THE DELAGOA BAY REVIEW

02/09/2010

AS GUERRAS DO PÃO

por ABM (2 de Setembro de 2010)

A propósito do que se está a passar estes dias em Maputo.

Tenho vindo desde há uns meses, nesta casa, a realçar, por um lado, a periclitância, em aspectos cruciais, do “milagre económico” moçambicano, especialmente no que concerne o cidadão e consumidor médio moçambicano.

Por outro lado, tenho manifestado alguma estranheza pelo facto de, apesar de se prever e ser perfeitamente expectável um recrudescer na taxa de inflação – que tem um efeito económico corrosivo e um impacto político explosivo na população em geral – de facto a imprensa e os agentes políticos, em vez de dizer, preto no branco, que se avizinhava um período de dificuldades e de sacrifício, quer uma parte crítica da imprensa, quer o discurso oficial e oficioso, consistentemente focava na “história de sucesso” da economia moçambicana, com correspondentes associações à eliminação da pobreza e a um número quase infinito de investimentos (privado estrangeiro, governamental estrangeiro, governamental nacional, donativos, “cooperação” etc).

Ora, excluindo os chamados mega-investimentos, se até ao final do ano transacto se assistiu a uma crescente asfixia nos factores de base que definem a economia moçambicana, esse contexto agudizou-se muito significativamente no primeiro semestre do ano.

Como era de esperar, o metical desvalorizou significativamente, seguido por uma pressão insustentável nos preços dos alimentos e energia. O custo do dinheiro (na forma de taxas de juro) subiu e, mais grave no contexto actual, a menor liquidez na economia, quer em meticais (em pouco assistida pela recente emissão de obrigações do tesouro moçambicano) mas especialmente em dólares, coloca novos desafios aos agentes económicos, incluindo as instituições financeiras, neste momento na parte final da maior expansão creditícia da história económica do país.

No fim do dia, a equação macroeconómica é simples e conhecida de todos: 1) o país continua a importar muito mais do que exporta, 2) continuam a haver consideráveis obstáculos ao investimento privado estrangeiro, 3) permanecem os desafios enormes de se encontrar alimento e emprego para uma população pouco habilitada, rural ou recentemente urbanizada.

No entanto estas não foram causas directas das perturbações de ontem e de hoje em Maputo.

A maioria da população moçambicana, que vive nas zonas rurais e cultiva o que come, é relativamente imune a eventuais oscilações nos preços dos alimentos.

O mesmo não acontece com as populações urbanizadas, especialmente em Maputo, onde a maioria dos residentes da cidade e arredores não tem a possibilidade de, por exemplo, manter um emprego na cidade e uma machamba para obter alimento.

Como em qualquer cidade, têm que pagar renda, água, luz, comida e transporte.

Ora, como é sabido, o custo destes factores acabou de aumentar significativamente, sendo que, presume-se, os salários auferidos pela maioria da população não acompanharam a taxa da inflação.

De entre estes, o mais politicamente sensível é o preço do pão, que constitui um pilar da alimentação, especialmente entre os cidadãos mais pobres.

Especialmente os que vivem nas cidades e em seu redor.

Creio que é neste contexto global que se criaram as condições para que uma camada da população se sinta autorizada para agir da forma como se tem observado.

Este é um problema sério que vai ter que ser resolvido.

Gostava de recordar aos exmos leitores que infelizmente não há aqui novidade. Há precedentes para este tipo de situação. Um dos mais terríveis ocorreu na União Soviética nos anos 30, quando o ditador Estaline, para manter o pulso nas cidades, mandou brigadas para o mato que obrigavam os agricultores a entregarem-lhe as suas colheitas para alimentar as cidades, tendo milhões de agricultores morrido de fome como consequência.

E é interessante recordar as chamadas Lutas do Pão em Portugal continental nos anos 20 do século passado. Um interessante e elucidativo artigo de Jofre Alves sobre o assunto dá detalhes sobre como foi e permitirá ao exmo. Leitor estabelecer alguns paralelos com o que se passa em Maputo.

Esta não é a única leitura dos eventos de Maputo ontem e hoje, em que já se lamentam várias mortes e perto de uma centena de feridos.
Alguns jornais de Maputo hoje editorializavam furiosamente, apontando o dedo ao poder político (que por sua vez, reduz o fenómeno ao oportunismo de meia dúzia de mal intencionados) ou ainda às disparidades sócio-económicas visíveis em Maputo.

Não ajuda que a geografia da cidade de Maputo, na ausência de acções concertadas por parte das autoridades policiais, permita que literalmente meia dúzia de pessoas consigam fácil e rapidamente selar a cidade e colocá-la quase sob estado de sítio.

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