THE DELAGOA BAY REVIEW

19/08/2010

MAPUTO-LISBOA, DESCONTO ATÉ 70%

Filed under: António Botelho de Melo, Viagens Moçambique — ABM @ 4:25 am

por ABM (19 de Agosto de 2010)

Quando o meu amigo Carl me enviou uma mensagem inócua esta noite, os gigacomputadores da publicidade do Sr. Gúgele instaneamente colocaram uma série de anúncios pagos na barra situada do lado direito do écrã do meu computador.

Nada demais. Por vezes até acho interessante a pouco invisível ligação entre o título e o conteúdo das mensagens que recebo, e os anúncios que a mão invisível dos gúgeles ali colocam.

Esta gente para ganhar dinheiro vende a alma da mãe deles, certamente que vender a minha não é um grande passo em frente. Pelo contrário. Por outro lado, eu usufruo dos magníficos serviços da Gúgele praticamente de borla e não perco sono à noite com isso. A privacidade estes dias que correm é imensamente relativa e imensamente negociável. Eu tenho amigos que há meses que se entretêm a ler os malabrismos dos Srs do Feicebúke para lhes vender a vida inteira a retalho. O que me fascina é que quase ninguém quer saber. Anda tudo alegremente a encher os “seus” (deles) dados de manhã até à noite e contando aos seus “amigos” os dados mais infimérrimos das suas invariavelmente inóspidas vidas, como se não fosse nada. Como se agora fosse como antigamente, quando havia correios e leis draconianas contra a violação do sigilo (precariamente assegurado dentro de um envelope selado com uma mistura de cuspe e ranho).

Só que esta noite o tópico não era nada de especial, e os anúncios que apareceram também não. Um era sobre certtificação energética (de um tal Sr Jesus Ferreira), outro convidava-me a negociar petróleo online (de um tal http://www.plus500.com.pt) .

Mas o terceiro mistificou.me.

No visor apareceu o seguinte:

Maputo Lisboa
Descontos até 70%:
Reserve antes de 31 de Agosto!
http://www.eDreams.pt/Maputo-Lisboa

Hum.

Nunca ouvi falar desta gente.

À primeira vista pareceu-me bom demais. Toda a gente sabe que, pese a choradeira toda sobre a pobreza de África, tipicamente as carreiras de África são as cash cows das companhias aéreas de todo o mundo que para lá voam. Na portuguesa Tap esse deve ser o segredo mais mal guardado da companhia. Por comparação com um voo para África, a TAP cobra para aí metade para o voo mais ou menos semelhante para o Brasil.

Mas pensei cá para mim: “ABM, estes gajos não se vão dar a todo este trabalho para me encontrar para me enfiar um barrete destes.”

Ou então o barrete é daqueles bem fundos e leva algum tempo a perceber.

Ciente do pouco risco que adviria de ir ver o que a tal de eDreams estava a publicitar, procedi a visitar o seu sítio.

Não tinha nada a falar sobre promoção nenhuma a Maputo.

Hum.

Mas tinha um daqueles formulários electrónicos que se preenchem rapidamente, para em seguida aparecerem as indicações de preço.

Simulei então uma viagem Lisboa-Maputo por doze dias, de 8 a 20 de Setembro.

A cotação mais barata era cerca de 1.120 euros

Não me pareceu ser 70 por cento mais barato que o habitual.

Isto mais o novo custo do visto maputiano (82 paus) vai para os 1200 euros.

Mas então apercebi-me do meu equívoco: o anúncio dizia Maputo-Lisboa e não Lisboa-Maputo.

Ah, esta gente do marketing…

Será que ir no mesmo avião que liga as duas cidades em sentidos diferentes implica preços diferentes?

Clic, clic, clic, fiz o mesmo pedido de simulação, mas desta vez a sair de Maputo em direcção a Lisboa.

Surpresa. Desta vez a cotação mais barata era de 936 euros. Os residentes em Maputo têm desconto automático de 350 euros. Nada mau.

Mas …cadê o meu desconto de até 70 por cento?

Já agora, desconto de 70 por cento em relação ao quê? A quem?

Em ambos os casos, as viagens seriam autênticos filmes de terror. No caso do vôo a sair de Maputo, estamos a falar de classe turística, saída de Maputo às 9 da manhã de um dia, e chegada a Lisboa às 15 horas do dia seguinte, voando de Maputo para Joanesburgo, depois para Paris numa conhecida companhia áerea francesa, e depois a ligação a Lisboa.

Partido de Lisboa, é o mesmo horror épico, mas no reverso.

Trinta e duas horas de percurso, em que mais que metade é passada em salas de espera de aeroportos.

Em frente ao preço, premindo numa frasesinha que diz “detalhes do preço”, aparece uma janelinha a dizer que na realidade, dos 936 euros, o bilhete em si custa 441 euros. O resto – 502 euros – é descrito como “taxas”.

Lembrei-me que na página de entrada do sítio vira um número (707 782 829).

Liguei para lá.

Após um toque, surgiu na linha uma voz em português no melhor sotaque do Brasil, indicando que os serviços de atendimento só atendiam das 8 às 19 horas durante a semana. Azar.

Nunca tinha ouvido falar nesta eDreams, mas não é supresa. Estes dias pago para não viajar e empresas destas são mais que os peixes no mar. Mas, para minha surpresa, o sítio tinha uma outra frase que, clicando sobre ela, me deixava saber tudo sobre a eDreams.

E avisava que a explicação seria em hespanhol.

Hum, não sei se vou conseguir ler….

Premi com o rato e, após esperar uns cinco minutos, apareceu um extenso documento daqueles com doses industriais de charme a tentar explicar quem era el Grupo. Hespanhol, baseado em Barcelona, expandiu por aqui e por ali e agora até já tinha escritórios em Lisboa.

Eles obviamente acham que são a melhor coisa a aparecer na face da Tierra desde a passagem de Cristo por Jerusalém e arredores.

Menciona que em 2006, a data mais recente contida no relatório, que data de Junho de 2007, portanto antes do crash em cadeia de metade do mundo, tinha facturado 300 mijones de euros, o que achei curioso estando nós em Agosto de 2010.

Até tinha os nomes dos membros do Conselho de Administração e resumos dos seus currículos (que são, no mínimo, fabulosos). O Christian Grunwald, então, devia ser rei de Hespanha em vez do Juan. Sem menosprezar os outros, que são todos Mckinseys, Harvard Business School, carreiras fulgurantes desde o berço, etc etc.

E termina com números de telefone e os endereços de e-mail da Maria de Andrés e da Pilar Cueca, que são as meninas da empresa de comunicação da eDreams (se ainda lá estiverem, claro).

Fiquei com tudo impressionado.

Estes tipos parecem ser mesmo a sério.

Só mesmo uma coisa menor permaneceu na minha mente após a saturada viagem por esta empresa:

Cadê o bilhete de Maputo para Lisboa com desconto até 70 por cento se eu reservar até antes de 31 de Agosto, que alguém da eDreams cozinhou e me foi para à caixa do correio, ao lado da mensagem do meu querido amigo Carl?

Estou a pensar mandar este texto para o Christian Grunwald e para a Pilar Cueca para ver o que é que eles dizem.

5 comentários »

  1. Olá José Teixeira, bom dia.

    So como comentário posso dizer-lhe que já fiz duas ou três marcações de viagens aéreas na Europa por intermédio da eDreams e não tive qualquer problema.
    Acho que até a última viagem que fiz a Moçambique em 2008 foi marcadas através deles e tb não houve problema.

    Um abraço amigo

    João Melo

    Comentar por João Melo — 19/08/2010 @ 12:06 pm

  2. o texto é do ABM. Mas a gente regista que a empresa consegue cumprir as marcações. O interesse disto são mesmo os descontos …

    Comentar por jpt — 19/08/2010 @ 5:58 pm

  3. Está-me a parecer que de machibombo de Maputo ao Chimoio fica mais em conta e é mesmo barato. …….

    Comentar por Pedro Silveira — 20/08/2010 @ 1:55 am

  4. Já fiz várias viagens através do eDreams, é onde tenho encontrado os melhores preços (embora em alguns casos tenha tido de esperar algumas horas em aeroportos intermédios…)

    Comentar por mussicadzi — 22/08/2010 @ 8:11 am

  5. Dois votos maschambianos a abonar a eDreams valem muito.

    No entanto, permanece por esclarecer e validar a afirmação inserida na minha caixa de correio pela empresa (não é?).

    Para que conste, enviei cópia desta nota à menina das relações públicas da empresa com um pedido de esclarecimento. Ela ainda deve estar de férias na Nova Zelândia ou coisa parecida, e imagino que, quando voltar das férias e tentar limpar os quatro mil duzentos e cinquenta e sete emails que estão a entupir a caixa de correio dela na empresa (leva três dias sólidos se entretanto não houver chatices mais urgentes por resolver) e se não apagar o meu por engano entretanto, talvez haja uma chance de ver quem foi o engraçado que inventou aquilo e explicar qual é o esquema.

    Comentar por ABM — 23/08/2010 @ 12:10 am


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