THE DELAGOA BAY REVIEW

23/10/2010

A ESTRATÉGIA AÉREA MOÇAMBICANA

Filed under: Africa Austral, África do Sul, Economia de Moçambique — ABM @ 12:35 am

Logotipo da Airlink, uma subsidiária das Linhas Aéreas Sul Africanas

Rotas aéreas da Airlink em Outubro de 2010(fonte: sítio da Airlink)

por ABM (22 de Outubro de 2010)

Possivelmente alguns dos exmos Leitores não repararam, quando ontem a empresa sul-africana Airlink, uma companhia aérea que assegura certas rotas numa estreita aliança com a South African Airlines, anunciou que a partir de hoje manterá quatro voos semanais (às segundas, terças, quintas e sexta-feiras) ligando Tete a Joanesburgo.

Este tipo de rota resulta em boa parte da liberalização do espaço aéreo moçambicano, que tomou a forma em legislação aprovada há já algum tempo. E tem algumas vantagens, quer em termos de preço, já que em princípio abre as rotas a alguma competição, quer em termos do serviço prestado e uma maior oferta disponível para os viajantes.

Neste caso, quem vive na zona de Tete passa a ter uma ligação directa com o aeroporto de Joanesburgo, que é o grande centro de partida para um enorme leque de destinos internacionais.

E nem sequer tem que ir por Maputo, que anteriormente era a única possibilidade. No caso de um brasileiro (a Companhia do Vale do Rio Doce tem um enorme investimento em Tete), que tem que ir apanhar um vôo para o Rio de Janeiro ou São Paulo a Joanesburgo, a ida por Maputo aumenta o seu tempo de percurso várias horas, sem qualquer benefício daí decorrente.

O mesmo sucede entre Joanesburgo e as cidades da Beira e de Pemba e entre Maputo e Joanesburgo e Maputo e Durban.

À partida tudo excelente notícias para o mercado.

Mas esta evolução – aliás esperada, coloca duas questões de base para Moçambique.

A primeira é facilmente legível, bastando olhar para o mapa de rotas da Airlink: claramente, a partir de agora e cada vez mais, o centro de gravidade de Moçambique, em termos de rotas aéreas, não é a sua capital, Maputo. É uma cidade no país ao lado, Joanesburgo.

Bom para Joanesburgo, mau para Maputo.

A segunda questão é um pouco mais delicada: qual, neste contexto, é o papel reservado e o futuro esperado, para a principal companhia aérea de bandeira moçambicana, as Linhas Aéreas de Moçambique (LAM).

Durante muitos anos, a LAM, cujo capital social é detido pelo Estado moçambicano, teve os mesmos problemas que a sua congénere portuguesa: elevados índices de ineficiência, suportados por rotas em que detinha monopólios, em que se pagavam valores relativamente elevados por uma passagem aérea. Até há poucos anos, uma viagem de negócios de ida e volta entre Maputo e Tete (ou Pemba) podia ser mais cara que um bilhete de ida e volta na Tap entre Maputo e Lisboa. Sendo que a viagem de ligação a Lisboa dura 10 horas e a de ligação a Pemba dura duas horas e tal.

Isso tinha (e tem) consequências sérias. Tornando proibitivo, por exemplo, o desenvolvimento do turismo a custos moderados na orla norte da costa moçambicana, pois torna os destinos pouco competitivos se se comparar a oferta moçambicana com outros destinos concorrentes no mundo.

E isto para não falar no custo e a chatice de obter um visto para entrar no país, uma medida que a meu ver parece captar alguma receita adicional para o Estado mas que “espanta” significativamente a procura europeia e americana para estes destinos.

E, escusava de dizer, na Europa e nas Américas é que está o dinheiro.

Sendo a LAM uma empresa moçambicana, já está a ter que concorrer neste contexto. Conseguirá, sem ter que recorrer (como a TAP) aos bolsos profundos do contribuinte moçambicano? Ao que sei, a LAM tem excelentes profissionais e o papel que desempenha na economia e na coesão territorial do país é fundamental. Seria uma pena se, neste bravo novo mundo, a empresa não conseguisse ressalvar e reforçar esse papel, com a consequência de que o centro de gravidade das rotas aéreas na região cada vez mais passe a ser a cidade de Joanesburgo.

Bom para a África do Sul, mau para Moçambique.

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