THE DELAGOA BAY REVIEW

23/09/2010

O COMEÇO DA GRANDE IMPLOSÃO

Filed under: Economia Portuguesa, Politica Portuguesa — ABM @ 2:40 am

por ABM (23 de Setembro de 2010)

Na mais recente colocação de títulos da dívida soberana portuguesa nos mercados, ocorrida ontem, o preço negociado indicia que quem tem o dinheiro para emprestar à República Portuguesa só empresta se a República pagar uma taxa de juro mais alta.

Para ser exacto, seis por cento, próxima das taxas de juro que a malfadada Grécia anda a pagar estes dias. Mercê do seu conhecido estado de quase bancarrota. E, aos seis por cento, 50 por cento mais altos que o que Portugal teve que pagar em Março – há apenas seis meses – quando toda a gente supostamente apanhou um susto.

O que se escreve por aí é que a dívida pública portuguesa está a chegar aos níveis do verdadeiramente insuportável.

Mas não é só isso.

Apesar de o governo já ter aumentado os impostos de forma impiedosa, que já se revela nas crescentes receitas fiscais à medida que a economia na realidade nada faz, também se nota que afinal as despesas do governo continuam a aumentar mais depressa do que aumentaram as receitas, com a consequência de que o buraco financeiro público continua a alargar.

Ainda mais.

E como se não fosse suficiente, mais do que um presidente de um grande banco português (refiro os que vi, nomeadamente o BCP e a CGD) foram à televisão referir que os mercados de capitais continuam fechados e que as suas instituições continuam e cada vez mais estão a recorrer à linha de crédito excepcional disponibilizada directamente pelo Banco Central Europeu.

O que os bancos fazem liga directamente ao crédito doméstico, às pessoas e às empresas. E, aqui, o nível do crédito malparado é o mais alto dos últimos doze anos.

E o que dizem as nossas geniais cabeças pensantes residentes?

Começando pelo lado esquerdo (excepto o PCP, pois simplesmente já não há pachorra).

Sintomaticamente, o Sr. Francisco Louçã, do Bloco da Esquerda, o Grande Defensor da causa “o que é teu é nosso” e que estes dias ganha pelo menos uns 15 mil euros limpos por mês em Bruxelas como deputado em representação de Portugal (a que se juntam os direitos a uma reforma verdadeiramente napoleónica e viagens à barda) aproveitou a alguma consternação na imprensa e fez logo um número à Paulo Portas (aliás, nisso ele é a perfeita capicua mediática do Paulo Portas): uma declaração bombástica que dura 25 segundos para passar nos noticiários. Dizendo que isto era nada menos que uma vasta conspiração e uma chantagem das forças obscuras da direita capitalista para apoiar a Direita a massacrar os legítimos direitos do bom povo português – ou a pequena (e provavelmente equivocada) fracção que ele acha que representa.

Manuel Alegre, o providencial candidato presidencial simultâneo do Bloco da Esquerda e do Partido Socialista, adoptou a sua postura neo-lulaliana e rosnou logo ameaças a quem pensar que o Estado Social vai ser ameaçado e dizendo coisas feias sobre o Fundo Monetário Internacional (que é no mundo quem empresta o dinheiro para limpar as nojeiras nacionais, em troca de concessões draconianas).

Mário Soares, o ex-presidente e quiçá o mais genial mago da história da finança pública portuguesa após 1974, comentou curtamente dizendo que achava que na verdade o montante da dívida pública portuguesa actual é, apenas, mero, troco.

E para variar, José Sócrates ignorou sumariamente o assunto, referindo, numa daquelas ocasiões de visita-corta-fitas (uma exposição qualquer em Lisboa chamada Portugal Tecnológico) que não estava ali para falar destas coisas.

Mais à direita, Paulo Portas mandou as suas habituais, bem pensadas e efémeras soundbytes.

E Pedro Passos Coelho? ensaiou mais um daqueles tristes manifestos desta dialéctica amedrontada entre ele e Sócrates, em que cada um espera que o outro se espalhe, referindo que a despesa tem que ser reduzida.

Pois.

A minha estimativa é que, dentro de seis meses, se não houverem sinais positivos vindos da Alemanha, da China e dos EUA, que a evolução das contas portuguesas forçarão a tomada de medidas de tal magnitude que vão fazer o tal “estado social” que está tão na moda falar-se estes dias em Portugal, parecer como a tais auto-estradas SCUT (sem custos para o utilizador) que dentro de poucos dias vão passar a ser mais um sorvedouro do dinheiro dos bolsos dos portugueses, ou a réstea do Grande Plano de Investimento Público Socratiano – neste caso o indescritível troço de comboio de alta velocidade entre um sítio chamado Poceirão e algures em Hespanha: fumo espalhado, lá longe no horizonte.

Provavelmente, finalmente, daqui a quatro a seis meses, vai finalmente começar o Calvário Português, pelo menos para quem não tem um daqueles empregos garantidos para toda a vida, ou que não é um empresário de sucesso, ou amigo de um político – e que é muita gente.

Claro que a questão será como vai a bem-falante elite política encarar e sobreviver as pressões resultantes do que pouco mais será que mais uma pouco suave diminuição do padrão de vida de muitos cidadãos.

Vai a “esquerda” suceder em culpabilizar os ricos, o capital, os países ricos, pela desgraça doméstica, com promessas de preservar o seu tão apetecido Estado Social, à custa de impostos e mais impostos?

Vai a “direita” (que cá é o PSD, não entendo bem porquê) resistir à tentação de continuar a jogar à bola com o PS e demarcar-se para uma posição mais clara em relação a como pretende dar a volta à economia?

Mais do que os débitos e créditos individuais e colectivos, que Portugal vai emergir daqui a um ano?

2 comentários »

  1. maxambinha. trago-te uma torta de laranja.

    Deves gostar.:)

    Comentar por candida — 23/09/2010 @ 9:25 pm

  2. Candida

    Obrigado…e escreve-se “maschambinha” por aqui.

    Comentar por ABM — 24/09/2010 @ 1:39 am


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