THE DELAGOA BAY REVIEW

04/10/2010

CLAIR DE LUNE

http://www.youtube.com/v/CvFH_6DNRCY?fs=1&hl=pt_PT

por ABM (4 de Outubro de 2010)

O cenário foi um campo de futebol de uma escola particular em Cascais City, no fim de uma tarde de outono, durante a aula de futebol do herdeiro, em que desempenhei o logístico e crucial papel de levar o menino à aula, esperar sentado uma hora e trazê-lo de volta a casa.

Cerca das 17 horas, lentamente, os meninos comparecem, bem como o instrutor, um com cara de miúdo imberbe mas que me foi dito previamente ter uma licenciatura e um mestrado pelo ISEF em desporto (touché).

Os meninos vão para o campo e começam a correr às voltas atrás da bola.

Numa precária bancada, aguardo sentado, sem nada que fazer.

Após uns minutos, ao pé de mim, senta-se uma senhora, com os seus setenta anos, distinta e artilhada, a imagem perfeita da high society cascaense (eu de calções de khaki e t-shirt como de costume), perfeitamente vestida como se fosse a um chá na vizinha Pastelaria Garret.

Mas logo deparei que vinha aflita.

Desabafou que o seu carro pifara misteriosamente no preciso momento em que estacionara junto ao campo para trazer o neto ao mesmo treino que o meu jovem.

Solícito, e já farto de estar ali sentado a olhar para a paisagem, sugeri à senhora que fôssemos ver o que se passava com o seu carro (não percebo nada de carros, nem sei mesmo qual a pressão certa para os pneus do meu. Mas enfim).

De facto a ignição do carro não respondia, mas como o veículo era de mudanças manuais e estávamos numa descida, sugeri à sra que pusesse a mudança do carro em ponto morto, eu empurrava o carro, ela depois colocava a segunda mudança, o carro pegava e isso já era meio caminho andado.

Pouco depois, com a missão cumprida, sentámo-nos de novo na bancada.

Depois de alguns minutos de silêncio, ela perguntou-me: “desculpe, mas é de Moçambique?”

Fiquei a olhar para ela, dado que nunca a tinha visto e achava que nada, mas nada tinha indiciado quanto às minhas origens.

“Sim. Sou. Nascido e crescido lá. Mas como…..?”

“Eu nasci na Ilha de Moçambique e cresci na Ilha, em Nampula e em Lourenço Marques. Vim para Portugal em 1972 com o meu marido e nunca mais voltei.”

“Ah. Pois. Fantástico. Mas…o que é que a fez pensar que eu cresci em Moçambique?”

“O Sr. lá atrás disse que ia chovar o carro para ele pegar. Ninguém cá em Portugal usa o termo ‘tchovar’. Só mesmo quem vem de lá.”

“Ah”.

Nunca tal me tinha ocorrido.

E a conversa, prosseguiu daí, serenamente, com um amigável interrogatório meu, vasculhando curioso aquele passado longínquo, ainda guardado na memória da gentil senhora, ocupando aquele nosso fim de tarde de outono em Cascais, até acabar o treino dos miúdos.

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2 comentários »

  1. Tchova xita duma – empurra que vai pegar

    Gostar

    Comentar por Luis Trabulo — 09/10/2010 @ 2:38 pm

  2. he he he

    Gostar

    Comentar por ABM — 09/10/2010 @ 2:50 pm


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