THE DELAGOA BAY REVIEW

04/09/2010

FORA DE PRAZO

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 1:39 am

por ABM (4 de Setembro de 2010)

E agora algo diferente para o fim de semana.

No seu regresso de uma curta mas merecida estadia em Pénis e Óbides (com passagem por Hellmeirim), o nosso comentador George Ribéro e a Mrs. George Ribéro passaram por Alcoentre City para uma curta visita à minha parca residência, um casebre convertido no meio do mato ribatejano.

Minimamente confortável (tem electricidade, a retrete funciona, mas quando se liga o decrépito micro-ondas o quadro eléctrico vai-se logo tudo abaixo) especialmente no verão, tem o problema de todas as casas do mato, coisa que não existe em Cascais City (o mato, refiro-me): uma saudável camada de poeira e uma interessante fauna de teias de aranha, a ocasional melga e alguns espécimens da tenebrável mosca ribatejana (nome lastino: moscardus ribatejanus rabidus).

A mosca ribatejana tem a particularidade, quase única do mundo, em que aparecem sempre três quando a gente pensa que não há mais nenhuma no quarto. Compenso esse factor com uma interessante colecção de mata-moscas de plástico daqueles de 79 cêntimos vendidos na local loja chinesa (hoje todas as localidades portuguesas acima de aldeia têm uma. Alcoentre City, sendo próspera, tem três).

Portanto, parte da informalidade da casa inclui para os visitantes um curso rápido na esgrima mata-mosqueira e na estratégia e tácticas mais eficazes na lida da mosca ribatejana.

Na antecipação da vinda do George e da Mrs. George, ainda andei a tentar limpar a poeira – mais ou menos. Mas a Mrs. George Ribéro tem o grau de Doutoura Honoris Causa pela Universidade do Chiquêrrô, pois a olho nú consegue topar um grão de sujo a dois quilómetros de distância.

Com ensaiado desalento, rendi-me à minha condição de pobre proprietário despossesso de criadagem e faço uma vaga referência à quase total ineficácia do meu aspirador (um daqueles de marca branca que só funciona quando quer, mandando abaixo o quadro depois de cinco minutos) num ambiente tão hostil como o mato local.

Generosamente, depois de entrar na casa, ela pegou num pano húmido e em 0.5 microssegundos pôs as partes da casa que ela iria frequentar num estado quase penosamente limpo.

Mas o melhor estava para vir.

Aproximado-se a hora do repasto, magnanimamente, informei os presentes que a despensa estava recheada e o frigorífico cheio. De quê, não sabia muito bem, mas certamente haveria algo que serviria para comermos.

A Mrs. Ribéro foi espreitar e logo voltou algo alarmada. Aparentemente, praticamente tudo o que estava no frigorífico ou estava podre ou fora de prazo. O quê? Podre? Fora de prazo? Em minha casa? Não, não podia ser.

Fui ver.

Bem, a verdade é que, com a idade que tenho, ainda pertenço àquela hoje algo esquecida e veneranda geração, que cresceu numa altura em que nada tinha prazo de validade. Nem sequer os medicamentos.

Quando era miúdo, comprava-se uma caixa de aspirinas, metia-se na gaveta e ia-se usando até as aspirinas acabarem. Nem que tal acontecesse dali a dez anos. E no Sul de Moçambique, onde cresci, o clima é muito mais inclemente que a placidez quase californiana do Oeste português.

O mesmo acontecia com a pasta de dentes, as caixas de bolachas, as latas de atum, os pacotes de margarina, os comprimidos de óleo de fígado de bacalhau da Diese, etc.

A julgar pelo que se diz hoje, e circula em alegres e-mails na internet, a minha sobrevivência física a esta situação foi um verdadeiro milagre, se se não tiver em conta as vezes que comi manga verde com sal em cima da árvore. Ou que apanhei uma manga na árvore e, sem lavar, a comi assim mesmo. Ou que comia ameijoas cruas na praia (da baía de Maputo!!) dando uma pedrada na casca.

Mas ficaram resquícios dessa primitiva era. Para mim, as datas de validade indicadas nas latas e pacotes são ainda informações mais ou menos meramente indicativas, e, insidiosamente, alimento a vaga suspeita de que aquilo é tudo um tenebroso e vasto esquema dos fabricantes para nos induzirem a, atempadamente, despachar ou deitar fora o que eles produzem, mesmo que em perfeito estado de conservação, aumentando assim as suas vendas, e os seus lucros.

Suspeitaria menos se nos fosse permitido devolver na loja o que está fora de prazo e receber outro artigo igual em troca. Mas eles não permitem isso, não é? Quando faço as minhas compras, não ando a ver se as coisas estão no princípio, no meio, ou no fim do prazo de validade. De facto, acho que na esmagadora maioria dos casos os artigos não indicam a data em que o produto foi feito e o prazo de validade. Dizem qualquer coisa como “consumir até data xis”.

Mais grave, atestando aos dias em que me considerei refugiado e pobre, tenho alguma tendência para comprar muito mais do que para o consumo imediato, ou para poupar porque algo está em saldo, ou apenas porque tenho um chip na cabeça que dorme melhor à noite sabendo que a despensa está abundantemente atestada de pacotes de esparguete ou de leite pasteurizado.

Enfim.

O que habitualmente faço é abro e vejo, e provo. Se parece bom e sabe bem, como. Se não está, praguejo e o que quer que seja vai para o lixo.

Mas a Mrs. Ribéro, que segue as modas, não vai nessas cantigas. Com a minha polida mas relutante cooperação, foi buscar um desses sacos de lixo enormes, pretos, de plástico, e chegou ao pé do frigorífico e basicamente deitou tudo o que estava lá dentro, fora.

O que em princípio não era grande problema. Tínhamos acabado de comprar Coca-Cola Zero (um produto que os restaurantes fora de Lisboa simplesmente não vendem) pão e carne de hambúrguer para o lanche, mais uns bolinhos de chocolate e umas batatas fritas daquelas caras (1.85 € o pacote).

Por isso a disposição de tudo o que estava no frigorífico no lixo não era à partida impeditiva de um sereno e saboroso repasto.

Excepto por um pequeno, pequenino detalhe.

Parece que desde há tempos imemoriais, que o George não come um hambúrguer sem ketchup (aquele molho de tomate meio espesso inventado presumo que pelos americanos).

E o frasco de ketchup também fora para o lixo.

Por estar fora de prazo.

E nós não tínhamos comprado outra porque eu dissera que tinha uma “praticamente nova” em casa.

De facto, a questão do ketchup era mais grave do que isso. Ciente do impacto da falta de ketchup, a Mrs. Ribéro fez uma espécie de análise forênsica prévia do frasco de ketchup.

Parece que neste caso a data-limite de validade remontava para a Era do Paleolítico Superior. O rótulo tinha aquele aspecto das garrafas de vinho que ficam décadas escondidas na adega.

No topo da garrafa, constatámos que habitava uma alegre colónia daqueles micro-organismos que a gente nunca sabe se é mofo, se é penicilina ou se é uma estirpe ribatejana do vírus ébola.

Espremendo a garrafa, o conteúdo que jorrou lentamente já não era bem nem da cor nem do contexto do ketchup. Aquilo assemelhava-se mais uma espécie de vomitado vermelho-verde-arroxado, parecido com aquilo que a menina do filme O Exorcista (a Linda Blair) vomitou para a cara do padre antes da cabeça dela começar a andar às voltas e eu fugir da sala.

Tínhamos, portanto, o problema concreto: o lanche era sanduíches de hambúrguer e não havia ketchup, e sem ketchup o George teria sérios problemas em digerir a sua refeição.

Quem sabe, por causa disto a sua visita poderia tornar-se num pesadelo. Ou pior. Já se matou gente por menos.

A solução mais óbvia era simples: apesar de já ser fim da tarde de um sábado, havia em Alcoentre City umas mercearias (que agora chamam mini-mercados, o nome é mais chique) e talvez uma ainda estivesse aberta.

Constituiu-se imediatamente um GMOK (Grupo de Missão para a Obtenção de Ketchup), cujo objectivo era uma deslocação rápida à vila com um duplo objectivo: 1) deitar no lixo o saco com os artigos fora de prazo antes que as moscas lá fora dessem por eles e 2) assegurar a obtenção de um frasco de ketchup devidamente dentro do prazo para o George comer o seu hambúrguer.

Primeiro foi despejado o saco de lixo no contentor municipal à entrada da vila.

Alcoentre tem a particularidade de, desde há uns meses, ter contentores para depositar o lixo diferenciado, com cores a indicar o que se deve meter onde.

E de, mesmo ao lado para agente não se cansar, ainda manter o velho sistema de deitar o lixo todo junto na mesma nos contentores verdes.

Dada a urgência da missão, foi tudo para o contentor verde.

O melhor mini-mercado de Alcoentre fica mesmo no centro da vila (o cruzamento chama-se Quatro Ventos). Não tem estacionamento, e tem o semáforo mais esquisito que eu já vi. De quem vem de onde vivo, espera-se cinco minutos com o sinal vermelho, mas só fica verde durante nove segundos. Se estiver uma velhinha num carro à nossa frente, já não passamos e temos que esperar outros cinco minutos.

Face a estes constrangimentos, adoptámos o Plano B do GMOK e desloquei-me directamente para o mini-mercado por outra entrada da vila, pelo lado do restaurante do Manel.

O mini-mercado As Meninas é gerido por um casal simpático e que até pratica preços localmente competitivos, os produtos impecavelmente dispostos numa sala com uns 90 metros quadrados. Uma vez lá dentro, sob o olhar atento da Mrs. Ribéro, ainda fui parcialmente distraído pela Sra D. Micas, que tive que cumprimentar e ouvir detalhes das suas mais recentes guerras com o sistema nacional de saúde (parece que o sistema, ou ela, não sabiam por onde andavam os seus ovários) e ainda a D. Anabela, que há dois dias deixou cair um barrote de eucalipto no dedo grande do pé e agora anda de muletas a mando dos médicos.

Superado este pequeno contratempo social-administrativo, dirigimo-nos para as pratelerias, onde, aliviados, encontrámos um frasco de Ketchup da marca Calvé, cuja data-limite de validade pareceu minimamente adequada à Mrs. Ribéro.

Pago o produto e regressados à base, pudemos então proceder a comer em paz os nossos hambúrgueres.

O frasco de ketchup que sobrou do repasto está agora cuidadosamente guardado no frigorífico.

Até que o George me visite novamente num futuro próximo.

E se descubra que está fora do prazo e o seu conteúdo se pareça novamente com o vomitado da Linda Blair.

Bom fim de semana.

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