THE DELAGOA BAY REVIEW

18/09/2010

A ACÁCIA DE CARLOS GIL

Filed under: Carlos Gil — ABM @ 3:22 am

por ABM, texto de Carlos Gil (18 de Setembro de 2010)

Em baixo, o texto que Carlos Gil leu esta tarde no 3º Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, realizado em Lisboa.

SER, NÃO O SENDO

Há dias, numa daquelas noites em que o pavor por esta comunicação me atormentava, tornando o correr de páginas na Internet uma ilusão que aliviava a realidade de ter uma página branca iluminada e vazia à minha frente, sem nada para contar-vos, tive uma visão memorável, e, sim, ela capaz de reduzir numa imagem essa ausência de palavras significantes, e que era o meu tormento.

Vagueava por um dos sítios dedicados a glorificar as maravilhas naturais de Portugal e, de clique em clique, fui lendo e fui-me perdendo, blogues, páginas e páginas que eram improváveis quando liguei o computador e se sucediam em turbilhão, naquela fuga à minha inépcia em contar o que será ser-se um escritor ausente da sua raiz e tinteiro, e como medram os seus ramos, de forma a darem uma copa mínima a essa proscrita condição.

Essas páginas, de refúgio também elas, levaram-me a uma imagem que sobressaiu, e colou-se-me à página branca como a explicação perfeita, de maravilhosamente desajustada que era, improvável mas subsistente a conceitos de botânica que, diziam-me, naquela imagem o que estava errado e não lhe pertencia era o que a fazia assim, bela.

Falei-vos em botânica porque a peça desajustada era uma árvore. Não nos espantam as palmeiras de ascendência tropical que vemos em cuidados relvados de jardins. É um exotismo comum, e afinal estamos na borda do Mediterrâneo. Nem as outras, periodicamente vistas ou contadas, de raquíticos arbustos de suruma descobertos nas clandestinas traseiras da sociedade, em heranças coloniais tão resistentes como a memória ou a nostalgia. Nada disso nos surpreende na paisagem ou nas notícias, mas como foi diferente aquela imagem súbita no meu inaudito caso…

Eu vi, na minha visão sedenta de fábulas para resolver o meu problema de escrita estrangulada, juro-vos que vi uma acácia-rubra, própria da moldura africana, na margem dum rio português. A legenda que li e construí disse-me que era o Mondego, um rio totalmente português. Mas a árvore lá na paisagem era africana. Aquela variedade de acácias é rubramente africana. Em excesso imaginativo até aproprio a da imagem a uma genuína semente moçambicana, embora a bela acácia daquela variedade, delonix regia, disse-me uma rápida busca que posteriormente fiz, tenha origem na flora da ilha de Madagáscar.

E assim dei mais um ponto de lógica na construção da minha ficção da diáspora das raízes moçambicanas, cá, o seu outro vaso onde se sentem em casa.

Como foi possível que nas margens pedregosas e friorentas do Portugal profundo germinasse uma semente filha duma terra vermelha, um vento mais quente, um mar mais azul? Eu não sei mas ela estava lá. Está lá. E nós, filhos de África, estamos cá.

Por vezes ouço falar com desdém e até acrimónia das mensagens e escritos de saudade por vivências que, não se nega ou esquece, aconteceram em período colonial e sob o manto protector da cúpula, a bolha que rebentou porque a História o quis e os homens fizeram. Depreciam as memórias nostálgicas quando com esta matriz. Em leveza de arrogância chamam-nos, preconceituosamente, e errados, de saudosistas da História.

E tanta vez esses dedos apontados, capazes de erguer machados contra uma árvore que embeleza o quadro, porque não lhe pertence historicamente, são militantes ferrenhos de causas da natureza, ainda bem, mas revelam-se incapazes de compreender que uma memória bela não se apaga nos corações com a mesma facilidade com que se muda de casa e se plantam palmeiras no novo quintal. A saudade é outra e é legítima: temos direito à nostalgia de nós, e a contá-lo.

A acácia rubra nas margens do Mondego é minha irmã. Não sendo originária de Portugal, vive a sua diáspora em serenidade frondosa e namoriscando um rio que não é seu, como eu sendo originário da Covilhã e de Lisboa vivo a minha felicidade ficcional pisando a terra vermelha de Moçambique, servindo-me dela para o meu prazer e orgulho de preservar memórias.

Não o sendo sou-o, e talvez sem esta diáspora a que a História me empurrou fosse um outro, incapaz de reparar por falta de contraste como, qualquer que seja a paisagem, a acácia-rubra é uma árvore bela.

Anúncios

5 comentários »

  1. xai!… agora é que tou mesmo vaidoso! 🙂

    Gostar

    Comentar por cg — 18/09/2010 @ 11:22 am

  2. Uma memoria bela nao se apaga nos coracoes… Lindo! E’ isso mesmo Carlos Gil. Muito Bom. Parabens. E ja agora, orgulhosos estamos nos de termos leitores deste gabarito. 🙂

    Gostar

    Comentar por AL — 18/09/2010 @ 11:47 am

  3. ron ron…. ehehehe

    Gostar

    Comentar por cg — 19/09/2010 @ 9:09 am

  4. Carlos,

    Este artigo valeu todas as quinhentas. Juro. Adorei.

    O próximo encontro só daqui a um ano? Só?

    Abraço fraterno, Celeste

    Gostar

    Comentar por celeste cortez — 27/09/2010 @ 2:08 am

  5. Gil perdoa , façamos a paz ! Fiquei comovida de ver-te falar assim da acácia rubra a minha perdição , de saudades de Moçambique , tinha muitas em Mocuba e adorou-as desde menina , dei reconher quando sou injusta , mas não o sei bem porquê? encontros desencontros encontrados por veredas loucas de se análizar, mas o amor é o mesmo , a saudade e é bom senti-la , e melhor estravazá -la , eu sou assim ……..<perdoa . Amei teu artigo ou o transbordar da tua alma ! Beijo.

    Gostar

    Comentar por Rufina Bexiga — 11/09/2011 @ 4:36 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: