THE DELAGOA BAY REVIEW

07/09/2010

THE BEST OF MAPUTO RIOT ANALYSIS*

Filed under: Sociedade moçambicana — ABM @ 12:50 am

Nos bons velhos tempos era tudo família

por ABM (7 de Setembro de 2010)

O clima de terror e de violência mais ou menos generalizada que se viveram na área metropolitana de Maputo na passada semana têm sido alvo das mais variadas análises e reflexões.

A que aqui na Casa não se escapou, como se calhar não poderia ser de outra forma.

Quem não sente não é boa gente.

Ainda é cedo para se contextualizar o sucedido e se calhar vai levar algum tempo antes que surjam estudos mais aprofundados sobre os eventos. Nesta data ainda aparecem dados novos, como a contabilização dos mortos (ontem de manhã o governo moçambicano já mencionava serem 13), um algo elevado número de presos, o anúncio pelo governo que, no que concerne aos preços, agira em conformidade com as exigências do FMI.

No essencial, para já, parece-me haver duas visões diametralmente opostas em jogo aqui: a) que a violência que se viu era injustificada, ilegal e predadora; b) que se justificava face ao impacto significativo dos aumentos nos preços de alguns bens de consumo.

É aparente, e creio que ainda está por resolver, a percepção de que se consumou um divórcio entre o Poder e a parte mais frágil do Povo.

Entre a nomeclatura no poder, e os que não estão no poder.

Ou entre as classes mais abastadas, e as menos abastadas.

Talvez.

E a partir daí cada um disparou para o seu lado.

De longe, o texto mais alucinante der ler se calhar foi publicado este domingo passado no jornal britânico The Observer, assinado por um tal de Raj Patel e que pode ser lido premindo aqui.

E que logo no título (que se calhar o Raj não inventou) aponta o aquecimento global como responsável primário pela violência em Maputo. O quê? lendo o texto e uma argumentação algo tortuosa, consegue-se vagamente apreender onde é que o Raj está a tentar chegar. Mas fico com a impressão que o Raj se trespassou da cabeça. Rapidamente, a culpa passa do aquecimento global para a globalização económica, especialmente no que toca ao comércio de produtos alimentares. E conclui referindo que, em última análise, afinal a rebelião era mais generalizada e política, citando Alice Mabote e Diamantino Nhampossa.

Uma interessante e vasta teoria da conspiração, em que as pessoas não são pessoas. São peões do Destino.

A segunda análise no topo do surrealismo analítico afinal estava aqui na Casa, profundamente escondida num texto prenho de ligações pelo nosso Senador. Na sua excelente Adenda sobre os moralismos que falam, se o exmo leitor clicar o nome de Henrique Fialho, vai ter ao blogue onde ele escreve, e em que ele cita esta jóia da análise sócio-política, que, lá, remete para nada menos que aqui.

Quando vi a imagem familiar da mulher de cuecas e com cara de cão sentada numa estufa cheia de flores, pensei logo: “hum, mas onde é que eu já vi isto?”

Logo me lembrei, claro.

Então afinal o que pensa o arauto da literatura de cariz biográfico colonial pós-colonial moçambicano (Pitta dixit) sobre a recente violência em Maputo?

O seu comentário, ao contrário do longo solilóquio do Raj, é muito mais curto, mas não o suficiente para demonstrar que a distância entre Almada e partes de Maputo é maior que a geográfica: é à escala cósmica.

Em Almada, que fica, como diria Vicotr Hugo, à láutre coté du pont (de Cascais City vêm-se as luzes a cintilar à noite), reputa-se que residem muitos daqueles que votam ligeira ou substancialmente à esquerda do partido do eng. José Sócrates.

Aqueles que acham que tudo deve ser nivelado, partilhado, cobrando impostos aqui e gastando-os ali.

Os que agora andam aos gritos a clamar por mais Estado social.

Aqueles para quem ser rico, ou mais abastado, é um insulto aos que não têm.

Para quem a economia de mercado é sinónimo de uma luta de classes em que os menos abonados têm necessariamente que ser apoiados pelo Estado.

Para quem a promessa da República Socialista é principalmente o algo em troco de nada.

E vai daí, lêem algumas notícias do que se passa em Maputo e dizem o quê?

Esta nossa amiga, que, da última vez que olhei, recordo ter dito (ou foi o editor?) que lá nasceu e que “regressou” a Portugal e nunca mais meteu os pés desde que o pai lhe meteu num avião da Tap em 1975 one way com destino a Lisboa, em resposta ao que aconteceu, sugere que os ricos de Moçambique que paguem a crise.

Pagando mais impostos sobre as viaturas todo-o-terreno, as habitações que adquirem e outros “artigos de luxo” (não indica quais).

Para subsidiar o pão, a electricidade e a água aos menos abonados.

O nosso Senador creio que mais ou menos aludiu à questão: é por demais aparente que a Sra nem sequer suspeita do que é viver em Moçambique hoje. Que impostos se pagam, o que o governo faz e não faz, quais são as contas do orçamento do Estado moçambicano, quais os seus constrangimentos, quem e quantos são os “ricos.

E quantos são os pobres.

De facto, nem sei como a nossa insigne não foi mais longe. Tal como ela descreveu no seu recente bestseller que teria sido justiça poética matarem-se os brancos que por lá estavam no rescaldo do 7 de Setembro de 1974 (não a celebração dos Acordos de Lusaka, agora um feriado nacional a que se já dá o título de Dia da Vitória, mas os dias em que a capital ficou envolvida em violência e morreram centenas de pessoas), não seria de esperar dela defender aplicar-se a mesma justiça poética aos colonos (agora pretos) de hoje? esses ricos de 4×4 e com casarão na Sommerschield?

Decorre do raciocínio, não é? resolver tudo à porrada. Fazer um 25 de Abril em Moçambique.

Afinal, segundo dados de 2003, os 10% economicamente no topo da população moçambicana detinham 40% da riqueza nacional, enquanto que os 10% mais pobres detinham apenas 2.1%

Pois. Mandar postas de bacalhau à distância é fácil.

Há cento e cinquenta anos, Henry David Thoreau escreveu um relativamente curto ensaio sobre o direito, a obrigação dos cidadãos se revoltarem contra os governos na medida em que estes os reprimiam para agir contra o seu interesse. Apesar de autenticamente americano, tem um cariz universal e inspirou líderes como Ghandi, Martin Luther King, Jr e outros.

Talvez nesta altura de protestos e repressão seja interessante ler Sobre a Desobediência Civil. Para quem quiser ler está aqui. Em língua portuguesa.

E entretanto esperar e deixar os moçambicanos resolverem os seus problemas como acharem melhor.

Também foi para isso que lutaram para ser independentes.

* O melhor das análises dos distúrbios de Maputo.

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3 comentários »

  1. Esqueceu-se de referir o facto da turba rubra de Almada, sociais-papoes da pior especie, comem criancinhas ao pequeno-almoco. Alias, ouvi dizer ate que organizam batidas nas ruas de Cascais todas as noites para esse efeito.

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    Comentar por Lowlander — 07/09/2010 @ 3:28 pm

  2. Sr Lowlander

    É o que consta, se bem que eu acredite que seja exagerado.

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    Comentar por ABM — 07/09/2010 @ 8:52 pm

  3. Se consta e porque parece. E se parece e, naturalmente, verdade, ou pelo menos dogma, que para os objectivos praticos desta narrativa, sao uma e a mesma coisa.

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    Comentar por Lowlander — 08/09/2010 @ 10:45 am


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