THE DELAGOA BAY REVIEW

03/09/2010

ENTENDER MELHOR O CONTEXTO

Filed under: Economia de Moçambique, Política Moçambique — ABM @ 11:47 pm

por ABM (3 de Setembro de 2010)

Na causa directa para os desacatos dentro e em redor de Maputo e de esta ou aquela cidade em Moçambique, estão os aumentos nos preços de água, electricidade e do pão (de trigo).

Alguns dos exmos Maschambianos residentes em Portugal porventura saberão que o preço do pão (de trigo) em Portugal, que é mais ou menos regulado, sofreu há dias um aumento, e fala-se de novos aumentos.

Mas não sei se o exmo. Leitor está ciente do que se está a passar no mundo estes dias no negócio do trigo.

O Diário Económico, uma publicação baseada em Lisboa, na sua edição de hoje contextualiza a situação actual, que (vade retro) poderá estar na base da decisão das autoridades moçambicanas de subir o preço do pão de trigo em Moçambique.

É que lá em Moçambique eles compram o trigo no mesmo sítio que os portugueses e os outros todos que não o produzem.

O texto é assinado pelo jornalista Rui Barroso e, com vénia, diz o seguinte:

Tensão – ONU reúne de emergência por causa dos preços dos cereais

O anúncio da extensão das restrições à exportação de trigo por parte da Rússia causa preocupações.

O receio de que os preços dos bens alimentares continue a subir levou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) a marcar uma reunião de emergência com responsáveis políticos a nível mundial para 24 de Setembro, revela a BBC.

O encontro foi originado pelo anúncio feito ontem pela Rússia de que iria extender as restrições à exportação de trigo. O país é um dos maiores produtores mundiais, mas viu grande parte das colheitas destruídas devido a uma vaga de calor e de incêndios, o que fez o preço do trigo disparar cerca de 50% desde final de Julho.

A FAO revelou que “nas últimas semanas, o mercado global de cereais viveu uma súbita subida nos preços do trigo, devido às preocupações sobre a escassez do cereal. O propósito da reunião é iniciar discussões construtivas sobre as reacções apropriadas a tomar pelos países importadores e exportadores à actual situação do mercado”.

A subida dos preços dos bens alimentares preocupa as autoridades, que temem uma reedição dos tumultos vividos no Egipto e no Haiti durante a alta das cotações destes bens em 2008. Esta semana, em Moçambique houve manifestações da população motivadas precisamente pela alta nos preços de bens de primeira necessidade.

Já o mercado parece estar apostado na continuação da subida das cotações do trigo. O valor empregue pelos especuladores em futuros sobre o cereal aumentou em 9,9% no final de Agosto, segundo a Bloomberg.

(fim)

A pergunta que muitos têm colocado estes dias é porque é que o governo em Moçambique não decidiu manter os preços do pão, nem que para tal tivesse que subsidiar a matéria prima (o trigo) que importa. A essa pergunta, antes que se julgue quem são os bons e os maus da fita, deveriam automaticamente fazer-se mais; a) quanto custa esse subsídio? b) quem o vai pagar? c) o que vai acontecer a seguir (mantém-se, aumenta-se, elimina-se os subsídios)?

Questões difíceis de fazer e de responder, especialmente quando se está de acordo que estamos a falar de algo que tem um impacto enorme numa vasta faixa da população urbana que é reconhecidamente muito pobre e não tem alternativas.

Mas que já deviam ter sido feitas, e respondidas, publicamente, por uma questão de transparência e de justiça.

4 comentários »

  1. A dependência alimentar (e cerealífera, neste caso) é um dos pontos. Por cá algumas vozes se têm insurgido contra a inexistência de uma mais eficaz política de desenvolvimento agrícola [por exemplo, João Mosca é alguém a ler sempre atentamente] Mas, claro, há esta dimensão de mercado internacional que me parece andar a ser esquecida nos textos mais frequentes.

    Por outro lado há uma questão – e sobre estas matérias de economia sabes da minha total ignorância. O metical tem-se desvalorizado imenso, a vida está muitissimo cara. Ao longo dos últimos meses tenho ouvido muitas críticas ao governo por ter financiado a manutenção do preço dos combustíveis durante muito tempo [dizem-na uma medida eleitoralista] Agora, rebentando a crise dos preços de produtos básicos, muitas das mesmas pessoas que há pouco se queixavam da política de financiamento estatal ao produto básico (reprodutivo) combustível dados os seus efeitos perniciosos nas finanças públicas e na moeda moçambicana surgem a criticar o facto do governo não financiar outros produtos básicos. O que vale é que não percebo nada de economia, poupo nas dores de cabeça necessárias para entender os argumentos allheios, deste tipo

    Comentar por jpt — 04/09/2010 @ 12:17 am

  2. Jpt

    Há dois dias fiz uma resenha da economia moçambicana com base nos dados que se conhecem. A actual situação decorre directamente das vulnerabilidades e dependências da economia actual. Sem investimento e sem a produção de riqueza exportável, cujas receitas possam ser depois ser utilizadas para comprar coisas como trigo, gasolina e automóveis, etc, o dia chegará em que o dever excederá vastamente o haver e terão que se fazer cortes, o que se traduz no aumento dos preços. Muitos moçambicanos mais velhos se lembram dos tempos em que, na economia “socialista”, os preços eram mantidos baixos – e não havia nada. Quando visitei Maputo em Dezembro de 1984, a única coisa que encontrei à venda na cidade inteira foram umas tosquíssimas colheres de sopa de alumínio rasca feitas num desses países da Cortina de Ferro (e uns postais incólumes do Santos Rufino – mas isso é outra história). Fora disso, havia a Loja Franca, onde se vendia um pouco de tudo a preços obscenos, em moedas fortes e só entrei lá porque tinha passaporte estrangeiro.

    O actual presidente tem razão – a única maneira de sair do buraco é trabalho e produção de riqueza. Mas isso é muito mais fácil dito que feito. Especialmente para quem vive uma vida miserável e sem esperança nos subúrbios.

    Comentar por ABM — 04/09/2010 @ 12:43 am

  3. Eu também concordo, a única forma de sair é com trabalho e produção de riqueza. Mas assim dito é deitar o ónus da crise para os desapossados, como se eles não trabalhassem porque não quisessem [já me parecem aquelas senhoras muito católicas do Partido Socialista a querer reduzir os feriados em Portugal para combater a crise]. Aumento da produtividade e aumento da produção não é sinónimo de aumento do trabalho – até um não-economista percebe isso.

    Comentar por jpt — 04/09/2010 @ 1:03 am

  4. Jpt

    Exactamente como dizes. Daí o cuidado que se deve ter com a maneira como se diz as coisas.

    Comentar por ABM — 04/09/2010 @ 1:36 am


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