THE DELAGOA BAY REVIEW

01/10/2010

DEUS AINDA É TAX FREE

Se o exmo Leitor for ao Vaticano e visitar a Capela Sistina e torcer o pescoço até doer, lá em cima num canto vê isto

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Há três dias o genial Paul Fauvet, actualmente editor da aparentemente moribunda Agência de Informações de Moçambique (o sítio da AIM na internet parece que pifou, suponho que por falta de pagamento) e decano do jornalismo de era após a Independência, parece que se passou dos carretes e escreveu uma peça que basicamente é uma invectiva dirigida directamente a uma dessas religiões surgidas há relativamente pouco tempo, a Igreja Universal do Reino de Deus.

Mais conhecida como IURD.

Infelizmente, apesar do Paul escrever português tão bem como qualquer outro, o seu artigo chegou-me em inglês e para quem lê a língua, mesmo que seja bad english, está aqui.

Para além de referir en passant que o big boss da IURD (um senhor chamado Edir Macedo) esteve dentro por evasão fiscal e anda a ser investigado por branqueamento de capitais lá na sua base no Brasil, Fauvet acusa a organização de ser sinistra, moral e formalmente corrupta, extorquindo dinheiro de muita gente que quase não tem nada através de “milagres”, com o único objectivo de enriquecer obscenamente a sua hierarquia.

Fauvet rebola-se a contar os detalhes dos tais “milagres” – que refere ser o principal argumento de venda desta organização (considerando-a tudo menos uma organização religiosa legítima) que acusa de serem perigosas e pouco engenhosas fraudes cometidas contra a sociedade, especialmente os milhares e milhares de crédulos que pelos vistos consomem aquilo tudo e ainda pagam o dízimo e mais qualquer coisa.

E ainda por cima não paga impostos.

Fauvet conclui a sua peça expressando a sua indignação por a IURD moçambicana andar agora a “contaminar” a imprensa moçambicana, comprando espaços nas publicações locais, onde vendem escandalosa e impunemente o seu produto, nalguns casos nem sequer colocando o aviso obrigatório de que se trata de nada mais, nada menos, do que publicidade “comercial”.

Ora, antes de mais confesso-me um discreto admirador do Fauvet destes dias (não de quando ele era um entusiástico servidor da Revolução Moçambicana, sobre o qual aliás sei relativamente pouco). A idade realmente fez-lhe bem.

Mas acho que ele está completamente errado.

Por três razões.

A primeira é que, como ele sabe, há leis que regulam estas coisas. E se aparece um tipo que vem do Brasil com umas ideias peregrinas sobre a salvação das almas dos outros que por acaso inclui uma taxa de 10 por cento mais qualquer coisa do salário em troca dum carnaval qualquer – e age dentro do que as leis prescrevem – as coisas são assim. Cada um tem o direito de ter o seu deus e de fazer o que acha certo e moral, por mais estúpido que pareça aos outros. Creio que nesta fase do campeonato já se passou o tempo em que, por exemplo, os católicos, os muçulmanos e os judeus cada um acha que a sua é que é a única e verdadeira religião, em detrimento das outras.

Nestas coisas, o princípio do respeitinho é muito bonito.

A segunda é que -admitamos- visto de fora, isto das novas religiões parece ser um verdadeiro negócio da China, pois, literalmente, a) custa tostões e dá milhões, b) como as pastelarias e os restaurantes, é um negócio onde só circula cash, o que dá para escapar a todos os controlos e mais algum e fazer os maiores truques, de entre os quais a lavagem de dinheiro é o mais corriqueiro c) não paga impostos nenhuns, d) em que milhares acriticamente dão milhões a meia dúzia, que só têm um chefe que está no Brasil, em troca de praticamente nada a não ser umas vagas promessas, e) são protegidos pelas leis que regulam as confissões religiosas, e, se necessário, por advogados de topo pagos a peso de ouro se por acaso houver algum probleminha.

Mas, strictu facto, não é por aqui que se faz ou desfaz uma religião.

Finalmente, discordo (amigavelmente) de Paul porque quase todas as confissões religiosas mais recentes são habitualmente alvo de suspeitas e críticas por parte de sociedades onde tipicamente pontificam religiões solidamente estabelecidas e com uma longa presença, por vezes milenar, elas próprias originalmente estabelecidas frequentemente pelos mesmos métodos, por imposição ditatorial ou pelo fio da espada, todas elas com alguns percursos menos polidos, mas todas elas hoje inquestionáveis e as detentoras da putativa verdade única.

Mais grave, ou talvez não, gostava de salientar que as religiões mais estabelecidas são hoje caracteristicamente mais sóbrias, mais reservadas, menos dadas à procura de novos aderentes.

Surpreende-me vagamente que, tendo eu 50 anos de idade, em todo este tempo a única religião que alguma vez me veio bater à porta para me explicar em que é que acreditava e para ver se me convencia de alguma coisa foram dois jovens mormons americanos brancos loirinhos vestidos de calça preta e camisa branca, com sacolas e umas tabuletas com os nomes deles ao peito, com o ar mais ridículo do mundo, que um dia há já uns bons anos atrás, me vieram bater à porta em Alcoentre City (mesmo assim levaram uma corrida em dois minutos).

Tirando o memorável Padre Oshea (católico e de extracção irlandesa) me ter vindo cumprimentar ao meu quarto na Universidade americana de Brown na minha primeira semana de aulas há quase trinta anos, nunca na minha vida um representante católico, muçulmano ou judeu alguma vez me quis explicar ou convencer de seja o que for. Nunca nenhum sequer me tentou explicar em que é que acreditava.

Ora isto necessariamente tem consequências, especialmente num país tão aberto, dinâmico, problemático e diverso como Moçambique, onde há uma gigantesca percentagem da população (mais de metade tem menos que 25 anos de idade) que não adere à partida a qualquer das religiões mais estabelecidas, e que, logo, se encontra perfeitamente aberta para escutar as mensagens sobre o bem e o mal e a salvação nesta e noutra vida que alguém lhes trouxer.

Se as religiões mais estabelecidas pouco ou nada fizerem para atrair ou sequer falar a língua e procurar entender os problemas específicos desta camada da população, estas pessoas vão olhar para outras escolhas mais disponíveis e inteligíveis.

A meu ver, o sucesso das IURDes deste mundo reflecte em parte o fraco esforço destas religiões de se apresentarem de uma forma eficaz junto destas populações.

E isso a IURD faz, bem ou mal, mas eficazmente, se levianamente, montando uma poderosa máquina de cobranças, que financia novas formas de comunicar, muito mais baratas e eficazes, como a televisão, a rádio, os enormes cinemas que estão às moscas e compram por tuta e meia para aqueles comícios dos milagres.

Aliás a IURD não inventou nada. Quem inventou todo o método e definiu as regras de funcionamento foram os norte-americanos, há muitos anos.

Há um acrescento que considero apropriado referir no caso de Moçambique, que, tirando os minúsculos territórios que os portugueses detiveram no vasto manto indiano, foi o único território onde os portugueses estiveram em que foram (literalmente) obrigados, pela Grã-Bretanha a permitir a diversidade religiosa e a liberdade de culto, ainda no século XIX. É por isso que, quem ler a história desse país, rapidamente constatará que, apesar dos esforços levados a cabo especialmente após a concordata que Salazar celebrou com o Vaticano em 1940, dando alguma primazia à religião católica, Moçambique há muito que tinha no seu território praticantes das religiões protestantes, a Missão Suíça, adventistas, luteranos, anglicanos, muçulmanos (cuja presença milenar especialmente nas costas do que é hoje Moçambique por demais evidente), testemunhas de Jeová e até uma mão cheia de judeus.

Como curiosidade, o grande Henrique Paiva Couceiro (há uma biografia rápida dele feita pelo Vasco Pulido Valente que se recomenda), um dos que passou por Moçambique brevemente nos tempos do Sr Mousinho e do Sr Gungunhana (e que por isso teve direito a nome de rua em Maputo, e a seguir direito a que fosse obliterada no Novo Ordenamento), e que entre outras coisas foi um pródigo Governador de Angola, considerava no primeiro quartel do século passado, que Portugal deveria sumariamente despachar Moçambique (venda, leasing, fosse o que fosse), e isto por duas razões básicas.

A primeira é que ele achava que Portugal não tinha população suficiente para poder possivelmente alguma vez sequer tentar colonizar territórios tão vastos como Angola e Moçambique.

A segunda é que, em termos da diversidade das suas culturas e religiões, ele achava que aquilo (aquilo sendo a então colónia de Moçambique) nunca poderia alguma vez vir a ser português.

Sendo eu quase perfeitamente ateu, sempre apreciei o convívio com essa diversidade religiosa e cultural e o seu valioso património para o País e para as pessoas, trazendo conforto, ajuda, apoio moral e códigos de conduta.

Assim, se de facto a IURD em Moçambique anda a esticar a corda estes dias, como Paul Fauvet postula, acredito que o governo tem todo um conjunto de leis e todo um aparato administrativo para aquilatar eventuais violações a essas leis.

Tirando isso, apenas podemos lamentar perante aquilo que à primeira vista parece ser pouco mais que um esquema de pirâmide marginalmente religioso que, recorrendo à táctica da venda da banha da cobra – os milagres garantidos, as soluções fáceis do “reza e será curado ou recompensado”, explora os mais pobres, os mais expostos, os menos instruídos.

Creio, no entanto, que, dentro das circunstâncias, esta parece ser de facto uma área de enorme potencial para crescimento. E fiquei parvo hoje ao descobrir que, se o exmo. Leitor quiser tirar uns cursos pela internet e começar a sua própria Igreja dos Milagres, há uma excelente alternativa disponível imediatamente, bastando para tal ter um cartão de crédito Visa ou Mastercard à mão. Chama-se Universidade Gospel. Ensina tudo e em português. Mas deve haver muitas mais.

(Hum, será que dava para criar a….Igreja do Maschamba, com Bispo Jpt, Bispa Baronesa, Apóstolo ABM….?)

Portanto, para quem não gostar da IURD, sempre pode começar a estudar e criar a sua própria igreja. Faça os seus próprios milagres, transmita as mensagens que quiser, arranje o seu próprio rebanho- e, naturalmente – faça o seu preço.

Aliás, há uma tal de Igreja Maná cujo dono (bispo? profeta? apóstolo?) chama-se Jorge Tadeu, é um branco de Moçambique, que costumava dar na televisão e que parece que vende daquilo a potes. Do que vi, pareciam estar todos bem felizes da vida.

O negócio de salvar almas é fabuloso, legal e divertido.

E não se esqueça: é também tax-free.

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