THE DELAGOA BAY REVIEW

16/11/2010

A MOZAL E OS FUMOS DE BELULUANE

por ABM (16 de Novembro de 2010)

Cerca das 18 horas de Maputo de hoje, recebi a lacónica nota intitulada MOZAL STATEMENT FTC’s NOVEMBER 2010 emanada pela Mozal, escrita em inglês, para variar, confirmando que amanhã, dia 17 de Novembro, a fábrica de alumínio situada a meio caminho entre Maputo e Boane, começaria a emitir os gases poluentes para a região da grande Maputo sem qualquer filtragem, durante quatro a cinco meses.

Sobre este assunto acho que já disse quase tudo o que tinha para dizer. Nomeadamente, que isto é um atentado aos direitos dos moçambicanos, que parece que o governo do dia muito lamentavelmente demitiu-se do seu dever de proteger o seu país contra estes actos de violência perpetrados de fora, e que a empresa BHP Billiton escreveu uma das páginas mais tristes do seu percurso, usando e abusando dos seus poderes para vergonhosamente enfiar o seu lixo pela goela abaixo de um governo dócil e de uma população indefesa.

Eu acredito piamente no capitalismo. Mas isto não é capitalismo. Nos tempos que correm, é lixo empresarial ao mais alto nível.

De particular e lamentável interesse, foi eu ter que ler, por mais que uma vez, as quase lancinantes defesas da indefensável argumentação apresentada pelas instâncias governamentais por nada menos que Paul Fauvet, que, usando e abusando do seu estatuto de prima donna dinosáurica da igualmente dinosáurica, governamental Agência de Informação de Moçambique, embarcou nos ataques mais infecundos a que já tive que assistir em algum tempo, dirigidos aos que legal, moral e legitimamente questionam a autorização inacreditavelmente concedida para este ataque à saúde da população de Maputo, chegando ao despautério de sugerir que os que tomavam tal posição estariam ao serviço de forças ocultas, dirigidas de fora.

Só mesmo faltava esta.

Fauvet, que percebe tanto de FTC’s como eu percebo de reactores nucleares em naves espaciais, até chegou ao ponto de tentar vir para cima de nós dar lições de aritmética fumeira, atestando a factualidade dos míticos, ocultos, mirabulantes estudos feitos a martelo por uns “especialistas” da UEM para fingir que a coisa era feita “cientificamente”. Só que se esqueceu que nem todos de entre os muito poucos que o lêem estes dias compram essa banha da cobra que só pode (só pode) ter sido encomendada.

Até faz impressão ver o Fauvet, que andou de braço no ar nos tempos com o Cardoso a clamar aquela mística “pureza” espartana do marxismo-leninismo samoriano (no fim tão pura como os fumos que a partir de amanhã discretamente passarão a ser inalados pelos inocentes cidadãos de Maputo e Matola), vir agora tentar defender o estritamente indefensável: que a BHP Billiton, o maior conglomerado industrial e químico do mundo, com fundos praticamente ilimitados, com os conhecimentos mais especializados e a obrigação de assumir a responsabilidade total pelos seus processos fabris, de entre os quais aquela fábrica inacreditavelmente situada a 14 quilómetros da baixa de Maputo, a escassos quilómetros do lago artifical a partir do qual toda a gente bebe água na grande Maputo e dentro duma área urbana com pelo menos 2, 3 milhões de pessoas, depois de quase dez anos de operação contínua, não reparou, não previu, “esqueceu-se”, que os filtros daqueles venenos que emite em Beluluane, estavam a ficar podres e precisavam de ser substituídos; que afinal “não tinha” qualquer plano de contingência que minimizasse a pulhice que agora vai fazer; que, estritamente para poupar dinheiro, acha económica e ecologicamente justificado fazer o que nunca se atreveu ou atreveria a fazer em quase qualquer outra parte do mundo, pois certamente levava com dez processos seguidos em tribunais que funcionam mesmo. E perderia. Porque afinal – coitadinhos dos pobres accionistas BHP Billitons – não se pode fechar a fábrica, pois a fornalhazinha tem que ficar acesa e a cuspir lingotes 24 horas por dia.

Não podem desligar a fornalhazinha, lamenta-se o Paul nos seus escritos. Coitadinhos.

Se isto é augúrio do que vai ser a esperada industrialização de Moçambique – conglomerados internacionais a agir desta forma, fábricas a operar desta maneira, construídas no meio de zonas urbanas, com accionistas milionários que acham que podem ganhar mais lucros nas costas duma população indefesa, com ligações intestinais às instâncias mandantes, que até as agências de informação nacionais colocam ao seu serviço – o futuro prevê-se verdadeiramente, incontornavelmente, sinistro.

Há mais que cem anos, o escritor britânico Charles Dickens avisou contra isto mesmo: contra a rapacidade daqueles que, à guisa das liberdades inerentes ao sistema capitalista, não param perante qualquer obstáculo para assegurar o retorno incremental no seu investimento.

Esquecendo-se que, a essas liberdades, correspondem responsabilidades.

E no dia em que os representantes do povo consentem nessa rapacidade, só se pode lamentar esse facto.

A Mozal anda a divertir-nos há anos com os seus comparativamente ridículos exercícios de charme a que chama eufemisticamente de “responsabilidade social”: uma casinha aqui, uma enfermeirazinha ali, um donativozinho acolá. Enquanto isso, vomita o precioso alumínio, carregado diariamente e às toneladas para o porto de Maputo, de onde desaparece, recebendo em troca montanhas de escória de alumínio que nem sequer existem em Moçambique. E isso enquanto usufrui do estatuto fiscal de uma offshore e quase a soberania de um estado dentro de um estado, maximizando os seus lucros.

Pois essa “responsabilidade social” devia incluir pagar os impostos que devia pagar e o respeito pelo país onde se situa e as pessoas que ali vivem. Tentar encantar as pessoas com migalhas e depois agir desta maneira é obviar o que parece ser o seu credo:

Que os fins justificam os meios.

22 comentários »

  1. Grande Abraço. Subscrevo. Não sabia (não recebo as tais notícias) Bem que diziam que o atraso se deveu à questão fronteiriça com o Malawi.

    Comentar por jpt — 16/11/2010 @ 9:46 pm

  2. Não terá esse jornalista já sobre o efeitos desses fumos?

    Comentar por Pedro Silveira — 16/11/2010 @ 10:38 pm

  3. Também não posso deixar de estar mais de acordo com o post. Já agora como é que posso aceder aos “escritos” do tal Fauvet?

    Comentar por FF — 17/11/2010 @ 12:10 am

  4. Jpt,

    É possível. Isso com o Malawi é outra salsada. Um bom (magnífico) artigo para contextualizar a situação é um que o António Sopa publicou há dias.

    Sr Pedro Silveira

    Só tu para me fazer rir agora.

    FF

    A última vez que vi, há umas semanas, o sítio da AIM estava bloqueado, aparentemente por falta de pagamento. Mas a AIM publica regularmente newsletters em inglês e português, que eu leio. Acima, refiro-me especificamente a duas, contendo editoriais assinados por Fauvet que estão na base do que escrevi. O primeiro saiu no início de Outubro, logo a seguir a um outro editorial em que ele ataca a IURD e que foi aqui referido. O segundo saiu uns dias depois. Não creio que estejam “online”, senão, naturalmente, teria feito uma ligação para lá.

    Comentar por ABM — 17/11/2010 @ 12:47 am

  5. Caro ABM,

    Concordando tambem vou fazendo notar: e a BHP em Mocambique e os bancos internacionais na Europa e EUA com regimes de excepcao fiscal eque tambem cospem o seu lixo para o resto da sociedade.
    Desengane-se quem pensa que o capitalismo sem freio podera alguma vez ser ser algo diferente.

    Comentar por Lowlander — 17/11/2010 @ 10:57 am

  6. […] from the Mozal Plant will go unfiltered for 4-5 months, near a metropolitan area of over 2 million. Blogger JPT at Ma-schamba blog [pt] called this “commercial trash at the highest […]

    Pingback por Global Voices in English » Mozambique: Anger at multinational pollution in Maputo — 17/11/2010 @ 3:24 pm

  7. […] from the Mozal Plant will go unfiltered for 4-5 months, near a metropolitan area of over 2 million. Blogger JPT at Ma-schamba blog [pt] called this “corporate trash at the highest […]

    Pingback por Mozambique: Anger at multinational pollution in Maputo @ Current Affairs — 17/11/2010 @ 3:59 pm

  8. Quase todos os artigos da AIM – em inglês – estão disponiveis no site de allafrica. Alguns dos artigos de Fauvet – que merecem uma leitura mais equânime – a que este post se pode referir são:
    Tell me lies about Mozal, http://allafrica.com/stories/201009301071.html, 30 de Setembro
    External Environmental Monitors Working At Mozal, http://allafrica.com/stories/201010140637.html, 13 de Outubro
    Mozal Pledges Emissions Will Not Exceed Legal Limits, http://allafrica.com/stories/201010280277.html, 27 de Outubro

    Comentar por Wim — 17/11/2010 @ 4:46 pm

  9. Wim, e espero que venhas a ler este comentário (ia fazer um post mas parece-me excessivamente abrasivo), o ABM acaba de colocar acima um conjunto de questões sobre a política comunicacional da Mozal sobre o assunto que são imensamente significantes. Eu espero que possas intervir, botar a tua opinião. Porque aqui se coloca uma questão típica de Maputo – é muito fácil conhecer (pessoalmente ou de observar) os actores. Eu também conheço Fauvet – apesar de não ser compagnon de route, e de ter uma enorme distância ideológica e intelectual diante de um marxista (comunista) anglófono [tem vários vectores, mas passam em questões africanas pela enorme mistificação racialista desse tipo de pensamento]. E essa proximidade implica sistematicamente isto, práticas e opiniões que noutros nos espantariam ali no vizinho que se senta no mesmo café ou vai ao mesmo supermercado acabam por se apagar. O que diz um velho comunista quando um gigantesco grupo económico tem esta política comunicacional numa matéria tão sensível? Dirá nada, com quase toda a certeza. Se calhar porque não pode dizer algo. Até posso compreender, humanamente.

    Mas então alguém que diga, Wim. Ou temos todos que ser “compagnons de route”? Não sou, não é o ABM. E não és tu, que és homem de falar quando é necessário. É isso, com os erros que cometemos, que é olhar que reclamas, equânime.

    Comentar por jpt — 18/11/2010 @ 7:22 am

  10. De facto isto e muito triste. Ja se foi o cnceito de desenvolvimento sutentável,
    O que nos resta é dizer não aos que não que nao representam os interesses do POVo.

    Comentar por Agostinho — 18/11/2010 @ 9:44 am

  11. Caro JPT. Li o teu comentário e decidi “botar opinião”, mas não sem alguma apreensão… Reli o “post” do ABM, mas confesso que tenho alguma dificuldade em classificá-lo como uma reflexão sobre a política comunicacional da Mozal.

    Não vejo a relevância, neste contexto, do percurso político ou da nacionalidade do Fauvet, muito menos do supermercado onde ele faz compras. O que é relevante, no entanto, é o facto dele escrever para a agência noticiosa oficial, limitando-lhe a liberdade de manobra, sem, julgo, tirar-lhe completamente a capacidade crítica.

    Os artigos da Fauvet têm o mérito de mencionar alguns aspectos a que uma parte da imprensa nacional tem dado pouca ou nenhuma importância:
    + o “bypass” permite a emissão sem filtros não de todos os fumos da fábrica, mas apenas dos da unidade de fabrico de eléctrodos,
    + existem estudos de impacto – a questão é se são objectivos e facilmente acessíveis,
    + a poluição está a ser medida – a questão é se as medições são correctas e os medidores independentes,
    + a Matola é muito poluída – mas esta poluição não pode ser imputada apenas à Mozal,
    + os níveis do poluição vão com certeza aumentar durante o período do “bypass” – a questão é se vão ultrapassar os limites considerados aceitáveis,
    + não há nenhum estudo, até agora, que mostra que o aumento de poluição terá efeitos nocivos sobre a saúde da população (mais do que a poluição já existente).

    Na minha opinião devia ser possível fazer estas constatações sem ser acusado de não defender o meio ambiente ou de ser comprado pelo Governo ou pela Mozal.
    O que não ajuda é a forma como a imprensa “alternativa” (de facto, toda a imprensa excluindo a “oficial”) tem abordado o assunto, especulando mais do que investigando. Nesta semana em que faz dez anos que mataram Carlos Cardoso, não posso deixar de me perguntar o que ele teria escrito sobre este tema.

    Não partilho a tua teoria da claustrofobia da crítica em Maputo. Não é a minha intenção defender amigos. Reservo-me o direito de discordar até daqueles que tomam café comigo.

    Abraço a causa da consolidação do movimento ambientalista moçambicano, assim como a do crescimento da imprensa crítica, mas não estou convencido que o actual “debate” promova uma ou outra.

    Comentar por Wim — 18/11/2010 @ 5:04 pm

  12. 1. Vamos não distorcer as coisas. Eu posso aqui escrever em registo académico ou em registo coloquial. É blog faço-o coloquialmente, em particular nos comentários. Mas isso não implica menor cuidado: a) eu nunca me referi à nacionalidade de Paul Fauvet [e isso é importante], nem é questão que eu questione ou que considere relevante para a matéria; b) eu referi a sua ascendência ideológica e o seu presente ideológico. E isso é importante neste sentido: o contexto de elaboração, intelectual e sociológico, é importante no que se escreve, como se escreve quando se escreve. E não me parece normal reduzir isso a uma ofensa ou apoucamento de quem escreve: é o seu contexto, todos o temos, e o(s) nosso(s) discursos neles e deles brotam. Fui isso que referi. c) repito, escrevi coloquialmente: é óbvio que me parece, de há muitos anos a esta parte, que a crítica/análise dos discursos (jornalisticos, artisticos, literarios, económicos, outros) em Maputo são cruzados pela grande proximidade geográfica e convivencial que existe na burguesia maputense. Portanto a alusão “ao supermercado comum” não me parece assim tão descabida, nem tem subjacente nada de pecaminoso.

    Vamos ao sumo: já disse aqui (os textos têm “categorias” que encimam cada texto e portanto outros sobre a mesma matéria são facilmente consultáveis) que há textos científicos que sublinham a não perigosidade do assunto. Já disse que os meus colegas da UEM o dizem. Já disse que neles quero crer. Mas que tenho “medo” (mentalidade pré-científica?) que não seja assim. Como também já afirmei uma hipótese contra-factual (aquilo que na realidade de nada serve): não acredito que isto se passasse em JHB Toquio ou Berlim, mesmo que não seja poluente. MEsmo que fosse só por causa do bem-estar psicológico da população. E nisso sim se coloca a questão da elisão informativa que a Mozal promoveu neste ponto, e a qual ABM refere. E a prática informativa é o cerne da prática e política de cidadania democrática. Refiro que a emissão estava para começar num determinado dia, depois houve um comunicado na véspera a dizer que não iria começar, depois houve outro a dizer que não era verdade, que iria (contradição que me parece não ter sido explorada pela imprensa) Finalmente foi adiado. Agora começa, e a comunicação é divulgada assim. É estranho, é algo obstaculizador de uma informação generalizada.

    O resto tem a ver com a porrada que o ABM decide dar no Fauvet, e isso não é o meu argumento. É o dele. Acho bem, são adultos, ambos têm o nome deles. Eu irrito-me mais com os textos racistas que publicam, sobre mim ou outros. Mas a tal claustrofobia crítica existe: pode o Savana publicar um texto a apelar À expulsão dos moçambicanos brancos para a terra deles e ninguém liga. (e tantos deles que continuam a escrever lá) E se eu me insurjo contra o facto do editor dessa pasquinada racista se querer sentar à minha mesa dizem-me que eu, jpt, tenho mau feitio. Posso olhar à volta a ver quem escreve sobre os críticos culturais actuais que publicam, agora mesmo, textos racistas e xenófobos e esperar por quem diga algo, pública ou privadamente. Nada. Tu, Wim, não te coíbes de criticar? Isso sim, a gente sabe. Mas és árvore, não és pomar.

    Enfim, só espero é que o Fauvet tenha razão e o ABM esteja completamente enganado.

    [eu e Roxo Leão no facebook estivemos a falar sobre o assunto e eu inventei a 2M Alluminum vs a Manica Golden Mercury. Agora não tem piada, mas no diálogo desse dia até me ri. Antes isso]

    Comentar por jpt — 18/11/2010 @ 7:11 pm

  13. Quanto à nacionalidade, tens razão: confundi “anglófono” com “inglês”, desculpa. Mas continuo a não entender as relações causais que estabeleces entre o percurso político do Fauvet e as suas posições actuais. De um antigo comunista não deveríamos esperar tudo menos servilismo em relação ao capital multi-nacional? Ou referes-te à sua inesgotável fé nas boas intenções do actual governo?

    Não vou discutir o que tu escreveste ou não escreveste sobre a questão do “bypass” porque esta nunca foi a minha intenção – a minha intenção foi dar aos leitores acesso aos textos originais, convidando-os a lê-los com uma mente aberta.

    Um abraço

    Comentar por Wim — 20/11/2010 @ 6:49 pm

  14. 1. Não quero elaborar muito sobre a ideologia de Fauvet. Eu dei-lhe uma importância em comentário anterior que se prende com dois pontos: a) que tu explicitas aqui, a perenidade de uma relação identitária com o poder actual, ainda que este nada tenha a ver em termos ideológicos com aquele que Fauvet terá conhecido in illo tempore. É uma dimensão identitária, que não lhe é particular mas que podemos encontrar em muitas pessoas daquela geração, e não só em Moçambique; 2) um fervoroso industrialismo, e um menosprezo por questões ecológicas, que é típico do comunismo (arvorando um sorriso até se pode dizer que desde a frase “a electrificação e os sovietes”), e foi-o nos anos 60-70 ocidentais em que as questões ecológicas eram “desvios de direita” da burguesia, segundo a lógica m-l (estalinista). Aspecto ideológico neste caso, acho.

    A intenção é divulgar os textos de Fauvet e ainda bem. Estão aí. A minha também não foi regressar aos meus breves apontamentos. E finalmente parece-me óbvio que o texto de ABM é sobre a política comunicacional da Mozal. E que isso é um ponto central.

    Até breve

    Comentar por jpt — 20/11/2010 @ 11:00 pm

  15. Conheço muito bem o relacionamento pouco confortável entre comunistas e verdes, mas como explicação das posições de Fauvet em relação à Mozal parece-me muito forçado. Quer me parecer – mas talvez esteja a projectar nele as minhas próprias preocupações – que Fauvet se irrita muito mais com a falta de racionalidade nas posições de alguns ambientalistas e de muitos jornalistas.

    Lembras-te quando Fauvet criticou a Alice Mabota por ter dito que a Mozal obrigava os operários a trabalharem numa temperatura de mil graus Celsius? (Mabota, em vez de reconhecer o seu erro, mandou o jornalista estrangeiro, barbudo e mal vestido, de volta à sua terra…)

    A questão-Mozal tem muitas facetas, entre as quais a política, a jurídica (o Tribunal Administrativo ainda não se pronunciou) e a da política de informação da Mozal, todas importantes. Mas a mais central de todas parece-me ser esta: a Mozal está ou não a pôr em perigo a saúde da população circunvizinha? E para responder esta questão basta uma única coisa: a medição dos níveis de poluição por uma entidade independente. O resto são cantigas.

    Comentar por Wim — 21/11/2010 @ 1:17 am

  16. Caro Sr Lowlander

    O seu comentário é correcto, da minha óptica.

    Sr Wim

    Assisti calado ao seu rol de comentários, todos mais ou menos elegantemente pertinentes – excepto o último. Apesar desta semana ter ido um ministro fazer um elogio desgarrado ao estado da imprensa moçambicana, por si só um acto suspeito na medida em que ocorre em simultâneo com a expressão de reservas por parte de outras entidades mais independentes quanto à aferição desse alegado feliz estado de graça, o facto é que não assisti até agora a uma análise equilibrada do que se está a passar quanto ao que a BHP Billiton está a fazer em Maputo. Nesse sentido, um seu comentário quanto à cobertura dada está correcto. Poucos fizeram o trabalho de casa em relação ao assunto, especialmente num contexto em que claramente há os que querem enfiar tudo já debaixo do tapete, especialmente no rescaldo de problemas sociais recentes, e há os que pintam o caos, essencialmente sem consubstanciar do que falam.

    Ao considerar o aspecto da poluição e das suas consequências a médio-longo prazo, há infelizmente que descontar o efeito contabilístico da fábrica da Mozal nas exportações moçambicanas e ainda a parceria com o Estado moçambicano.

    Há que ver a informação disponível sobre o tema fundições de alumínio e os impactos do seu funcionamento.

    A maior parte da informação sobre este tópico existe na internet e em inglês. Não me surpreende, assim, que, não havendo grupos ambientalistas com o dinheiro ou o conjunto de valências que permitam, como acontece na maior parte do mundo industrializado, para fiscalizar e analisar e criticar se necessário as acções destas empresas, que, em Moçambique, tais comportamentos fiquem longe do que já se vê noutros países.

    E acredite que a BHP Billiton, do que tenho assistido, toma total partido deste contexto.

    Acho que tudo isto é por demais evidente e já disse muito do que tinha a referir sobre o tópico.

    O que me faz escrever esta nota é o seu último comentário. O que de que a única coisa que interessava agora eram as medições da poluição em redor da fundição em Beluluane.

    Deixe-me aqui fazer uma analogia. Imagine que o governo de Moçambique autorizava a construção de uma central nuclear para a produção de energia em frente a Maputo na Catembe (a agora revisionada Ka-Tembe). Com todas as seguranças e esquemas e modernices de protecção. Mas que, dez anos depois, alguém no governo recebia um telefonema a dizer que havia um problemazito com uns filtros quaisquer cuja resolução implicaria a libertação de certos montantes de radiação para o ar continuamente durante seis meses. Problema esse que era mais do que perfeitamente antecipável, especialmente vindo de construtores que não sabiam fazer mais nada do que construir e operar reactores nucleares, e todo o mundo sabendo que a emissão de poluentes radioactivos para o ar, mesmo em pequenas quantidades, poderiam ter impactos consideráveis ainda que imprevisíveis, nas pessoas, plantas e terrenos adjacentes. E ainda que essas emissões, perfeitamente evitáveis se alguém dentro da empresa e na área de fiscalização ambiental do governo tivesse feito o seu trabalho de casa em vez de estar a dormir ou a agir com a maior das displicências, se iriam prolongar por seis meses.

    Nessas circunstâncias, diria que, aceitaria que, o argumento defensável, seria o seu, nomeadamente que o que interessava na realidade era, não o tópico geral da impertinência da ocorrência de tudo isto, mas se as medições da radioactividade, efectuadas durante o período de descargas radioactivas não controladas, confirmava que as populações e o meio ambiente em redor do reactor, não corriam perigo?

    É isto que está a dizer?

    Isto é que é para si um comportamento aceitável por parte das empresas poluentes e por parte de um governo?

    Deixe-me explicar de onde venho com esta questão. A mera existência e operação, em supostamente perfeitas condições de funcionamento, de uma fundição de alumínio como a Mozal em Beluluane, são já à partida um potencial, eminente perigo de poluição ambiente e uma ameaça à saúde pública. Estude a literatura e os precedentes sobre o assunto – que na África do Sul e em quase todos os mercados onde a BHP Billiton opera estão todos carecas de conhecer – e isso se lhe tornará por demais evidente.

    Mas não é disso que estamos aqui a falar. Por admissão expressa da empresa, depois de dez anos de operação, “descobriu” que os filtros no seu sistema de captação de fumos tóxicos resultantes da operação de fundição, estavam a ser rapidamente destruídos pelos efeitos corrosivos principalmente do SO2. E em vez de corrigirem o problema atempadamente, fizeram as contas e optaram por uma acção que implica que os mesmíssimos químicos que estão a destruir os filtros, sejam ventilados livremente para a atmosfera em redor de Maputo, durante seis meses seguidos, enquanto procediam a uma reparação estimada nuns meros dez milhões de dólares (isto contra um investimento global de 1500 milhões de dólares, segundo me recordo, e dez anos de lucros tax-free).

    Ora, neste caso, a fundição de alumínio da BHP Billiton, que à partida já é um potencial e eminente perigo público, que deve ser monitorizada permanentemente, mas que a seguir admite um erro de proporções quase épicas, em vez de levar com uma multa de 100 milhões de dólares e ser obrigada a assumir na totalidade o ónus pelo potencial dano ecológico e em relação à saúde pública, em vez disso pede, e recebe, amigavelmente, uma autorização governamental para, calmamente, durante seis meses, emitir livremente os poluentes para os céus sobre Maputo, enquanto faz a obra de reparação pelo barato.

    É isso que está a dizer?

    Já agora: se daqui a dez anos voltar a acontecer tudo outra vez (pois que não havendo admissão de erro cometido, é de todo plausível) dá-se outra vez a autorização?

    Ou já agora: se por acaso as medições dos poluentes acusarem algum perigo, fecha-se a fundição? mas sabe quem é que contratou a SGS e a quem ela reporta os dados? acha que é a SGS que decide estas coisas? acha que, no ambiente algo acirrado em redor do assunto, que a tentação imediata não é mais uma vez enfiar tudo de novo debaixo do tapete?

    Acha realmente que, no que o Fauvet escreveu sobre o assunto, se nota alguma imparcialidade contrastante com as preocupações expressas por outros órgãos de imprensa ou a informação plena sobre este tópico?

    Pois é livre de o fazer.

    Mas -sabe – quando eu era miúdo, eu também acreditava que a Branca de Neve era pura e virgem e que só brincava com os Sete Anões.

    Desde então, vim aprendendo outras coisas.

    Comentar por ABM — 21/11/2010 @ 3:15 am

  17. Wim, a ideia que tenho de um blog (e que persigo) é a de que é uma mesa de café, uma tertúlia (democrática, sem mais-velhos ou autoritarismos estatutários). E em assim sendo saudavelmente desorganizada, as conversas vão fluindo. Às vezes vale a pena ir lá atrás e ver o que estamos a discutir. Tu deixaste aqui algumas ligações a textos de Fauvet e criticaste a abordagem do ABM aos textos (apelaste a uma “leitura equânime”, é um apelo com crítica implícita). E eu (comentário 9) respondi qualquer coisa como: a) bem-vindas as ligações; b) o sumo do texto é a crítica à política comunicacional da Mozal (em meu entender um desvio a uma cidadania democrática, independentemente do grau poluente); c) um convite a que tu interviesses, até porque em Maputo as pessoas não se criticam (ou elidem as críticas directas) devido ao conhecimento mútuo. E dessa proximidade (sociológica, convivencial, afectivamente inibidora da crítica) dei como exemplo o meu relativo conhecimento de Fauvet, apesar da nossa distinção ideológica e sociológica (que não é nada demais, tenho militantes comunistas na família mais chegada), o que também em mim implica algum desconforto com a crítica pública. Este é o historial, e palavra puxa palavra, já estamos a discutir as relações entre o movimento comunista internacional e mundo da ecologia. Deslizámos. Eu nunca disse que Fauvet diz o que diz sobre a Mozal por ser comunista (na conversa posterior refiro a ligação entre industrialismo e comunismo, mas isto ja não tem a ver com a conversa inicial). O que disse e digo é que as pessoas acabam por se conhecer tanto que evitam criticar-se directamente.

    O ABM coloca a questão de modo diferente e ele que fale por si próprio, mas acho que na nossa abordagem já levantámos alguns pontos. O que interessa é mesmo a medição. Eu permito-me desconfiar das medições quando estamos diante de interesses como esta macromultiempresa. Mas quero acreditar na idoneidade, em particular dos colegas da universidade. Mas o que o ABM levanta, tanto em relação ao impacto ambiental para além do imediato, como em relação às possibilidades de tratamento atempado desta questão, não são especulativas (como tu dizes sobre o tratamento que a imprensa “independente” tem dado à questão). Eu insisto naquilo que já referi atrás, muito provavelmente este tipo de acção (mesmo que efectivamente não seja basto poluente) não seria realizado nas capitais dos países industrializados onde há: opinião pública muito informada, movimentos ecologistas vigorosos (a rábula do plágio que a ong justiça ambiental fez deste texto significa nada menos do que a sua inexistência) ou pelo menos uma sensibilidade disseminada, e governos que não estão prisioneiros de dois ou três macro-investimentos estrangeiros (como neste caso me parece ser a realidade).

    Paralelamente [é outra conversa], levantas a boa questão de terem mandado Fauvet para a sua terra, como “estrangeiro” (que eu saiba Fauvet é moçambicano). Isso é um argumento típico aqui, volta e meia surge. E as pessoas calam-no. E eu também, aqui deixei um largo parágrafo sobre o assunto mas “editei” o comentário e cortei-o. Na prática para quê publicar um texto onde só se poderá descortinar um enorme desprezo por aqueles que escrevem em jornais que publicam textos racistas? Não vale a pena, Wim, amanhã é domingo e encontrarei, com toda a certeza, na rua um qualquer articulista do savana ou do zambeze. Onde são publicados textos xenófobos e racistas, com a cumplicidade (e acordo?) dos que lá escrevem. E a gente acaba a apertar a mão com eles, a mesma mão com que estou aqui a teclar. Um poço de contradições

    A conversa vai longa e aparentemente longe da Mozal. Mas quando se começa a falar da poluição o assunto ramifica. E em cruzando-o com o racismo publicado …

    Comentar por jpt — 21/11/2010 @ 3:24 am

  18. Não Sr. ABM, não é isso que estou a dizer. E a sua reacção justifica a apreensão com que aceitei o desafio do JPT e entrei nesta discussão.
    Nunca defendi a construção de uma fundição de alumínio praticamente no meio duma zona residencial, nunca defendi a operação de um “bypass”. Nunca disse que fundições de alumínio são uma bênção para o meio-ambiente, nunca disse que a Mozal nesta história é uma pobre inocente e nem defendi quem dissesse ou escrevesse isso. Também nunca disse que as dimensões política, jurídica, comunicacional etc. não fossem importantes.
    O que quis dizer é que, uma vez que a fábrica está onde está e a operação do “bypass” foi autorizada e já iniciou, a questão central agora é medir o seu efeito. E não estava a referir-me à SGS, mas a medições independentes dos efeitos – a curto e a longo prazo. E, concordo consigo, não só agora, mas permanentemente. Porque todas as outras dimensões agora de certa forma dependem desta – sem dados concretos todo o resto fica no ar… (mmm, esta imagem não é lá muito feliz).
    O movimento ambientalista – que existe e não deixou de existir por se ter enganado no autor da peça da sua autoria – faz bem em organizar abaixo-assinados, em levar o assunto à Assembleia e ao Tribunal Administrativo, em queixar-se na Bolsa de Valores de Joanesburgo (e podia fazer muito mais ainda) mas devia, na minha opinião, concentrar-se agora na medição da poluição. E se não o faz por falta de dinheiro, que organize uma campanha (internacional) para obter os apoios necessários.
    E sim, quando se constata que os níveis de poluição estão acima do aceitável, é preciso fazer todo o possível para parar a poluição, recorrendo a todos os meios; será mais fácil mobilizar a opinião pública com base em dados concretos – o que não quer dizer que acredite em “vitórias fáceis”.
    E se os níveis de poluição estão abaixo do aceitável, ficaremos todos aliviados, mas não de braços cruzados. É preciso pressionar o Governo a obter “garantias” da Mozal que isto não se repita; é preciso garantir a monitoria permanente e independente da poluição industrial – não apenas da Mozal, é preciso exigir do Governo planos de combate à poluição na sua totalidade e no país inteiro (e sim, isto também significa começar a pensar em como combater a poluição causada pelo trânsito e pela agricultura).

    A próxima vez que vocês me convidam para um “café” vou pensar duas vezes!
    Um abraço.

    Comentar por Wim — 21/11/2010 @ 5:32 pm

  19. Sr Wim

    Obrigado, uma resposta que entendo e que tomo como sensata dentro das circunstância.

    Mas para que fique claro: esta parte do “vocês” não te convidou para café nenhum, se bem que agradeça a tua participação. Mas não faço a mínima ideia quem sejas, apenas alimento a vaga suspeita de que não és nem ministro nem figura grata de regime… umbanine.

    Comentar por ABM — 21/11/2010 @ 6:05 pm

  20. Wim, acho bem que penses bem em tomar um café seja com quem for. Eu aqui sou irredutível, e vou pegar no que dizes, porque me parece que a vontade de criticar se sobrepõe ao criticável. Hã uma ong em maputo que recolhe dividendos (se económicos, se simbólicos, se afectivos, se políticos, não interessa) da sua militância ecológica. Essa ong faz uma má exposição e divulga o seu sítio informático (inexistente). Esse ong aproveita a onda existente e cria duas páginas no sacrossanto facebook. Essa ong, no momento das questões ambientais como esta que aqui discutimos e as da navegabilidade do zambeze, não diz algo nas suas páginas públicas. E de repente publica um texto sem o ler, que “recebeu via email” – publica sem o ler, repito ninguém letrado em Maputo imagina o Fernando Lima a escrever sobre o Fauvet o que o ABM aqui meteu. Digo, sem paternalismos, estes tipos (já) não existem [não pensam, não lêem, não escrevem, não opinam, não reflectem] E tu vens com a desconversa que o movimento ambientalista não acabou?

    Isto é deturpar, e radicalmente, o que os outros dizem. Assim não vale. Não vale a pena. E não cola com a imagem do Wim. O que eu aqui escrevi (e já tinha escrito há meses atrás) foi que a tal de “Justiça Ambiental” não existe. Não vamos confundir coisas. Nem vamos ser paternalistas.

    Esse infecto e racista paternalismo que faz com que tantos dos conhecidos mútuos achem piada ao racista Savana, e até nele escrevam. O ao Zambeze.

    Repito, é melhor pensar duas vezes antes de beber café. Porque há o rame-rame. E há o ir ao fundo. E no ir ao fundo não vale torcer as palavras alheias. Pelo menos não vale torcer as minhas palavras.

    Comentar por jpt — 21/11/2010 @ 7:42 pm

  21. JPT, estou ficando cansado disso! Tens todo o direito de criticar a Justiça Ambiental e concordo com boa parte das tuas críticas; o silêncio da JA neste momento crucial é muito preocupante. No entanto, quer queiras quer não, no movimento ambientalista moçambicano emergente, a JA é incontornável.
    Se sentes que deturpei a tuas palavras, aceita as minhas desculpas, que isto não passa de um mal-entendido.
    Se o movimento ambiental existe, com ou sem a JA, o futuro próximo o dirá. Eu cá prefiro acreditar que existe!

    Comentar por Wim — 21/11/2010 @ 10:34 pm

  22. Eu ontem vi que os srs da JA têm uma página no Facebook. De resto não sei mais nada, para além de que poucas entidades têm vindo a campo em relação a este e outras situações no panorama moçambicano.

    Comentar por ABM — 22/11/2010 @ 1:48 am


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