THE DELAGOA BAY REVIEW

18/11/2010

VERSALHES, A SDN E A POLÍTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

Filed under: História, História Moçambique, Nuno Canas Mendes — ABM @ 5:46 am

Ao consagrar e institucionalizar os nacionalismos em Versailles, e na sua corporização na Sociedade das Nações,o presidente norte-americano Woodrow Wilson teve um enorme impacto no que veio a acontecer em África e no mundo nas décadas seguintes.

por ABM (18 de Novembro de 2010)

A Sociedade de Geografia de Lisboa tem vindo a levar a cabo um interessante ciclo de conferências sob o tema  A República e o Ultramar Português: 1910-1926.

Ontem ao fim da tarde, foi a vez do prof. Doutor Nuno Canas Mendes, docente do ISCSP (que integra a Universidade Técnica de Lisboa) e considerado um especialista em Timor, se deslocar à sede da SGL, junto das portas de Santo Antão, para fazer uma conferência dedicada ao tema – muito relevante para quem quer saber mais sobre o que foi isto dos portugueses em África – “O Tratado de Versalhes, a Sociedade das Nações e os Reflexos sobre a Política Ultramarina Portuguesa”.

Que fui ouvir, em parte porque o tema interessava-me, mas também porque o conheci em Moçambique há uns anos e estou familiarizado com algum do seu trabalho.

Tirando o facto que a sogra passou a sessão toda a tentar telefonar-me para o cel para se queixar que a gata tinha fugido de casa (eu sabia mas pus o aparelho em silêncio) a palestra foi imensamente interessante e generosamente breve. No fim, aproveitei para pedir ao Prof. Nuno se me facultava uma cópia do texto que lera para colocar algures aqui na Casa para o eventual Maschambiano interessado.

Acredito que este tema é de interesse eminente para os estudiosos do assunto em Moçambique e nos restantes países que fizeram parte desse “império” português.

Vou aqui tentar fazer um vôo rasante do que ele referiu.

No fim do século XIX, Portugal estava, como já vem sendo costume nos últimos 400 anos, completamente nas lonas, mas tinha, milagrosamente, conseguido reservar para si uns territórios por aqui e por ali, dois dos quais eram Angola e Moçambique. Que eram constantes alvos da cobiça de tudo e todos, especialmente os ingleses, os franceses e os alemães. Por duas vezes antes da Grande Guerra de 1914-1918 os alemães e os ingleses prepararam acordos para retirar as colónias aos portugueses, para não falar das sacanices dos alemães e dos belgas (não sei se Olivença e os Hespanholes também se incluem aqui) mas a guerra tornou todo esse paradigma obsoleto.

Com o final da guerra, os Estados Unidos, que haviam apressado a sua conclusão, ajudando a derrotar o império germânico, assumem muito brevemente a liderança em assuntos internacionais, pela mão de Woodrow Wilson, então presidente dos Estados Unidos (é senhor da fotografia lá em cima) que, no contexto do fim da guerra e de uma conferência nos arredores de Paris para decidir o que fazer a seguir e extorquir indemnizações dos alemães, havia apresentado no início de 1918 uma lista de 14 pontos estruturantes como base para discussão posterior.

Nesses 14 pontos estavam incluídos conceitos então revolucionários, como o da formação de um organização como Nações Unidas, e a referência específica ao direito dos povos à sua auto-determinação. Em 1920, já com Wilson e os EUA fora de cena mais uma vez, formou-se a Sociedade das Nações, cuja sede foi construída nos arredores de Genebra, na Suíça.

Pela primeira vez na história moderna, os estatutos da Sociedade das Nações também faziam prever, ainda que tenuamente, as independências, ao pressupor o desmantelamento dos impérios colonais então existentes, através do mecanismo dos mandatos.

E, não menos importante, com o estabelecimento do princípio do reporte a si de informações numa variedade de matérias.

Basicamente, os portugueses, na altura liderados quase insolitamente pelo então mais do que odiado, o republicano revolucionário Afonso Costa, então mais ou menos caído na desgraça após levar um pontapé de Sidónio, e que na altura já vivia em Paris em confortável permanência, foram a reboque dos eventos, sempre à cuca para que os interesses portugueses – que se resumiam a agarrarem-se de unhas e dentes aos territórios herdados dos “egrégios” – fossem preservados.

E o Dr Nuno deu os principais detalhes do que foi esse envolvimento português em Versalhes, e com a Sociedade das Nações.

Exemplos:

1. Conseguiram sacar das barbas dos ingleses a devolução de um sítio chamado Quoinga, no extremo norte de Moçambique, que diziam que os alemães lhes tinham roubado antes. Hoje, Quionga faz parte de Moçambique;

2. Levaram com o General Boer Jan Smuts em cima mais uma vezes pois ele queria como de costume roubar Lourenço Marques e o Sul de Moçambique aos portugueses, para integrar a África do Sul, onde ele mandava (até 1924). Smuts nunca o conseguiria;

3. Tiveram que lidar com as repetidas acusações de que se praticava a escravatura e o trabalho forçado nas suas colónias, na minha opinião, tudo inteiramente verdade, mas sabem como são estes diplomatas: mentem com todos os dentes que têm e mais algum. Os portugueses lá se torceram todos e depois de muita esgrima lá mudaram os códigos, criaram montes de legislação, reclassificaram as coisas e no fim disseram que já estava tudo bem, culminando com o Acto Colonial de Salazar, que foi aprovado no dia 8 de Julho de 1930. Mas o exmo. Leitor sabe bem o que é que isso tudo queria dizer: quase népia. Só nos anos 60 é que se viu alguma coisa mais substantiva a acontecer em Moçambique, por exemplo.

4. Os outros assuntos que ocuparam os diplomatas portugueses na Sociedade das Nações foram o tratamento de mulheres (mais uma vez no contexto do trabalho forçado/escravatura) e o tráfico de ópio, que incomodava alguns países e em que Portugal era alvo de considerações pois havia muito negócio de ópio em Macau, oficial e oficiosamente, Na altura, cerca de um terço das receitas fiscais do enclave derivavam de impostos sobre o comércio de ópio, que parece que era muito apreciado pelos chineses para apanharem valentes pedradas.

Isto é o meu resumo. A apresentação do Dr Nuno é incomparavelmente mais erudita e não tem os mesmos comentários desportivos.

Nuno Canas Mendes à esquerda, ao lado dele o Prof. Óscar Barata, coagidos para posarem para esta fotografia.

De entre a vasta audiência, identifiquei muitos alunos, uns professores, umas velhotas simpáticas, uns oficiais reformados e a habitual brigada do reumático da SGL.

A próxima sessão, e creio a última deste ciclo de conferências, ocorre no dia 14 de Dezembro na sede da SGL, quando o Prof. Óscar Barata, que é um perito dos assuntos da Ásia portuguesa, entre outros, vai fazer uma palestra sob o tema “A evolução política na região Ásia-Pacífico e os interesses portugueses”.

O Prof. Óscar Barata esteve presente na sessão, em representação da SGL.

Se o exmo. Leitor tiver estas inclinações, vá ver. É cultura, é de borla e a salinha lá na Sociedade de Geografia até tem aquecimento – que funciona.

2 comentários »

  1. é interessante o 1º vol. de “O Século”, de Ken Follett, que aborda a criação da SdN

    Comentar por cg — 19/11/2010 @ 2:08 pm

  2. […] de exmos Leitores do Maschamba que não podem esperar para saber mais sobre o assunto do que o meu resumo de há três dias, e ainda nos estudiosos e académicos em Moçambique, Angola e arredores, que ouvem falar nestas […]

    Pingback por PRIMEIRA EDIÇÃO MUNDIAL: NUNO CANAS MENDES ANALISA PORTUGAL E AS COLÓNIAS NA SOCIEDADE DAS NAÇÕES | ma-schamba — 20/11/2010 @ 3:45 am


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

site na WordPress.com.

%d bloggers like this: