THE DELAGOA BAY REVIEW

01/10/2010

OS PECS DE JOSÉ SÓCRATES

Filed under: Economia Portuguesa, José Sócrates — ABM @ 2:06 am
arnaldo

Os dois pecs do Arnaldo Schuártzenegro

por ABM (30 de Setembro de 2010)

Para que fique registado e para futura referência, pois daqui a meia dúzia de semanas já ninguém se lembra, aqui se deixa, cortesia do Jornal de Negócios de hoje, publicado em Lisboa, o que o actual governo português disse ontem que gostaria fazer com os contribuintes portugueses no ano fiscal de 2011, e a que cá chamam o PEC 3 (daí o título desta nota).

Em inglês, o termo pec é uma abreviatura e calão para a palavra pectoral, significando “peito” (vide imagem acima do Arnaldo). Mas aqui na terra dos signatários do Acordo Ortográfico, é uma sigla: “PEC” significa “Plano de Estabilidade e Crescimento”, termo cunhado em tempos nas catacumbas marketeiras do PS, provavelmente para dar um nome mais sonante e vagamente dinâmico ao orçamento do governo português.

Pois um orçamento qualquer um faz. A minha mãe BM, que tinha a 4ª classe, portanto ligeiramente menos que o Sr. Engenheiro, e que durante anos foi dona de casa e criou oito filhos, sabia perfeitamente fazer um orçamento.

Mas -ah- não é qualquer um que faz um Plano de Estabilidade e Crescimento. Dito assim, a coisa soa muito menos que um vulgar orçamento com custos e receitas. É uma expressão aspiracional, inspiracional, tranquilizadora, que denota optimismo, carácter, foco, dedicação, objectivos.

É outra loiça.

Já não é débitos e créditos. Custos e receitas. Impostos e despesa.

É um mapa metafórico, catártico e metafísico, para juntos os portugueses passarem da existencial, fedorenta, presente merdeur, para o mais etéreo Xangri-lá da República Socialista: afirmar o Estado Social, sugerindo subliminarmente que não vão o desgraçado povo e a periclitante classe média ter que pagar os pretéritos desvarios: serão os ricos, as empresas, os bancos (!). Os outros.

Pois.

O problema é que, neste momento, sendo que todos já se perceberam que economicamente se está à beira de uma bomba económica (para não dizer social), sendo este o terceiro “plano” em menos de oito meses, e dado a seu impacto (aparenta que todos vão pagar) isto não é, por definição, um plano.

Pelas mesmas razões, reflecte tudo menos “estabilidade”.

A não ser que se considere que o Titanic se afundou estavelmente na noite de 15 de Abril de 1912.

E quanto ao crescimento……alguém estava a delirar, não?

Mas com o uso do termo, sempre fica o residual. O residualzinho. Aquela vaga ideia de que, afinal, há visão e método na loucura.

E certamente há. E haverá.

Pelo menos até se chegar ao PEC 4.

Então vamos lá ao texto (com vénia) do JNeg:

O PEC PEC PEC

Das 19 medidas apresentadas, 15 são do lado da despesa e as restantes quatro do lado da receita.

Despesa

1 – Reduzir os salários dos órgãos de soberania e da Administração Pública, incluindo institutos públicos, entidades reguladoras e empresas públicas. Esta redução é progressiva e abrangerá apenas as remunerações totais acima de 1500 euros/mês. Incidirá sobre o total de salários e todas as remunerações acessórias dos trabalhadores, independentemente da natureza do seu vínculo. Com a aplicação de um sistema progressivo de taxas de redução a partir daquele limiar, obter-se-á uma redução global de 5% nas remunerações [nota – a redução global significa que há aqui gente que vai levar com um corte de 10 por cento no seu salário];

2 – Congelar [todas] as pensões;

3 – Congelar [todas] as promoções e progressões na função pública;

4 -Congelar [todas] as admissões e reduzir o número de contratados;

5 – Reduzir as ajudas de custo, horas extraordinárias e acumulação de funções, eliminando a acumulação de vencimentos públicos com pensões do sistema público de aposentação;

6 – Reduzir as despesas no âmbito do Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente com medicamentos e meios complementares de diagnóstico;

7 – Reduzir os encargos da ADSE;

8 – Reduzir em 20% as despesas com o Rendimento Social de Inserção;

9 – Eliminar o aumento extraordinário de 25% do abono de família nos 1º e 2º escalões e eliminar os 4º e 5º escalões desta prestação;

10 – Reduzir as transferências do Estado para o Ensino e sub-sectores da Administração: Autarquias e Regiões Autónomas, Serviços e Fundos Autónomos;

11 – Reduzir as despesas no âmbito do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC);

12 – Reduzir as despesas com indemnizações compensatórias e subsídios às empresas;

13 – Reduzir em 20% as despesas com a frota automóvel do Estado;

14 – Extinguir/fundir organismos da Administração Pública directa e indirecta;

15 – Reorganizar e racionalizar o Sector Empresarial do Estado reduzindo o número de entidades e o número de cargos dirigentes.

Receita

1 – Redução da despesa fiscal

Revisão das deduções à colecta do IRS (já previsto no PEC);
Revisão dos benefícios fiscais para pessoas colectivas;
Convergência da tributação dos rendimentos da categoria H com regime de tributação da categoria A (já previsto no PEC);

2 – Aumento da receita fiscal

Aumento da taxa normal do IVA em 2 por cento [para 23%].;
Revisão das tabelas anexas ao Código do IVA;
Imposição de uma contribuição ao sistema financeiro em linha com a iniciativa em curso no seio da União Europeia;

3 – Aumento da receita contributiva

Aumento em 1 por cento da contribuição dos trabalhadores para a Caixa Geral de Aposentações, alinhando com a taxa de contribuição para a Segurança Social.
Código contributivo (já previsto no PEC).

4 – Aumento de outra receita não fiscal

Revisão geral do sistema de taxas, multas e penalidades no sentido da actualização dos seus valores e do reforço da sua fundamentação jurídico-económica.
Outras receitas não fiscais previsíveis resultantes de concessões várias: jogos, explorações hídricas e telecomunicações.

Nota: após começar a ser disseminado o conteúdo do “plano”, os mercados internacionais reagiram violentamente, baixando hoje o preço que exigem pela dívida portuguesa (prazo dez anos) de uns estonteantes 6.7% para uns fantásticos…6.4%. Como referência, pela venda da sua dívida, a Alemanha paga neste momento 2%. Aos 4.6% de diferença chama-se “o factor PEC3”.

11 comentários »

  1. Extraordinario e os paises da periferia europeia observarem as sua situacao nesta espiral como cordeirinhos a caminho do sacrificio ritual aos deuses financeiros e do Euro. A Irlanda, depois da sangria do ano passado, parece que afinal nao ficou curada pelo que os nossos economistas de servico precrevem mais sangrias…
    A Grecia que oficialmente esta fora dos mercados de dinheiro porque recorreu ao fundo especial tem a sua taxa de juro nao oficialmente cotada a 10%, depois de iniciarem a sangria.
    Portugal vai agora na sua terceira cura de sangria e nao chegara.
    E a Espanha teve a sua cotacao de credito cortada recentemente tambem depois de, surpresa, ter anunciado um pacote de austeridade…

    E sao incapazes de se juntarem irem a Bruxelas exigir uma refundacao do Euro com regras decentes… Politicos miseraveis fantoches liderados por economistas mentecaptos.

    Comentar por Lowlander — 01/10/2010 @ 2:23 pm

  2. Sr Lowlander

    Não entendo o seu comentário. Refundar o euro com “regras decentes”? está a falar de quê?

    A Irlanda, tal como a Grécia, a Espanha e o Jardim à Beira Mar Plantado andaram literalmente décadas numa espiral de gastar dinheiro e inibir, de uma forma ou outra, a iniciativa privada doméstica, apostando em grandes, faraónicos projectos públicos e uma gigantesca bolha de especulação imobiliária, tudo na base de subsídios públicos e endividamento maciço, público e privado, enquanto que alegremente engordaram os seus sectores públicos e foram subindo os impostos em toda a linha. Quando são sacudidos no final de 2008, e os mercados lhes puxaram o tapete por debaixo, gritaram que não queriam apertar o cinto e que a culpa …é dos outros? os tipos do Norte? é isso? voltamos a esse argumento? tenha santa paciência. As coisas já estão suficientemente más como estão, mas se não reconhecer o que foi que aconteceu e o que tem que ser feito, então aí não há mesmo esperança para ninguém.

    Comentar por ABM — 01/10/2010 @ 3:35 pm

  3. Sr. ABM,

    Tretas. Voce nao compreende porque anda atras do resto da carneirada de economistas caserna que monopolizam a opiniao publico portuguesa:
    1 – Os paises da periferia estao endividados porque foram enfiados numa espiral recessiva por regras do Euro que so ajudam a politica industrial dos paises do Norte e lixou o tecido produtivo do Sul – sim, volto a esse argumento a culpa e dos paises do Norte.
    2 – Quem se endividou foi o sector privado a ver se falamos direito de vez, foram os privados que se enfiaram em negociatas de especulacao e depois vieram exigir uma socializacao das suas percas.
    3 – A Espanha e a Irlanda andavam a gerir superavits antes de rebentar a bolha completamente em 2008, tenha la voce a santa paciencia. Portugal e Grecia tinham contas dentro do famigerado PEC na mesma altura. Tenha la voce a santa paciencia mas re-escrever a historia da crise para encaixar na desculpa corrente para justificar mais uma sangria e que nao.

    E acrescento uma mais: os apologistas das sangrias, os VPS (very serious people como o Krugman denomina) falham redondamente em explicar a crise corrente e mantem um silencio sepulcral sobre os falhancos tremendos das suas receitas de sangria em outros pacientes falhancos ate no proprio objectivo das sangrias, controlar deficits, porque os paises com cura de sangria estao agora com situuacoes orcamentais iguais ou piores que paises que as nao fizeram ou nao fizeram tao rapidamente. Como diz e muito bem o Krugman, quem estiver disposoto a apostar o seu dinheiro de acordo com as previsoes desses economistas so teria levado 1 milhao de dolares para casa se tivesse apostado 2 milhoes.
    Em resumo Sr. ABM: tretas de economistas

    Comentar por Lowlander — 01/10/2010 @ 4:16 pm

  4. Boa tarde Sr Lowlander,

    Infelizmente engripei-me ontem o que está a afectar a minha disponibilidade argumentativa no computador temporariamente.

    Posso voltar a esta esgrima consigo mais tarde. Mas, entre ranho, guardanapos e comprimidos de Cêgripe, permita-me referir duas coisas.

    A primeira, é que creio que já tivemos este debate uma vez, com relativa exaustão. Desde essa altura, nada mudou. Não sei se compensa revisitar os mesmos argumentos.

    A segunda, e decorre ainda da primeira, recordo-lhe que lhe disse claramente que nenhum país, incluindo Portugal, foi obrigado a aderir à UEM. Cujas regras estavam escarrapachadas por toda a parte para todos verem. Eu lembro-me perfeitamente que quando o processo decorreu, eu previa (facilmente) uma situação como a actual e achei que tal tinha sido uma decisão fundamental do Estado português. Em parte por essa razão, muita gente tem o seu dinheiro em Portugal, em euros: porque desta forma já não é um Mário Soares ou um Sócrates qualquer que pode ir à televisão uma noite e desvalorizar a moeda portuguesa em 20 ou 30 por cento (como exemplo veja o que está a acontecer em Moçambique neste momento, s.f. favor). Eu lembro-me quando o escudo se tornou dinheiro macaco, e se assim vier a acontecer novamente, então compro dólares ou mudo os meus euros para Espanha ou outro lado qualquer.

    O que o Sr LL está a dizer a meu ver não é que as Alemanhas e as Franças estão mal. O que está a dizer é que há na União Europeia uma dicotomia económica, financeira e em termos de visão, em que Portugal se insere na parte mais terceiro-mundista desse conjunto. E que se calhar usar o euro é um luxo que está a sair muito caro a Portugal. Concordo plenamente. Mas se a sua ideia é sairmos (acredite que os alemães não vão tocar no euro como está neste momento) avise-me uns dias antes para eu ir ao banco tirar o meu dinheiro. Pois o meu sentido de dever para com este país está perigosamente inquinado pelo que eu acho que este país fez por mim, pelos meus pais, e que de momento acredito que vai fazer pelos meus filhos.

    Nota final: acredite, sou particularmente insensível em relação a algum do economês que grassa pelos media portugueses. Nem faço dogma de tudo o que ocorre ao Sr. Krugman.

    Comentar por ABM — 02/10/2010 @ 5:11 pm

  5. Caro ABM,

    E insensivel mas repete grosso modo a mesma missa que vi repetida ad nauseum, sem qualquer contraditorio, quando ai estive recentemente. O krugman nao acerta todas mas como se costuma dizer melhor estar mais ou menos certo que rigorosamente errado.

    A Portugal ninguem apontou uma arma a cabeca, mas tambem ninguem informou a populacao do que ai vinha. Entrada no Euro foi anunciada e nao discutida, com as objeccoes habituais da trupe do costume – leia aqui os comunas, que tanto abomina – nao aceito, nem tolero que me digam que perante a historia da implementacao do Euro me venham dizer que fizemos uma decisao informada e portanto temos aquilo que merecemos.

    Quanto a saida do Euro, da forma como isto vai posso dar-lhe ja um conselho, trate, de facto de tirar os Euros dos bancos porque sem um rearranjo institucional das instituicoes de governacao economica do Euro, os paises da periferia irao todos a bancarrota e sairao do Euro. Pisamos chao que ja deu uvas bem sei mas estou ainda mais convencido hoje do que da ultima vez que falamos.

    Usei a palavra “sangria” para classificar estes planos de austeridade e nao e uma escolha inocente: estas politicas economicas ditadas por Bruxelas sao o equivalente economico da medicina Medieval, sangra-se o paciente e quando, “inexplicavelmente” este fica ainda mais fraco depois da cura, tratamos de abrir a veia do outro braco. Observe a Irlanda, veja como a Espanha, depois de aprovar os seus primeiros planos de austeridade ve agora os seus ratings serem reduzidos devido a “mas perspectivas de crescimento”. Repetir os erros dos outros a espera de resultados diferentes e, por definicao, loucura.

    Comentar por Lowlander — 05/10/2010 @ 12:22 am

  6. Boa noite Sr. Lowlander

    Meu meu, o Sr também deve andar em desnicotinização, pois até bate nos que estão do seu lado do argumento. Eu acho que disse algures lá em cima qualquer coisa como “concordo plenamente”. O que refiro é que a república portuguesa na plenitude dos seus representantes meteu a cabeça (tronco e membros) no cepo com esta história do euro mas sem união monetária efectiva. Um “tesão de mijo” que não foi seguido por alguns membros da UE que não tinham a certeza de aonde é que isto ia dar. Mas em meados dos anos 90 ninguém sonhava que Portugal iria ter quinze anos de socialismo cor de rosa com défices, endividamento público e privado de proporções épicas e zero aumento de produtividade e de competitividade. E mesmo quando isso já se sabia (em 2002 já se sabia) rigorosamente ninguém ligou e se alguém dissesse alguma coisa era apodado de velho do Restelo.

    O que o senhor efectivamente está a dizer é algo muito mais significativo que esta treta da moeda europeia (que a seu ver, basicamente é o deutschmark disfarçado).

    O que o senhor está a dizer é que a União Europeia já morreu mas que ninguém ainda teve a lata de o dizer em aberto. Vai ser um longo estertor, como está a ser o fim da Era de José Sócrates.

    E se for isso que está a dizer, especialmente depois das notícias do que se está a passar na Irlanda, também concordarei consigo.

    Que tal?

    Quanto ao ter dinheiro em bancos portugueses, e em euros, Sr. Lowlander, assisti à descolonização ao vivo. E aprendi ser sempre, sempre, sempre, má ideia ter todos os ovos no mesmo cesto.

    Se me fiz entender.

    Comentar por ABM — 05/10/2010 @ 12:38 am

  7. Eu estou completamente de acordo com o LL nesse seu projecto de desnicotinizar. Quanto ao resto, enfim, acho que, pois, na realidade, acho que a União Europeia vai sobreviver (quanto não sei) ao “engenheiro” José Sócrates – que isto até a paciência do povo português (aquele que foi espoliado da informação sobre a entrada na UE e no Euro e nisso tudo, e tanto a queria ter, tanto esbracejou para isso, até manifestações e pancada houve) tem limites. Ainda me permito, senhor LL, caro LL a adenda: o povo portugues não foi informado sobre o que aí vinha porque, rigorosamente, se esteve a cagar no assunto

    Comentar por jpt — 05/10/2010 @ 1:15 am

  8. Caro ABM,

    Exagera menos sobre o meu estado de espirito do que pensa, mas nao e nicotina, e revolta acompanhada de uma ira surda e cada vez mais avassaladora para com este mundo.
    Estou demasiado velho para numa ignorancia abencoada me manter feliz e alienado e demasiado novo para ja estar resignado.
    Concordamos entao no essencial, mas nao resisto a fazer notar que com ou sem socialismo rosa estes 15 anos teriam sido de deficits. O este problema nao esta em Portugal, esta em Bruxelas. E tambem nao resisto tambem a isto: ao contrario do que diz, em meados de 90 ja ha muito que havia quem alertasse para o que ai vinha, o problema e que eram comunas papoes de criancinhas.

    Caro JPT,

    Para ateu, a sua fe neste Euro e duplamente prodigiosa. A essa fe respondo parafraseando um dito do chanceler Bismarck (isto tinha de acabar com um alemao claro hehehe) o Euro e como as salsichas: quanto menos se sabe sobre o que e, e o seu processo de fabrico mais respeitamos o resultado.
    Acusar o povo portugues de falta de interesse pelo seu futuro e como acusar um analfabeto de falta de interesse por livros. Sinceramente caro Senador, perdoe-me a franqueza, mas tem-me habituado a um pensamento um pouco mais elaborado que isso.

    Comentar por Lowlander — 06/10/2010 @ 11:20 am

  9. Bom dia Sr Lowlander

    Aprendi há muitos anos que a ira pode (e deve) ser uma fonte de energia muito melhor canalizada se para fazer algo de positivo e produtivo. Já há muito que desisti de entender alguma da lógica inerente ao sistema económico e político português (que me parece ser algo terceiro-mundista, do tipo de conseguir-se algo em troco de nada)e certamente que não espero que os portugueses se comportem como os alemães, acho que, no agregado eles nem suspeitam o que isso é.

    Mas o Sr. suscitou a minha curiosidade: qual, afinal, o percurso a seguir na sua óptica? imaginando-se capacitado para mandar alguma coisa nesta terra, que medidas apontaria como estruturantes para um passo seguinte credível nesta saga em que Portugal se encontra? pois me parece que a situação actual apenas aponta para um significativo abaixamento do actual padrão de vida a que os cidadãos portugueses se habituaram.

    E já agora, o que a OIE.org?

    Comentar por ABM — 06/10/2010 @ 12:03 pm

  10. Caro ABM,

    Comecando pelo fim:
    OIE.org e um erro que ainda nao apaguei de alguns dos computadores que uso, o site e http://www.oie.int e e o site oficial da Office Internacional des Epizooties, e o equivalente veterinario de OMS e tem sede em Paris. Ja agora, e a titulo de curiosidade, excelentes noticias anunciadas hoje mesmo: a Peste Bovina, uma importante doenca infecciosa animal, historicamente a causa para a fundacao da OIE foi hoje oficialmente declarada como erradicada. Trata-se, de longe do maior feito ate hoje da Medicina Veterinaria mundial e, arrisco, um dos maiores feitos do ser Humano ja que constitui a segunda doenca de sempre a ser erradicada do mundo pelo Homem, conseguimos colocar mais homens na superficie da Lua do que erradicar micro-organismos patogenicos.

    http://www.bbc.co.uk/news/science-environment-11542653

    E com muita pena que digo que em absolutamente contribui na minha vida profissional para este feito mas com grande orgulho e prazer que me empoleiro nos ombros dos gigantes meus predecessores e observo os frutos do seu labor.

    Comentar por Lowlander — 14/10/2010 @ 9:21 pm

  11. De seguida para opinar sobre uma area em que sou um mero curioso sem qualquer experiencia profissional:

    O que faria. Na minha maneira de ver, encarar o problema Portugues simplesmente como um problema Portugues e miopico e contraproducente. A crise economica portuguesa e um mero sinal ou sintoma de uma crise mais profunda no seio da Eurolandia que resulta de uma arquitectura institucional deficiente. Para mim esta crise manifesta-se ao nivel de todo o continente Europeu e sao sinais nao so a crise portuguesa mas tambem as crises orcamentais em toda a periferia da Eurolandia e, para mim, TAMBEM SAO SINTOMAS, e consequentemente indesejaveis, os superavits dos paises do Norte da Eurolandia.

    Assim sendo talvez o tenha de desapontar, mas a “bala magica” que eu proporia para resolver esta crise nao pode ser jogada a nivel simplesmente nacional e teria de ser jogada a nivel comunitario:

    1 – Refundacao do BCE, dando-lhe um papel nao so de controlo da inflacao a nivel europeu mas tambem de fomento ao crescimento economico de toda a eurolandia.
    2 – Criacao de um verdadeiro orcamento Europeu, a criacao de um imposto sobre transacoes financeiras seria uma excelente forma de o comecar ja que paralelamente a UE e nao so, todo o Ocidente tem de comecar a tomar medidas para reduzir o poder economico (e consequentemente politico do sector financeiro). Outros impostos transnacionais poderiam ser impostos verdes sobre as emissoes de CO2 eq.
    3 – Harmonizacao fiscal ao nivel da Eurolandia por forma a evitar competicao fiscal entre diferentes regioes e as “corridas para baixo” na provisao de servicos publicos resulta do sub-financiamento cronico dos cofres estatais que se seguem a esta competicao fiscal.
    4 – Fim dos paraisos fiscais para o sector financeiro e adopcao de legislacao que limite os fluxos de capital na na Uniao, possivelmente isto so seria pratico com presenca Estatal directa nestes mercados.
    5 – Obrigatoriedade das empresas internacionais de notacao financeira de seguirem uma formula clara, transparente de facil acesso por parte do publico para se poder auditar como obtem os seus resultados, isto e o seus diferentes ratings de credito para os diferentes agentes no mercado financeiro. E incompreensivel que ande meio mundo aterrorizado com as palavras destas Moodys, Standards and Poors etc que aparentam agora ser tao agressivas nos seus julgamentos de Estados soberanos mas que nao disseram uma palavras sobre o sector bancario mundial em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007.
    6 – Adopcao de politicas expansionistas em termos orcamentais a nivel da Eurolandia. Isto nao invalida controlo de orcamentos estruturais excessivos nos paises da periferia, desde que, a expansao dos orcamentos no Norte da Europa fosse suficiente para que o efeito liquido fosse political fiscal expansionista. A Europa (e nao so) mas a Europa encontra-se numa tipica situacao que Keynes descreveu como armadilha de liquidez, um choque na procura agregada de productos que esta a ter efeitos depressivos na economia, alto desemprego e inflacao baixa ou mesmo deflacao. E necessario que os Estados adoptem politicas contra-ciclicas para re-iniciar o motor economico.
    7 – A Europe necessita de ser dura com os mercados emergentes, especialmente a China. Nem que fosse necessario rasgar alguns acordos multilaterais da OMC. A concorrencia desleal que actualmente ocorre em termos de “dumping” ambiental, social e tambem cambial e inadmissivel. De resto a ja e hora da China comecar a crescer por via de consumo interno e por a circular pela economia mundial os seus tremendos superavits comerciais.

    Poderia aqui mencionar algumas outras politicas no sentido de promover alguma decencia social, tais como uma reforma fiscal que reduzisse a carga fiscal em impostos regressivos como por exemplo o IVA e que focasse essa carga em impostos mais progressivos, promovendo uma maior redistribuicao de reducao das actuais clivagens sociais, assim como politicas industriais de promocao da industria europeia e de criacao de trabalho ou politicas que atribuam maior poder negocial ao trabalhadores uma vez mais para uma melhor redistribuicao dos rendimentos porque o trabalho, o trabalho decente e a melhor forma de se obter esta redistribuicao com a ajuda do mercado. Mas estes 7 pontos ja seriam um bom comeco e diria que tem uma carga ideologica mais neutra e consensual.

    Para que isto sucedesse Portugal teria de actuar de forma concertada a nivel Europeu, juntar-se aos paises da periferia (os PIGS) e concertarem posicoes em bloco, eventualmente tentar usar a frixxoes que actualmente existem no seio da Uniao entre Franca e Alemanha para tentar obter reformas mais profundas nas estruturas de governacao economica europeias. Como ja lhe disse noutras discussoes, no limite, os PIGS deveriam unir-se e comecar a delinear uma estrategia de saida ordeira e minimamente decente do Euro, em vez de verem essa saida imposta de forma anarquica pela conjuntura desfavoravel em que estao. E importante frisar: com esta arquitectura estrutural do Euro, os deficits da periferia (acompanhados de superavits do Norte europeu) nao sao meros defeitos do sistema, sao feitio mesmo.
    No limite os PIGS teriam de ir a bruxelas e ameacar a opcao nuclear: saida do Euro e restruturacao imediata das dividas em que todos (incluindo os paises do Norte) perdem, ou refundacao do Euro.

    A nivel estritamente nacional, sem uma coordenacao europeia, o melhor que se poderia pedir era usar esta oportunidade para produzir uma reforma fiscal que fosse mais justa, com a carga fiscal a recair sobre os mais ricos com impostos progressivos em vez de se usar as receitas do costume e faceis de impostos regressivos que apenas aumentam as desigualdades sociais em Portugal que ja sao as maiores de toda a Uniao.

    Isto foi tudo escrito de um folego e sem revisao pelo que peco desculpas por eventuais gralhas, repeticoes ou quebras na narrativa do meu raciocinio.

    Comentar por Lowlander — 14/10/2010 @ 10:03 pm


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