THE DELAGOA BAY REVIEW

25/11/2010

A GREVE GERAL EM PORTUGAL

Esperei até agora para tentar perceber o que se passou em Portugal hoje.

E o que concluo é que se passou muito pouco.

Eu explico porquê.

Aparentemente, cerca de dois terços dos funcionários públicos portugueses, e menos que dez por cento de quem trabalha no sector privado, fez greve hoje para – supostamente – protestar contra as medidas relativamente severas, ou pelo menos inéditas, que vão ser adoptadas pelo governo a partir de Janeiro de 2011.

Medidas como cortes salariais, mais impostos directos, mais impostos indirectos, menos direitos. maior precaridade (menos no sector público, isto é).

Mas, na prática, o dia decorreu muito como uma espécie de feriado nacional. Quando muito, mais sorumbático.

Na imprensa escrita e pelas televisões, desde as sete horas da manhã, os jornalistas percorreram empresas e serviços públicos a ver quem estava ou não aberto. Uns estavam, outros não, o que não dava por si só margem para se fazer uma ilacção. Os líderes sindicais fizeram o seu melhor para pintar a imagem de um glorioso protesto. Mas não convenceram. Pelo menos, não me convenceram.

O que me chocou foi a mais do que aparente falta de entusiasmo, onde quer que se olhasse. Pelo contrário, o “protesto”, se é que tanto, soube mais a conformidade e desalento pela situação actual, que raiva ou indignação.

Ao fim da tarde, o governo, na pessoa da sua ministra do Trabalho, limitou-se a descontar os efeitos da greve, práticos e políticos. A meu ver um erro, pois podia-se limitar a reconhecer a existência de um sentimento geral de descontentamento.

Mas foi o que fez.

Ao fim do dia, os comentaristas da praça ruminaram pouco sobre o assunto, talvez porque havia pouco sobre o qual ruminar. Aliás, durante todo o dia, os noticiários indicavam que as taxas de juro da dívida portuguesa estavam novamente acima dos sete por cento. Que as bolsas estavam em queda. Que o horror na Irlanda era de facto assustador. Que a sombra do que por lá se passava se podia projectar sobre Portugal. A imprensa anglo-saxónica, como é costume, gritava que Portugal estava a seguir à Irlanda. Que vinha aí o FMI.

Salientou-se mais do que uma vez que 2011 vai ser um horror.

Portanto a questão coloca-se: tirando assinalar-se a prática de um direito democrático etc e tal, tirando estar-se a exercer o direito a protestar contra o que o governo está a fazer, tirando que se observa a uma palpável deterioração na situação económica e, quase certamente, social, qual foi o efeito real desta greve geral?

Tanto quanto se sabe, o governo não pode recuar: está a gastar demasiado e não tem as receitas para custear a máquina estatal. Já aumentou os impostos de várias formas, numa tentativa para diminuir o défice. Mas não está a conseguir fazê-lo.

O que é que o governo pode dar?

O que é is sindicatos querem, ou podem, extrair do governo?

Em ambos os casos, a resposta é: nada, ou quase nada.

Sendo pouco menos que tépido, o protesto nem sequer convenceu.

Dou uma base de comparação, que foram os protestos em Moçambique a 1 e 2 de Setembro último. Nesse caso, por todas as razões e mais alguma, o protesto fez com que todos parassem para pensar. Teve impactos claros, especialmente pela percepção da violência e do descontrolo (mais do que a realidade, até). As pessoas, os políticos, discutiram, medidas foram tomadas.

Houve consequências.

Da greve geral de hoje, em Portugal, para já, não se prevêem quaisquer consequências.

E não alterou o que já se sabia.

Que todos terão que apertar o cinto.

Que isto é o começo de um mau período.

Que não há volta a dar.

E que ninguém gosta do que está para vir.

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