THE DELAGOA BAY REVIEW

15/11/2010

A DOUTRINA LULA DA SILVA

Os brasileiros em África: a família imperial brasileira posa em frente à esfinge, Egipto, 1871.

por ABM (15 de Novembro de 2010)

A visita do presidente brasileiro a Maputo na semana passada confirma de alguma forma uma alteração significativa numa postura tradicionalmente amigável mas algo negligente do Brasil em relação à África de língua portuguesa desde as independências lusofónicas africanas em 1973-1975.

A essa alteração chamo aqui a Doutrina Lula da Silva. E a sua consistência reside na solidez do contexto em que o Brasil cada vez mais opera. Prova disso é a declaração, pelo actual embaixador brasileiro em Maputo, António Silva e Souza, de que espera a continuidade do actual relacionamento brasileiro com Moçambique durante o mandato da futura presidente, Dilma Roussef.

Esta viragem, por sua vez, reflecte um novo posicionamento do Brasil no mundo, possivelmente como uma das potências emergentes no firmamento internacional.

O surgimento do Brasil na cena internacional foi lento e turbulento, mas apoiado pela Doutrina de –então- outra potência emergente, os Estados Unidos da América. Na altura da sua independência, sob os auspícios do herdeiro do trono português, Pedro de Alcântara Bragança, em 1822, e para que não houvesse dúvidas quanto ao que se pretendia principalmente das potênciais coloniais europeias (nomeadamente Espanha e Portugal mas não só), os Estados Unidos da América postularam a Doutrina Monroe, que defendia que as Américas deveriam permanecer independentes das potências europeias. O seu filho, também Pedro, reinou em paz e sossego durante 58 anos, até que, em 1889 aconteceu lá mais ou menos o que aconteceu em Portugal em 1910. Pedro II, quase imperturbado, foi viver para perto de Eça em Paris, onde morreu num modesto hotel, enquanto que o seu ex-império embarcou numa longa sucessão de golpes, ditaduras, pronunciamentos, libertações e uma economia aos solavancos.

Apesar de África ter constituido desde sempre um vector geoestratégico importante para o Brasil, e das ligações históricas, culturais e raciais serem claras (uma parte significativa da população brasileira traça as suas origens ao continente) as relações com África foram invariavelmente tímidas, a bordejar no inexistente. Nos anos 70, as independências foram acolhidas pela ditadura brasileira com um entusiasmo reservado, e até nos anos 80, quando a linha aérea brasileira Varig mantinha uma ligação aérea a Luanda e a Maputo – característica e efusivamente apelidada de “Vôo da Amizade”- o relacionamento manteve-se dentro do estritamente irrisório.

No entanto, nos últimos vinte anos, quer por razões políticas – a democratização do sistema político brasileiro – quer por razões culturais, visível através de uma maior diversificação do tradicional eurocentrismo das elites brasileiras, mas principalmente por razões de ordem económica e comercial – a crescente afirmação do Brasil como um colosso económico, financeiro e industrial – África, em particular Angola e Moçambique, surgiu no mapa dos interesses estratégicos globais brasileiros e ganhou relevância.

Passadas estarão, ou inconsequentes serão, eventuais rivalidades com o poder colonial cessante. Aliás, Portugal e o Brasil mantêm as já tradicionais boas relações, sendo que a actual decadência portuguesa e concomitante pujança da economia brasileira, se algo, auguram um surgimento do Brasil em Portugal.

Em África, a situação é algo diferente. Enquanto um colosso financeiro, agrário, comercial, industrial e militar, o Brasil de 2010 tem muito mais a oferecer a Angola e a Moçambique em termos de investimento e de troca de bens comerciais e de matéria prima, do que Portugal, que financeiramente enfrenta agora um desafio quase histórico e que se desindustrializou quase completamente nos últimos vinte anos.

E nestas coisas da economia falar docemente e em português não chega.

Por sua parte, largamente passados estão os experimentos “socialistas” em Angola e Moçambique, cujos sistemas políticos foram, ainda que cosmeticamente, reformados, e cujas lideranças políticas buscam novas fontes de legitimação para os lugares que ocupam, agora confrontadas com uma autêntica corrida contra o tempo para desenvolverem os seus países, antes que, da actual onda arrasadora de crescimento populacional, especialmente nas cidades e suas periferias, resulte o questionar quanto ao papel que supostamente desempenham nesse processo de enriquecimento nacional. Em Angola tal ainda não é visível (sêlo-á quando José Eduardo dos Santos sair de cena) mas em Moçambique tal debate já é apreensível estes dias, ainda que sem a corporização do contraditório.

Luiz Inácio Lula da Silva

O resultado é que hoje o Brasil tem tudo a oferecer a Angola e a Moçambique que Portugal não tem, nem, pelos vistos, alguma mais vez terá, para oferecer. Quando muito, Portugal ainda mantém uma certa vocação “africanista” em termos psicológicos e de recursos humanos, que à partida o Brasil, que não tem um passado colonial (pelo contrário), não possui. E que poderia noutras circunstâncias contribuir para o desenvolvimento desses países.

Mas – quiçá herança do passado, trauma ou racismo em reverso – não existe nem é permitida emigração portuguesa para Moçambique e Angola per se, onde ser “estrangeiro” permanece um rótulo ao mesmo tempo invejado e de exclusão. Mais depressa um português emigra para a Europa, o Canadá, ou a Austrália, que para um dos países de língua portuguesa. Este é de longe o maior falhanço, o atestado de incompetência, da fala mansa da CPLP.

Mas esse não constitui qualquer obstáculo para os brasileiros, a maior parte dos quais nunca sequer lhes ocorreria ficar alguma vez a viver em África, ao contrário de muitos portugueses, que parece que se julgam africanos uma semana depois de lá aterrarem no Tap, mesmo que nunca lá tenham antes metido os pés. Se o Brasil continuar no actual percurso de crescimento económico, as Camargos Corrêas, as Odebrechts, as Vales, e muitas mais empresas brasileiras, terão eventualmente muito trabalho para fazer nestes países, que têm algo para dar em troca que o Brasil industrial pode usar. Mesmo no contexto ideologicamente algo cor de rosa, pintado pelo presidente brasileiro cessante num discurso proferido em Maputo a semana passada, de que o Brasil não vai para lá só para pescar, mas também para ensinar os locais a pescar. Toda a gente sabe que isto é muito mais facilmente dito que feito. Mas os brasileiros não têm cadastro e, com a folha limpa, tem que se lhes dar o benefício da dúvida. E para bem das partes, esperar pelo sucesso.

Não quer isso dizer que não haja os habituais precalços. Há uns anos, quando Lula da Silva instalou-se no palácio presidencial em Brasília, badalou-se imenso em Moçambique a implantação de uma fábrica de medicamentos, promovida por interesses brasileiros, a expressão concreta do desejo de um relacionamento positivo entre as duas nações e um acto desejado no mortífero combate à expansão da Sida. Mas depois, soube-se agora, durante quase sete anos, não aconteceu nada. Até que, há umas semanas atrás, imagino que quando a equipa presidencial brasileira se deslocou a Maputo para preparar a visita de Lula a Moçambique, e em que a ideia era inaugurar com pompa a tal de fábrica de medicamentos, descobriu que nada estava feito para além do edifício da tal fábrica. Que estava vazio. O que era no mínimo uma barraca e muito pouco expressivo das boas intenções anteriormente postuladas. Afinal, a ideia destas visitas também passa pela habitual assinatura de acordos e pelo cortar desta ou aquela fita. Que mais não seja para dar a ilusão de movimento. Inaugurar um edifício vazio não dava para a fotografia. O resto desta deliciosa estória, para que os exmos. Leitores não me acusem de pintar a coisa, pode ser (e deve ser) lida AQUI. O articulista – brasileiro – chamou a este o “caso da inauguração de fachada e da máquina emprestada”.

Uma nota final. O Brasil tem também a sorte, e teve o ensejo, de, nesta altura, mandar para Maputo um embaixador com características pessoais e profissionais ímpares, na pessoa de António de Silva e Souza, que tive chance de conhecer, ao contrário de qualquer dos embaixadores portugueses até esta data, que têm a virtude de conseguirem viver em Maputo invisíveis dos cidadãos portugueses e que nunca conheci. Nem sequer sabia o nome deles.

Mas ao menos os portugueses em Maputo têm estes dias uma grande cônsul, para variar.

Vale três embaixadores e custa menos que um.

E é mais bonita.

2 comentários »

  1. […] Excerpt from: A DOUTRINA LULA DA SILVA | ma-schamba […]

    Pingback por A DOUTRINA LULA DA SILVA | ma-schamba | Info Brasil — 15/11/2010 @ 10:23 am

  2. Obrigada,ABM, por este texto tão certeiro. Há uns dois anos, amigos dos meus progenitores dirigiam-se ao meu rebento da seguinte forma: “Tens de aprender chinês,Y, porque português já tu sabes e inglês dominas bastante bem”.

    Comentar por VA — 16/11/2010 @ 12:24 am


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