THE DELAGOA BAY REVIEW

17/09/2010

O ESTADO SOCIALISTA

Filed under: Politica Portuguesa — ABM @ 3:35 am

http://www.youtube.com/v/1i0RbtJyaJo?fs=1&hl=pt_PT

por ABM (17 de Setembro de 2010)

Tenho passado os últimos dias a divertir-me, assistindo ao regorgitar impenitente da dialéctica esquerda-direita na cena pública portuguesa.

Bem, não é exactamente entre a esquerda e a direita.

Pois eu acho, e creio que já o referi, que não existe uma direita propriamente dita em Portugal. Existe uma esquerda que vai desde o meio dos velhotes que ainda dizem que são comunistas, até meio do eleitorado do PSD. E depois disso, uma espécie de conjuntos de ranchos folclóricos políticos que fingem que são da direita, mas que não têm nem princípios nem espinha dorsal e muito menos números que se possa considerar serem uma força ou tendência política de direita.

No fim do dia essa constatação seria pouco relevante, não fosse a ficção, criada pelos envolvidos e pelos media portugueses, de que não é assim.

De que existe uma direita.

De que há oposição ao “socialismo”.

Mas a realidade é assim, provavelmente desde 1974, quando, na sequência da revolta de alguns capitães contra a afronta de se querer equiparar os de carreira com os outros, um bem organizado bando de comunistas ia virando o país para uma ditadura de sentido contrário ao regime deposto, no que foi parado por um outro grupo do que mais tarde se rotulou de “socialistas”.

Que basicamente tomaram conta do manicómio.

Hoje, poucos se lembram que, na altura e até bem para dentro dos anos 80, todos, mas todos, à direita dos encartados do PCP, eram e diziam-se “socialistas” e que o objectivo fundamental do novo regime, consagrado na constituição então aprovada, era instaurar o “socialismo”. Até Sá Carneiro o afirmou, antes de o matarem.

Para além do mais do que óbvio tingimento ideológico do novo regime, havia uma teoria concorrente, que era que a Europa – identificada como a vocação subsequente ao centenário e falidíssimo ultramarinismo colonial português (de que só restam vagas e estéreis afirmações de um atlanticismo abstracto e as despesas administrativas com a CPLP) – a Europa a que Portugal se ia agora (então) se juntar, era uma Europa Social, suspeitamente afim ao “socialismo” que se pretendeu edificar com a “revolução” portuguesa, em que a riqueza era partilhada, no sentido de se fomentar uma prosperidade cujas expressões mais salientes eram a eliminação da pobreza mais abjecta e a existência de uma mais vasta classe média.

Só que a Europa que os portugueses dos anos 70 e 80 e 90 almejavam era uma Europa rica, capitalizada, culta, tecnologicamente avançada, tanto mais assim quanto mais se viaja para o Norte.

Nascida das cinzas do experimento hitleriano e sob os auspícios de uma América rica, poderosa e generosa, era um conjunto de democracias vibrantes, participadas, arejadas.

Portugal era, por comparação, quase um desastre, o que sobrara do one man show que foi o Sr. Presidente do Conselho e que durou quatro décadas, precedidas por uma, outra, guerra civil.

Entregues as colónias à medida das encomendas de Moscovo, o regime que se seguiu ao Prof. Dr. Salazar herdou muitos dos seus tiques, na medida em que o Estado nunca seriam as pessoas. Seria quem mandava nelas, e a economia, confiscados os baronatos económicos precedentes, uma espécie de capitalismo de Estado, um corporativismo socialista, operado por uma nova geração de gestores, agora com uma visão “social” das coisas.

E desde então, e consequentemente, e até esta data, Portugal ainda nem sequer chegou as calcanhares dessa Europa a que diz pertencer.

Com a adesão à CEE em 1986, e especialmente durante a década Cavaco, em que o actual presidente foi primeiro-ministro, criou-se um pouco a ilusão de que as coisas mudariam.

E, até certo ponto, mudaram, na medida em que o povo se educou mais, em que se construíram infra-estruturas (à custa de subsídios da Europa), em que o país se urbanizou rapidamente e a classe média prosperou.

Pudicamente, procurou-se esconder a pobreza abjecta nas cidades derrubando os bairrros da lata, escondendo os pobres em jaulas de betão, à custa de subsídios, enquanto que se industrializou e nivelou por baixo a educação, permitindo realizar o Sonho Português, em que qualquer idiota, de qualquer origem social, podia ser um Senhor Doutor.

Ou um Senhor Engenheiro.

Mas, tirando uns tímidos esforços no sentido de emprestar alguma sanidade à economia – umas privatizações, algumas reformas nas leis, poucas – como um enorme iceberg em que só se vê a parte que aparece acima da linha de água, o regime permaneceu solidamente “socialista” e irreformado, uma vasta teia de interesses económicos em redor de uma complexa rede corporativa, em que o centro permaneceu o Estado – que o manipula.

O desvario económico norte-americano e as fragilidades primeiro regulamentares, depois financeiras e finalmente económicas, encostaram a nação portuguesa contra a parede a partir do fim do terceiro trimestre de 2008.

Na altura, em Portugal, depois de quase dez anos de governo central socialista e com um governo de maioria absoluta socialista no poder desde 2005, este já gerido por uma segunda geração de líderes criados nas catacumbas do partido, a reacção seminal do regime foi imediata e expectável: mais socialismo. Mais Estado. Mais “estado social”. Mais papel preponderante do Estado na economia e na vida das pessoas. Pois que estas, coitadas, foram apanhadas desprevenidas e precisavam de ajuda.

Pavlovianamente, os portugueses, pessoas e empresas, já estão condicionados a que seja sempre o Estado a safá-los. Pelo menos os que não emigraram, pois esses, os que emigraram, de uma forma ou outra decidiram que isto não era para eles. Ou por princípio, ou porque não os deixaram sentar à mesa do banquete socialista.

Isto enquanto as finanças do país, desta vez ligeiramente mais contabilizadas à vista de todos, caminhavam e caminham para o que se pode prever vir a ser uma situação de aperto sem precedente desde 1983, quando não havia dinheiro para importar comida.

A todo este tempo, permaneceu a ficção de que o regime não era socialista. Que é simplesmente uma democracia em que apenas o partido dos socialistas governa (em alternância com o partido social democrata) , desde há um ano em maioria relativa e com a execrável cumplicidade dos outros à esquerda e à sua direita.

Permanece a ficção de que há alternativas reais.

De que há oposição.

Mas onde está ela, para além daqueles acesos debates no parlamento e nas televisões, em que todos falam e ninguém diz nada, ou quase nada?

No actual contexto político, essa ficção adquire foros do ridículo.

Dou exemplos.

Supostamente, Aníbal Cavaco Silva é da “direita”. Só que eu acho que o actual presidente, verdadeiramente, é do centro – e eu acredito que o centro de gravidade da política portuguesa fica bem na esquerda, e nunca saiu de lá desde 1974.

Portanto Aníbal Cavaco Silva não pode ser da direita.

Supostamente, o actual Partido Social Democrata, mesmo o do recentemente inaugurado Pedro Passos Coelho, é a “direita”.

Mas este PSD, como os que o antecederam desde há algum tempo, é quando muito de centro.

Supostamente, a inqualificável propositura de Manuel Alegre para o cargo de presidente na eleição daqui a um ano, é uma candidatura de “esquerda”.

Mas neste momento essa esquerda engloba o partido governante e os sonantes partidários do Bloco da Esquerda, cuja cartilha se situa desconfortavelmente entre a ideologia subjacente do regime e a dinossáurica, quase embaraçosa presença dos comunistas.

Fiéis à sua gerontocrática postura estalinista e com um sexto sentido de sobrevivência, estes puxam da cartola partidária um Chico Pereira qualquer para ocupar os regulamentados tempos de antena das televisões, assim assegurando duas coisas: que em vez de se discutirem os problemas da sociedade num ambiente de campanha, vai-se encher os ouvidos dos eleitores com poeira ideológica irrelevante; e que, quando chegar a hora, vão tentar, em troca de uma atençãozinha qualquer, ajudar, se for preciso, a candidatura alegriana.

Estou convencido que Aníbal Cavaco Silva vai ganhar a eleição presidencial sem grandes problemas.

E que Manuel Alegre vai para casa usufruir as suas várias reformas.

Mas isso é pouco relevante no fim do dia.

Pois o estado e o regime portugueses são pouco permeáveis àquilo que um presidente – qualquer presidente – possa querer fazer, por mais mandatado que seja. O sistema é parlamentar e o mandato presidencial consiste num ténue, obscuro magistério de influência. Quase exactamente como o rei Dom Carlos de Bragança há cem anos, Cavaco Silva presidirá discretamente para onde o barco seguir. Ele próprio já se queixou disso mais do que uma vez, sorumbaticamente, na terceira pessoa.

Em Portugal, o poder real reside entre o parlamento e o governo.

E nesses, para já, não se vislumbram alternativas.

O governo do PS há um ano que faz mais ou menos o que quer – que tem sido deixar o barco andar para a frente em ponto morto – acusando e desafiando a “oposição” a “atrever-se” a criar “instabilidade”. De abanar as coisas. De destruir o “Estado Social”, entendendo-se como tal a irrefreável rapacidade com que se recolhem os dinheiros dos impostos para depois os fazer desaparecer num inidentificável, incontrolável labirinto de patrocínios.

E esta “oposição”, agora liderada por Pedro Passos Coelho, parece que não tem os cojones para ir a votos e tomar o poder e fazer a Portugal aquilo que diz que quer fazer para bem de Portugal.

Que, atalhe-se, para já ninguém sabe bem o que é, tirando uma certa insistência em querer promover uma algo bizantina e extemporânea revisão constitucional, como ponto de partida para o que se supõe gostariam de fazer a seguir.

Ora, tirando o carnaval que se aproxima da negociação de um orçamento para o ano que vem, a isto se chama um impasse.

E no sistema vigente em Portugal, um tal equilíbrio de forças, um tal impasse, apenas apontam num sentido.

O de que, tirando o crescente endividamento nacional, o empobrecimento relativo dos portugueses, e os aumentos nos impostos directos e indirectos, até que, se Deus o permitir, a robustez da Alemanha nos puxe do abismo, quase nada mudará.

A esquerda continuará a dizer que há uma direita, e vice-versa.

O sistema continuará afirmar a ficção de que há alternativas para a sociedade.

Mas a verdade é que a alternativa para já é uma e só uma: a continuação do Estado Socialista e o alimentar das suas variadas clientelas.

À custa dos contribuintes.

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4 comentários »

  1. Para perceber verdadeiramente o que era a desgraça de um estado socialista recomendo o livro do Norman Manea, “O regresso do Hooligan”.”.
    Edições Asa, ISBN 9789892307206, 400 páginas, Eur: 18,17
    http://www.mediabooks.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=12683
    http://timeout.sapo.pt/news.asp?id_news=5211

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    Comentar por JNW — 17/09/2010 @ 9:00 am

  2. Lembro-me sempre daquilo que um tipo que conheço e que escreve num blog me disse há uns largos meses: se puderes compra dolares; e mantém-te emigrado

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    Comentar por jpt — 17/09/2010 @ 10:13 am

  3. “…e mantém-te emigrado”

    Também sim.

    Mas em Portugal tá-se bem, quem saiba “viver” tá bem.

    O tal de “colonialismo” é muito mais circunscrito, mas funciona, continua a funcionar, bem.

    Emigrado cá dentro, também é bom.

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    Comentar por umBhalane — 17/09/2010 @ 12:38 pm

  4. Sr JNW

    Agradeço a referência e vou procurar. Li parte do seu blogue e deixe-me dizer que se português é a sua segunda língua, está absolutamente de parabéns, Não sabia também que havia uma comunidade ucraniana em Moçambique. Lá em Alcoentre temos algumas famílias que vieram de lá e que consideramos gente da casa. O único problema é que mandaram uma boa parte das suas poupanças para lá ao longo dos anos e parece que com as dificuldades do país o dinheiro deles agora está lá preso. Um casal voltou para lá e uns tempos depois voltou para a Vila. Em parte é o drama de qualquer emigração: têm lá quase toda a família e vivem cá. Vêem a televisão ucraniana por satélite e fazem a sua vida. Enfim.

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    Comentar por ABM — 22/09/2010 @ 12:00 am


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