THE DELAGOA BAY REVIEW

09/10/2010

REINALDO FERREIRA: POEMAS, MÚSICA E A RUA BAGAMOYO

Reinaldo Ferreira

Quando ontem acabava um texto sobre a Rua Bagamoyo (anteriormente, Araújo), a D. Suzette cantarolou uma canção que atribui ao poeta Reinaldo Ferreira. Só sabia esta parte do poema:

Rua Araújo que
o tempo entardeceu
de ti não fujo, porque
sofres como eu
Saudade eterna dos
Tempos que já lá vão
(….?)

Se alguém souber do resto, agradeço mandar para aqui.

Reinaldo Edgar Azevedo e Silva Ferreira, cuja obra tem uma ligação a com Moçambique, foi para Lourenço Marques em 1941, onde chegou a chefe de posto e fez obra no então Rádio Clube de Moçambique. Hoje está sepultado no cemitério central de Maputo, cidade onde morreu em 30 de Junho de 1959. Tinha apenas 37 anos de idade. Na sua campa estará inscrito um texto de sua autoria:

Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Numa crónica no jornal português A Capital, publicada em 24 de Junho de 2005 e citada em Sorumbático, Carlos Pinto Coelho escreveu “…..todos sabíamos de cor algum poema dele e dava-me sempre para imaginar o Reinaldo, boémio intranquilo e solitário, rabiscando aqueles versos a uma mesa do Pinguim, que era um dos cabarets de putas e marinheiros da Rua Araújo, junto ao porto. Aquela Rosie só existiu, talvez, na mente daquele homem genuinamente angustiado, para quem a vida era só interrogação, solidariedade, elegância e pouco mais.”

Quando não estava a trabalhar no Rádio Clube, entre doses de Johnnie Walker e pastéis de bacalhau, Reinaldo oscilava habitualmente entre o Café Scala e o Bar Pinguim na Rua Araújo.

Em baixo o poema Eu Rosie, supostamente (supostamente pois parece que não encontrei confirmação) referente a uma Taxi Girl da Rua Araújo, real ou imaginada, que aliás já foi aqui referido pelo nosso Senador há cerca de um ano, mas sem os detalhes “araujianos” que lhes estão associados:

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh…
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.

Mas, só para chatear, o Reinaldo escreveu um dos grandes hinos da portugalidade, imortalizada na cidade das acácias pelo Maestro Artur Fonseca e VM Sequeira:

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa co’a gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela…
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
uma existéncia singela…
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho á alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Enfim, este poema de moçambicano tem pouco, mas tem piada saber pois quase qualquer português a sabe cantar.

Mas Kanimambo, que também é dele, já tem qualquer coisa de africano, naquela versão retro-luso-treto-africana, como os portugas que tentam dançar a marrabenta.

Eu por acaso gosto de duas versões da canção, a original, sublime, cantada por João Maria Tudela, e outra, mais kitsch, cantada pelos demolidores Catita Brothers. Como é fim de semana, ficam aqui as duas.

A versão original de Kanimambo:

A versão de Kanimambo pelos fantásticos Catita Brothers:

Finalmente, ligando o som do computador do Exmo. Leitor e premindo aqui, uma excelente leitura de cinco poemas do enigmático poeta.

6 comentários »

  1. Estes Irmãos Catitas são a realidade daquele conceito que os “intelectuais” da esquerda erótica adoram, o “pós-colonialismo” …

    Comentar por jpt — 10/10/2010 @ 2:14 am

  2. Jpt

    Eu acho que eles são mais o retro-pós-descolonialismo…gosto dessa a esquerda eurótica.

    Comentar por ABM — 10/10/2010 @ 3:32 am

  3. são sinónimos, esses “retro-pós-descolonialismo” e o “pós-colonialismo” (mas zangam-se, se dissermos isso alto – da intelectual de serviço ao regime [fcg, ica, berardo, isso] ouvi aqui quando me irritei que o “pós-colonialismo” é marco de calendário … Quando vou a Lisboa e entro nas ilustres instituições até me benzo, ateu que sou, que o demónio da indigência se apossou]

    Comentar por jpt — 10/10/2010 @ 12:04 pm

  4. Independentemente dos rótulos (os meus e os dos outros) acho-os divertidos.

    Comentar por ABM — 10/10/2010 @ 5:26 pm

  5. Eu não.

    Quanto ao resto atento nos dígitos – 74 “gosto” num texto sobre Reinaldo Ferreira? Bela divulgação da obra do poeta. “Gosto” disso.

    Comentar por jpt — 11/10/2010 @ 12:55 am

  6. REINALDO FERRERA

    Grande poeta que nos marcou e marcará, todos os Moçambicanos e Portugueses com as músicas por ele escritas, e já lá” vão quarenta e dois anos quando do seu desaparecimento!…UMA PERDA BEM PRECOCE! A obra obra continuará para além dos tempos.

    Comentar por Herminia Catoja — 11/10/2010 @ 2:21 am


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