THE DELAGOA BAY REVIEW

22/10/2010

O PAI FICCIONADO

Filed under: José Rodrigues dos Santos — ABM @ 4:04 am

O painel de uma avioneta Cherokee Six de 1966 semelhante ao do utilizado pelo pai de JRS

por ABM (22 de Outubro de 2010)

Parace que “afenal” o livro de José Rodrigues dos Santos, que tem como pano de fundo Moçambique e a guerra de nove anos que acabou em Setembro de 1974, foi inspirado no seu pai, o Dr Paz (sobre o qual fiz uma nota no dia 14 p.p.).

O pai. Onde é que eu já vi isto?

Ah, mas neste caso o pai não é electricista nem bate no preto em ambiente colonial urbanonoir, nem cultiva uma estranha relação com a filha (neste caso o filho). Parece que este é herói genuíno. Mesmo.

Mas é um romance.

Ou seja, um obra de ficção. Com base no real.

Questão: ficção baseada no real ainda é ficção. Não? Ou há ponderação (tipo “isto é 70% real e 30% ficção” ou “o pai é o pai, mas os outros gajos todos inventei”)?

Um texto da Lusa, transcrita no Diário de Notícias de Lisboa de ontem, uma espécie de teaser pré-lançamento (pois que isto de vender livros é um negócio, não uma arte, ao contrário da escrita, que é ambas) refere o seguinte:

José Rodrigues dos Santos quis escrever “um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os portugueses em África” e o resultado é “O Anjo Branco”, inspirado na história do pai.

O protagonista deste oitavo romance de Rodrigues dos Santos chama-se José Branco, um médico que foi viver para Moçambique na década de 1960 e que, perante as enormes carências sanitárias do país, criou o revolucionário Serviço Médico Aéreo, deslocando-se num pequeno avião, o que lhe valeu o epíteto de “anjo branco”, por descer do céu vestido de branco.

“Inspirei-me no meu pai: o romance conta a história de um médico que é punido pela administração colonial e enviado para Tete, um sítio perdido no coração de África conhecido por ‘o cemitério dos brancos'”, disse o autor em entrevista à Lusa.

“Sob a responsabilidade do médico fica um território em Moçambique com o tamanho de Portugal continental. E, para dificultar ainda mais as coisas, começa entretanto a guerra. Como lidar com a situação? Este foi o cenário que o meu pai enfrentou em Moçambique e é aquele que se depara diante do personagem principal de ‘O Anjo Branco'”, revelou.

O escritor e jornalista da RTP, de 46 anos, decidiu contar esta história inspirada em factos reais, que lhe exigiu “muita investigação” — teve de “conversar com imensa gente, ver muita documentação e visitar por duas vezes os locais da acção em Moçambique” –, por considerar que “estava por escrever o grande romance português sobre a Guerra Colonial”.

“Fico com a impressão de que a literatura que se produziu sobre o assunto é complexada e colorida ideologicamente, com ‘bons’ de um lado e ‘maus’ do outro, ou então é bacocamente saudosista”, defendeu.
“Eu quis fugir a esses dois registos — sublinhou -, quis escrever um romance descomplexado que mostrasse as grandezas e as misérias, e também as contradições da nossa presença em África. Quis sobretudo escrever um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os Portugueses em África”.

Hum.

A província de Tete o cemitério dos brancos? desconhecia o rótulo. Para além do bom povo que lá vivia em digna pobreza, o que é que havia lá antes da Agora Revertida, para além daquela exploraçãozinha de carvão em Moatize, do comboio e da cidadezinha com o mesmo nome?

E note o exmo. Leitor na tocante modéstia do autor, acima falando da sua obra: “quis sobretudo escrever um romance como nunca tinha sido escrito sobre a guerra colonial e os portugueses em África”.

Um romance “descomplexado”.

O que é um romance descomplexado?

Há romances complexados?

Ou é crer-se descomplexado também um complexo?

Aqui fica-se na dúvida se o “um romance como nunca tinha sido escrito” significa que é por causa da postura inovadora desestereoetipada-fora -do-rame-rame-habitual, “descomplexado” – ou se o José acha (ou alguém lhe disse) que o texto é uma coisa do outro mundo. Um potencial Pullitzer, digamos (sim, porque não creio que um júri do Camões alguma vez leve a sério a sua actual verve).

Pois também pode-se ser descomplexado e não se ter qualidade.

Aliás, tirando aquele do Ricardo Saavedra sobre o 7 de Setembro que tem uma espécie de James Bond portuga que faz os fretes ao Jorge Jardim antes da Independência enquanto dá umas valentes quecas numa bifa em Joburg que não sabia o que era viver até conhecer o português intra-lençóis, não sabia que havia assim tantos romances publicados sobre a guerra colonial e os portugueses em África, e muito menos que todos se dividiam irmãmente entre a parte dos bons e dos maus e a parte dos bacocamente saudosistas (ou entre os complexados e os descomplexados).

Provavelmente porque tendo a não ler romances.

Na verdade, frequentemente, quando leio sobre factos, parece-me que estou a ler ficção.

Mas com estes cuidados todos e do que suspeito da atitude do Zé perante a sua produção literária, desconfio que o que ele escreveu não foi bem um romance.

Suspeito que aquilo é a base de um script para vender em Hollywood. Ah, aí sim, tem que se sair da trica afro-luso-doméstica que tanto nos entretém alegremente (inclusive aqui) e passar para outro plano. O povão aí pelo mundo não sabe nem quer saber dessas coisas.

Mas este fim de semana, quando o livro fôr posto à venda, logo se verá.

Se temos aqui o tal grande romance português sobre a Guerra Colonial.

POST- SCRIPTUM

Reproduzo sem comentário e com vénia uma entrevista concedida a Leonardo Ralha, publicada no Correio da Manhã de Lisboa de 21.10.2010.

O texto:

O massacre de Wiriyamu, que marcou os últimos anos da Guerra Colonial, é descrito em ‘O Anjo Branco’, romance de José Rodrigues dos Santos que chega amanhã às livrarias. O pai do autor é o protagonista

Correio da Manhã – Estava a viver em Tete quando ocorreu o massacre de Wiriyamu, feito por tropas portuguesas, que descreve no seu novo romance ‘O Anjo Branco’?

José Rodrigues dos Santos – Sim. Tinha oito anos na altura.

– A personagem principal é inspirada no seu pai, que foi um dos primeiros a ir a Wiriyamu. Soube que ele ficou sob custódia das Forças Armadas após descrever num relatório o que viu?

– Não tive consciência de nada. A minha mãe ocultou-o, como normalmente se oculta das crianças algo tão sério.

– Nunca lhe falou disso? Quando tomou consciência do que ocorreu a poucos quilómetros da sua casa?

– Creio que a minha mãe falou uma vez sobre o tema, mas não prestei muita atenção. Depois o José Pedro Castanheira fez para o ‘Expresso’ uma série de reportagens sobre o massacre e contactou-me para saber onde estava o relatório do meu pai. Isso despertou o meu interesse.

– Ponderou fazer uma reportagem em vez de uma obra de ficção?

– Acho a ficção um instrumento muito mais poderoso para relatar histórias. Na reportagem limitamo–nos aos factos, enquanto na ficção podemos construir melhor as personagens e usar cenas para transportar o leitor para aqueles tempos.

– Mas fez investigação jornalística, procurando quem conviveu com o seu pai em Moçambique.

– Não direi que foi jornalística. Falei com testemunhas, li documentos e fui a Moçambique duas vezes para reconstituir os acontecimentos.

– O regresso a Moçambique e à cidade da sua infância correspondeu às expectativas?

– Foi fascinante. A maioria das pessoas pode facilmente visitar o sítio onde viveu na infância. Eu não. Tete fica no coração de África.

– O protagonista nem sempre resiste ao adultério. Hesitou em descrever o seu pai desta maneira?

– O amor faz parte da vida e temos de encarar tudo de uma forma natural.

– Falou com o comandante da companhia de comandos responsável pelo massacre de Wiriyamu. Como foi a conversa?

– Quis saber por que mataram eles aqueles civis. Porque é que mataram crianças? Posso entender vagamente, sem concordar, que matem um rapaz de 18 anos que suspeitam ser guerrilheiro. Mas uma criança de 5 anos ou uma mulher? Ele disse-me que era preciso estar lá com eles, naquele contexto, para perceber. Em ‘Fúria Divina’ tentei explicar o que faz com que um radical da al-Qaeda mate civis inocentes. De certo modo foi um desafio semelhante.

– Há quatro anos, teve referências nada elogiosas à parte de ‘O Códex 632′ em que uma personagem promete “fazer sopa de peixe com o leite das mamas”. Incomoda-o se isso acontecer com ‘O Anjo Branco’, que tem desde o primeiro parágrafo referências ao facto de o protagonista ter “um pénis enorme”?

– Você é que parece estar incomodado com isso. Perturba-o haver essas características genéticas na minha família?

– As suas filhas já leram os seus livros? Tratando-se da história de um avô, vai deixar que leiam este?

– Claro. Quem me dera ter familiares que tivessem escrito romances inspirados na vida de outros familiares. Aprenderia decerto muita coisa.

– Qual foi o motivo de não se incluir no livro enquanto personagem?

– Se arranjasse filhos à personagem principal, isso complicaria imenso o romance. Não quis encher ‘O Anjo Branco’ de personagens sem relevância alguma para a narrativa.

“O LIVRO DIZ O QUE SE4 PASSOU, E PONTO FINAL”

CM – Lembra-se de quando decidiu escrever ‘O Anjo Branco’?

J.R.S. – Há duas origens. A primeira foi uma conversa com uma prima, após lançar ‘A Ilha das Trevas’. “Porque não escreves uma história baseada no que aconteceu com o teu pai?”, perguntou ela. Concordei mas fui interrompendo para escrever outros livros. Faltava-me o que se passou quando o meu pai esteve na aldeia. Ele já tinha morrido, e a freira espanhola que foi com ele também.

– Como resolveu o problema?

– No ano passado, quando estava a lançar ‘Fúria Divina’, uma senhora disse que tinha conhecido bem os meus pais e pediu para falar comigo. Combinei encontrar-me com ela para uma conversa de 15 minutos. Estávamos a meio quando ela disse que foi a Wiriyamu com o meu pai. Encontrei ali a testemunha.

– Face à polémica entre ex-militares e António Lobo Antunes, após declarações deste sobre abusos das tropas durante a Guerra Colonial, está à espera de ataques?

– Tudo o que está no romance, fora a intriga ficcional, está documentado. Não vejo como se possa contestar a verdade. Lobo Antunes assumiu pouco rigor na forma como se exprimiu, dizendo que o fez “de forma completamente metafórica” e que “factos não interessam nada”. Não é o meu caso. ‘O Anjo Branco’ não é um romance metafórico: diz o que se passou, e ponto final.

“PARA MIM ESCREVER NÃO É TRABALHO”

CM – Tem lançado um romance todos os anos. Como consegue conciliar a escrita com o trabalho na RTP e a sua família?

J.R.S. – Para mim escrever não é trabalho. Há quem vá ao centro comercial nas horas livres, há quem veja filmes, há quem passeie. Eu escrevo.

– Já pensou dedicar-se exclusivamente à escrita?

– Sou feliz a fazer o que faço. Para quê mudar? Gosto do meu trabalho enquanto jornalista e não vejo motivos para eliminar essa faceta da minha vida.

PAI UTILIZAVA AVIONETA COMO AMBULÂNCIA

José Rodrigues dos Santos diz que ‘O Anjo Branco’ não é “necessariamente” um livro sobre o pai, referindo que a história do médico de Tete “é só o fio condutor” que transporta o leitor para a Guerra Colonial em Moçambique. Mas ‘José Branco’ (o autor mudou este e outros nomes) é o protagonista desde a primeira página do romance que acaba com o embaixador em Londres a inquirir a Marcello Caetano sobre se ouviu falar de Wiriyamu.

Depois de tirar o curso de Medicina, José Paz Rodrigues dos Santos rumou a Moçambique, onde se tornou director do Hospital de Tete. E foi ao reparar no número de pessoas que demoravam dias a percorrer quilómetros para ter assistência médica que começou a percorrer localidades em viagens aéreas.

Contando com o apoio das autoridades e com o financiamento da Gulbenkian, criou o Serviço Médico Aéreo de Tete. Aos comandos de um pequeno Piper Cherokee, aterrava em pistas improvisadas para dar consultas e distribuir remédios.

“O distrito de Tete, onde fundou o Serviço Médico Aéreo, tem o tamanho de Portugal Continental. Era como se ele estivesse em Coimbra e voasse para Bragança e a seguir para Vila Real de Santo António. Era uma tarefa ciclópica”, diz o autor de ‘O Anjo Branco’, que chegou a acompanhar o pai nas viagens. “Lembro-me de entrarem doentes e feridos para o avião, que era usado como ambulância. E também das paisagens.”

POST- SCRIPTUM 2

Reproduzo sem comentário e com vénia uma nota  publicada no Diário Digital de Lisboa de 22.10.2010. Isto já começa a cheirar a usar o massacre de Wiryiamu, ocorrido no fim de 1972, para promover a venda de um livro. Se calhar ainda bem, tira-se o tema a limpo.

«O Anjo Branco» divulga fotos do massacre de Wiriyamu – As fotografias do massacre de Wiriyamu, perpetrado em Moçambique por comandos portugueses em Dezembro de 1972, serão pela primeira vez divulgadas em público no sábado, dia 23 de Outubro, pelas 17h00, na Sociedade de Geografia de Lisboa, concretamente durante a cerimónia de apresentação do novo romance de José Rodrigues dos Santos, «O Anjo Branco», editado pela Gradiva.

3 comentários »

  1. ABM os teus artigos no MA SHAMBA continuam fantasticos como sempre

    Comentar por Mario Rebelo — 22/10/2010 @ 12:18 pm

  2. Cá para mim ABM eu que nunca li um livro do JRS vou-me estrear com este.

    Comentar por jpt — 22/10/2010 @ 7:53 pm

  3. ABM não te sabia tão implacável.
    Li a “Fúria Divina”, mas este livro ainda não li nem tive a oportunidade de ler nenhuma crítica, de modo que não me posso pronunciar.
    Admiro-te pelo teu espírito crítico e sobretudo por seres um especialista nestes assuntos.
    É sempre um agradável desafio seguir o teu pensamento.

    Comentar por Maria — 22/10/2010 @ 11:48 pm


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