THE DELAGOA BAY REVIEW

10/10/2010

AO VIVO, DE MAPUTO, É O PROF. MARCELO !!

Mais uma Conversa em Família de Marcelo

por ABM (10 de Outubro de 2010)

Marcelo Rebelo de Sousa, filho de Baltazar, diz que gosta de estar em Maputo, que adora Moçambique, a que chama a sua segunda pátria (pois alguns saberão o que isso é), país onde o ano e tal em que o seu pai esteve como Governador-Geral entre 68 e 70 deixou memórias cor de rosa.

Pena é que a seguir a 1970 mais uma vez nada aconteceu, quase nada fez e quase nada foi feito, preparando-se assim o estágio para uma Independência atribulada e a martelo.

Estando esta noite na capital moçambicana por razões profissionais (é professor universitário e está lá a fazer qualquer coisa de académico), instalado num estúdio um tanto asfixiante da RTP, de lá fez a sua aparição semanal no noticiário da luso-espanhola Televisão Independente (aka TVI) que difunde em Portugal, pedindo um número de vezes desculpa por ter que dizer o que tinha para dizer do “estrangeiro” – para os portugueses, claro, já que ele estava na sua segunda pátria.

Como se fizesse alguma diferença.

Depois de mais uma daquelas entrevistas de crítica soft dada pelo Mia (que descreveu como “o papa das letras moçambicanas” – please) em relação ao que se passa em Maputo e arredores, e em que diplomaticamente não pegou num único ponto do que foi abordado quanto à actual situação moçambicana, Marcelo de seguida disparou quase inesperadamente para um quase demasiadamente longo e algo lancinante solilóquio sobre as próximas duas semanas políticas portuguesas, em que – avisou – se não houvesse um orçamento aprovado no parlçamento português no dia 29 de Outubro, que tal seria quase o fim da Grande Macaca em Portugal.

E fez a lista, como se a gente não soubesse já: que os credores internacionais cortariam o crédito à república e aos bancos portugueses, que o rating soberano português passaria de caca da vaca para junk de boi, e que a partir daí haveria uma governação por duodécimos, que não permitira fazer-se nada até Maio de 2011, a data mais próxima a partir da qual, constitucionalmente, poderão ser convocadas eleições parlamentares. Havendo pelo meio uma eleição presidencial, o que só adicionaria mais à confusão.

A sua conclusão era simples mas não sei se entendi bem: Marcelo, que é suposto ser um histórico do PSD, fez um daqueles apelos de “estadista” a José Sócrates para que se entendesse com Passos Coelho.

Tudo bem até aqui.

Mas a seguir usa o mesmo palanquim para dizer a Pedro Passos Coelho, o líder do seu próprio partido a última vez que olhei, que se entendesse com o PS de José Sócrates no sentido de viabilizar o orçamento para 2011, nem que para tal (mas será que entendi mesmo bem?) Pedro Passos Coelho tivesse que engolir mais uma vez uma solene e pública promessa, talvez feita irreflectidamente aos seus acólitos, de que não permitiria aumentos em impostos – em nome do interesse superior da Nação no sentido de evitar o descalabro imediato.

Se Marcelo, ao vivo e encavalitado com Mia em Maputo no estúdio da RTP, tivesse avisado Sócrates para alinhar com Passos Coelho e com o PSD, eu facilmente entenderia.

Ele é do PSD e compete-lhe realçar as falhas do PS.

Mas mandar um recado a Passos Coelho e ao PSD para alinhar com Sócrates?

Tirando o lado lúdico da questão, o que é que afinal Marcelo sabe que o resto de nós não sabe?

Numa altura que me parece de crescentes dificuldades, crescente indefinição, crescentes tensões, algumas delas ainda por cima causadas por quem está no poder há quase 15 anos seguidos e por uma dispensa constitucional que, estupidamente, não prevê um descalabro político durante quase seis meses (na verdade Cavaco pode resolver o problema em três tempos nomeando um qualquer para gerir o governo, é o que diz a constituição portuguesa), Marcelo sugere que ao líder do seu partido, o PSD, viabilize o programa do PS?

Assim só e sem mais nada?

Ao vivo, de Maputo, com Mia ao lado?

Sem mais detalhes?

Entendam-se e aprovem o orçamento?

Sugere que passemos agora a ter, efectivamente, um governo “PS-D”?

Pedro Passos Sócrates

Mas então, se é assim, se não há opções, se não há escolha, se não há consequências em relação aos princípios que os políticos são supostos defender, se é uma questão de aprovar as coisas sem reflexão do que o eleitorado transmite aos mandatados, então para quê ligar à política?

Às vezes o sistema político português parace-me mais ser aquela série televisiva americana:

Twilight Zone.

Twilight Cavaco

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11 comentários »

  1. Comentários?O texto diz tudo!

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    Comentar por António Gomes — 10/10/2010 @ 11:51 pm

  2. Honestamente, não tenho qualquer paciência. Esta converseta do Marcelo Rebelo de Sousa é, perdoa-me o futebolês, digna do Oliveira e Costa, esse arquétipo do lixo tuga em que estamos mergulhados.

    Não posso discordar mais do teu segundo parágrafo. Mas falta-me a energia para reagir contra essa “indepedência a martelo” e esse “nada se fez”. Tem a ver com a concepção dos agentes da história, do processo histórico. E vamos acabar às turras. Honestamente, como digo acima, não tenho energia para discutir tal. E se há energias politizáveis têm que ser, e falo patrioteiramente, vocacionadas para deitar para o caixote do lixo da história os marcelos rebelos de sousa. Pena, pelos vistos, que o Mia tenha ido servir de bibelot a esta tralha de merda. Porque é de merda que se está a falar. [retiro deste registo, e não deixo de lamentar a sua introdução aqui, o nosso presidente – que por muitos defeitos que possa ter tem uma característica rara. Não é um escroque desonesto]

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    Comentar por jpt — 10/10/2010 @ 11:54 pm

  3. Jpt

    O segundo parágrafo refere-se à falhada primavera marcelista, de que, acredito, Baltazar foi parte integrante e, no caso de Moçambique, ao vivo. É só.

    Sim, Cavaco é respeitável. A caricatura decalca o que creio que querem fazer dele. Mas mais do que é, é o sistema, abordado por Marcelo (de Maputo): o que ele descreveu parecia mesmo o Twilight Zone. Cavaco Silva não tem quaisquer poderes de momento para afectar o que se está a passar, a não ser com o tal etéreo “magistério da influência”.

    Neste caso, da “confluência”.

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    Comentar por ABM — 11/10/2010 @ 12:02 am

  4. Aquilo que me parece, e que ao ler os textos de Pacheco Pereira durante o fim de semana me levou a uma longínqua vontade de fazer um texto, é apenas isto: há gente no psd (pacheco pereira, até acredito que rebelo de sousa) e no resto da sociedade (até quero crer que no ps) que acha que a situação do país é gravíssima e que este governo é incapaz (e não vale a pena juntar-lhe mais juízos de valor). Mas que ao mesmo tempo não quer que o governo (incapaz) deixe de governar a situação (gravíssima).

    Eu acho que o problema ou radica na qualidade da água ou na das rações das vacas aí. Andam, evidentemente, envenenados.

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    Comentar por jpt — 11/10/2010 @ 12:43 am

  5. Jpt

    É isso mesmo. Eu fico perplexo. Isto ameaça ficar a negação do que a democracia é suposto dar aos cidadãos.

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    Comentar por ABM — 11/10/2010 @ 12:51 am

  6. “É isso mesmo” o quê? Achas que o problema está na água distribuída ou na ração das vacas? É que a demência generalizada é óbvia …

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    Comentar por jpt — 11/10/2010 @ 1:35 am

  7. É uma coisa ou outra, como referes.

    Os próximos dias vão ser interessantes. Estilo “momento da verdade” à portuguesa. Mas depois volta tudo ao reboliço até ao próximo estoiro. Já disse aqui na Casa muitas vezes: os próximos dois anos vão ser de cortar a faca.

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    Comentar por ABM — 11/10/2010 @ 1:40 am

  8. “dois anos”? isso é um sopro …
    vou aos jornais portugueses na internet e não percebo, intenções de voto mais ou menos iguais. Uma mudança radical (esperada mas radical) no país, suas condições, e a rapaziada e raparigada a tirar a cera dos ouvidos?

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    Comentar por jpt — 11/10/2010 @ 1:52 am

  9. Eu acho que as pessoas ainda não se aperceberam:

    a. O Estado faliu
    b. Vai-lhes ser puxado o tapete por debaixo dos pés
    c. Ninguém vai ajudar em coisa nenhuma

    Quando perceberem, vai ser uma confusão. O que isso significa em termos de intenções de voto não sei. Nenhum partido de entre os maiores por enquanto se está a sair bem da esgrima.

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    Comentar por ABM — 11/10/2010 @ 3:00 am

  10. […] Abaixo o ABM refere o programa televisivo de Marcelo Rebelo de Sousa (popularmente conhecido por “professor Marcelo”), desta vez realizado em Maputo e com a presença do escritor Mia Couto. […]

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    Pingback por O Sopeiro em Maputo | ma-schamba — 11/10/2010 @ 10:58 am

  11. A crise em que vivemos, é resultante da ignorância do nosso povo, (ignorância politica). O nosso povo não sabe escolher qual o partido que melhor o defende, o melhor que serve os seus interesses. Ou melhor! que tem a obrigação de o defender! porque há muito boa gente que anda a enganar! Por exemplo: quem foi que arruinou a nossa agricultura, pescas, industria, quem levou o pais para a situação em que hoje se encontra! e o povo continua a votar nos mesmos! porque? ignorância politica. Para quando começamos a ensinar nas escolas o que são as classes sociais; quais são os partidos que defendem determinadas classes; (quais são os partidos que defendem as classes mais pobres, ou as mais ricas) O que são as classes sociais? e a que classe social a que cada cidadão pertence. Isto parece-me que não é ensinado nas escolas! porque? porque isso não interessa ser ensinado, convém manter o povo na ignorância politica. Como dizia Salazar: pobres mas humildes. É para ai que caminhamos. O povo já se esqueceu do que fez o ultimo governo! porque não há consciência politica, e voltamos ao mesmo até á derrocada final. Com o passo mais ou menos acelerado, mas o caminho tem sido o mesmo, desde há trinta e tantos anos! até que apareça um novo Salazar. Parece-me que se está a repetir a história da primeira republica.
    obrigado

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    Comentar por manuel — 08/02/2013 @ 7:14 pm


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