer corresponde àquele velho ditado africano, segundo o qual se não há banana, não há macaco.

Com base na minha alguma experiência na área do trabalho, em Moçambique, em Portugal, em Angola e nos estados Unidos, este tópico dava para escrever um livro.

Mas como aqui no Maschamba o nosso Senador urge-nos para nos deixarmos de discursos e ir directo aos assuntos (a sua razão principal é que defende que os Maschambianos não têm pachorra para andar a ler textos demasiadamente espessos) farei apenas algumas anotações.

E referirei, por maioria de razão, apenas Moçambique.

Primeiramente, há que ver que – e já referi esse tema nesta casa mais que uma vez – que há dois Moçambiques, o das cidades e o do mato.

Focarei apenas na cidade, que conheço melhor.

A vida em cidades como Maputo, apesar de oferecerem oportunidades (e por isso atraem crescentes multidões vindas do mato, onde ainda está a viver Deus sabe como a esmagadora maioria da população), apesar de tudo ainda constitui um enorme desafio. Em geral, há infelizmente muito menos oportunidades de trabalho do que a procura. Permanecem enormes disparidades nas diferentes esferas de actividade, excesso de procura nos trabalhos menos qualificados e falta de quadros em muitas outras áreas.

Isso significa que há gente muito bem paga pelo que faz, e gente estupidamente mal paga. Por exemplo os empregados domésticos, onde os salários são uma anedota em termos do que proporcionam em termos de condições de vida aos trabalhadores. Viver com menos de cem dólares por mês em Maputo é menos que sobreviver.

Ou esperar que um caixa de um banco que ganha 300 dólares por mês e que vive com a mulher e três filhos numa palhota no outro extremo do Zimpeto, apareça todos os dias às sete e meia da manhã no local de trabalho com um fato impecável, sorridente e pronto para uma jorna (mas- tiro o chapéu a Rui Guerra – a minha experiência é que eles e elas apareciam, e faziam o seu trabalho, condignamente).

Mas esta é a lei da oferta e da procura. Não há como dar a volta ao assunto e por isso a situação persiste. E vai durar muito tempo ainda antes que o cenário se altere.

E segundo, apontarei dois aspectos relativamente claros que nem por isso são “africanos” per se mas que creio têm relevância.

O primeiro aspecto tem que ver com o equilíbrio da relação que as pessoas com a  empresa onde trabalham (e o trabalho que faz) e com a sua vida pessoal e familiar. Na África do Sul, na Europa (Portugal mais ou menos) e nos Estados Unidos, pareceu-me haver uma maior dedicação das pessoas em relação às empresas onde trabalham, muito frequentemente em detrimento da sua vida pessoal e familiar.

O que é relativamente fácil: são relativamente bem pagas, têm boas condições de vida, os países onde vivem têm toda uma infra-estrutura desenvolvida e estão bem treinadas. Têm água e electricidade 24/24 horas em casa, não falta gasolina, a comida está no supermercado, coisas desses género.

Em Moçambique, apesar daquela deliciosa relação de trabalho instituída pela legislação de origem portuguesa a qual, por exemplo, os empresários sul-africanos nunca jamais irão entender, nem sempre é assim. Pelo contrário. As dificuldades são significativas, quer para as pessoas que trabalham, quer para o seu círculo familiar alargado e rede de amigos. E as pessoas nem sempre estão bem formadas para as funções que desempenham ou têm condições de trabalho. Ou para aprenderem.

Isto de o emprego não ser a religião número um de cada um não é necessariamente mau (e se calhar é mais saudável a longo prazo que a paranóia induzida que se vê no mundo mais industrializado).

Mas para os Mo Ibrahims deste mundo, cuja vida é quase singularmente medida pelo que fazem no emprego, essa percepção de um maior distanciamento é logo convertido em falta de cultura de trabalho.

O que me traz ao segundo aspecto, que está relacionado com o primeiro.

Em Moçambique, regra geral, a família e os amigos importam. E as redes de amizades e de familiares são muito mais extensas que as unidades familiares nucleares que se vêm na Europa e noutros países, onde a “família” (como todas as empresas se espremem para promover, em seu interesse) é a imediata (pais, filhos e irmãos) mais a empresa onde trabalham e quem lá trabalha. Uma morte, uma doença, um problema, despoleta muito mais depressa uma ausência (física ou virtual) em Moçambique, do que o que, regra geral, se vê nuns EUA e na Europa.

E faz algum sentido que assim seja. Em África, muito mais que em países com perfis muito diferentes devido à sua muito maior riqueza, natureza dos mercados de trabalho e hábitos e estruturas de apoio sociais, hoje em dia há muito menos necessidade, e, logo, dependência, das redes familiar e de amigos como sustentáculos de sobrevivência de última instância. Numa aflição, numa situação de desemprego, em África, são a família e os amigos que nos valem antes que tudo o mais. Ignorar isso é brincar com o fogo.

A meu ver a maneira adequada de lidar com isto é entender o contexto, dialogar com as pessoas com respeito e tentar reconciliar os interesses das partes. Às vezes é delicado, às vezes é exequível, e às vezes é ridículo (por exemplo, o pai do trabalhador não pode morrer três vezes num ano, isso é batota).

Moçambique está a passar por uma fase muito acelerada de mudança, de transição de uma sociedade agrária e pouco qualificada, para uma sociedade moderna, em que convivem bolsas de modernidade com bolsas tradicionais de onde as primeiras emergiram. Se calhar mais do que noventa por cento de quem vive numa cidade moçambicana hoje tem pelo menos avós que viviam no mato e eram analfabetos. Os poucos que adquiriam autonomia e conforto financeiro fazem-no há relativamente pouco tempo. Os laços tradicionais e familiares estão presentes.

Portanto a evolução de valores faz-se gradualmente. As tradições importam. Têm uma razão de ser. Uma lógica concreta.

Mas no fim do dia, concordo com o argumento final do Rui: se houver um trabalhador qualificado (ou qualificável via programas credíveis de capacitação, o que permanece um enorme desafio a todos os níveis), trabalho aliciante e um salário que suporte uma vida decente, há cultura de trabalho. Não me venham lá com tretas. Nisso, África não difere do resto do mundo.

Pelo contrário, para certas funções o trabalho deve e tem que ser mais remunerado às vezes que em outros países. É mais uma vez a regra da procura e da oferta.

Rui Guerra tem razão em ruminar: Mo Ibrahim poderia ter sido mais generoso no comentário que fez. Aquilo é quase fazer pouco dos pobres.

Decerto devem ter sido todas essas centenas de milhões dólares que Mo tem na sua conta bancária que, momentaneamente, obscureceram a sua conhecida e, creio, genuína empatia para com os seus irmãos africanos.

1 Comentário »

  1. […] have a culture of work”, drew a response from Rui Guerra at blog Prestigío [pt]. Blog ma-schamba [pt] goes even further with a deep reflection on the way Mozambican people live and work, […]

    Pingback por Global Voices in English » Mozambique: Discussing Culture of Work in Africa — 15/08/2010 @ 9:14 pm


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