THE DELAGOA BAY REVIEW

03/12/2010

O MILAGRE DE SANTA MOZALA

Filed under: Ecologia Moçambique, Economia de Moçambique, Mozal — ABM @ 1:48 am

Este falava com os bichos.

por ABM (2 de Dezembro de 2010)

Segundo o meu relógio, faz duas semanas que o bom povo de Maputo anda a comer, cortesia da BHP Billiton e da sua sucursal nos arredores de Maputo (e juntinho da Matola) não sei quantas toneladas por dia de substâncias tóxicas, emanadas da chaminé de 62 metros (o nosso Paul Fauvet deve achar que a altura faz diferença pois repete a altura – 62 metros – sempre que pode).

O assunto obviamente continua a não merecer a mínima atenção da imprensa local. Alguém foi lá filmar o momento solene da “bypassificação”? não. Alguém filmou a chaminé a vomitar aquilo directamente para o céu em redor da fábrica? não.  Claro que não.

O assunto não interessa.

No entretanto, a Associação dos Amigos da Mozal anunciou mais uma prendinha a não sei quem de entre o people (sai muito mais barato que pagar impostos e fica lindo na fotografia) e, no dia 1 de Dezembro, tal como anunciado, desta vez num comunicado de imprensa em língua portuguesa e em língua inglesa, a Mozal Inc. proclamou o que sempre dissera: que afinal expelir directamente para o ar os gases tóxicos das suas fornalhas, funcionava melhor que com os tais filtros que eles se esqueceram que estavam a apodrecer perigosamente desde que os colocaram lá há dez anos, e que o ar estava mais limpo.

Como?

Será que percebi bem?

Vamos por partes.

O comunicado da Mozal Inc. é piedosamente impreciso. Diz só que está tudo bem, que estamos juntos e que assim vai continuar a ser. Se a tal de SGS tomou medidas, guardaram-nas a sete chaves pois no comunicado não se lê um indicador, um número, uma medida. Está abaixo do padrões nacionais e internacionais e acabou-se.

A maior parte da imprensa, talvez por causa do escarcéu oportunista de alguns políticos e do eventual cidadão mais preocupado, discretamente retransmitiu o conteúdo do texto da Mozal.

Até a Agência de Informação de Moçambique (AIM) o passou.

Ah, mas a AIM na verdade são duas AIM’s: a AIM dos lusofalantes, e a do Paul Fauvet, em inglês, para inglês ler. Que tem muitíssimo mais piada, em parte porque está incomparavelmente mais completa e bem escrita (sem desprimor dos camaradas que fazem a edição em português) e em parte porque eu acho que, como quase ninguém em Moçambique lê aquilo, ele parece que, literalmente, diz o que lhe apetece.

E aqui vem a parte interessante.

O que diz Fauvet sobre as duas primeiras semanas de veneno das fornalhas da Mozal para o ar?

E para que não haja distracções, o que ele escreveu está aqui no documento 02.12.2010 boletim AIM 5412.

O texto de Fauvet começa com o título, que traduzo:

“APESAR DO BAIPASSE, AS EMISSÕES DA MOZAL NÃO AUMENTAM”.

Portanto, logo no título, o milagre anunciado. Veja bem o exmo. Leitor: apesar de, a hora incerta do dia 17 de Novembro, e continuamente durante as quase duas semanas seguidas que passaram, uma gigantesca fábrica de processamento de escória de alumínio estar a expelir directamente para o céu, sem qualquer tratamento, os gases das suas numerosas fornalhas, descobre-se que as emissões da fábrica … “não aumentaram”.

Não aumentaram.

Aleluia! É um milagre.

Uma coisa do outro mundo. Nem a IURD conseguia uma destas.

Os funcionários da SGS são mesmo bons. São tão bons que até se ofereceram para divulgar todos os dados que compilaram. Mas entretanto, que eu saiba, não divulgaram nada.

Ou será, então que os filtros que lá estavam antes eram uma tal porcaria que aquilo já nem sequer funcionava. Qual será o caso? Fauvet dá-nos uma pista: as medições agora feitas são feitas contra medições “de base” feitas em Outubro. Portanto imagine o exmo. Leitor se por acaso as medições de Outubro fossem feitas numa altura muito “poluente” do funcionamento da fábrica. Logo, as medições em Novembro, mesmo a cuspir aquilo tudo directamente para os céus sobre Maputo, dariam um resultado melhor.

Comparativamente.

Nada mais simples.

Mas – esperem – ainda não acabou.

O melhor está para vir.

No seu escrúpulo em explicar as coisas, Fauvet dá-nos uma informação verdadeiramente insólita. Citando o Sr. Alexandre Sitoi, o responsável da fábrica para estes assuntos, diz no texto – e traduzo:

“De facto, as medições diárias [feitas] indiciam uma ligeira redução se comparadas com a média das medições feitas no período de base [usado para fazer a análise]”…

Aleluia! Outro Milagre!

Este deve ser o primeiro caso na História da Humanidade em que uma fundição de alumínio desliga os seus filtros e, duas semanas depois de passar a emitir os fumos directamente para o céu, as medições feitas (sabe Deus como) indicam que a quantidade de poluentes presentes nesse mesmo céu, diminuiu.

Aleluia.

Gostei particularmente da parte em que Fauvet entra mais nos detalhes da coisa para ver como estamos todos errados e para nos tranquilizar (não a mim pessoalmente que, no relativo recato da Linha do Estoril, só tenho que lidar com a poluição socratiana. O Diabo que leve a escolha). À sua pergunta quanto aos demais venenos expelidos para os céus sobre Maputo, de que só realmente me interessava o dióxido sulfúrico (é o tal que provoca a chuva ácida, que destrói a vegetação e torna os terrenos inférteis) o Sr. Sean O´Brien, um consultor pago pela Mozal, disse que não havia problema pois os filtros existentes antes também não filtravam esses gases, pelo que o que sai agora é o mesmo que já ia para o céu antes. O que, de uma forma pérfida, não deixa de ser reconfortante. Não é?

O’Brien, tire-se- lhe o chapéu, deu a Fauvet uma pista para o que se calhar se está a passar. Os fumos são cuspidos de uma chaminé com os tais 62 metros de altura. Com aquele ventinho encanado que vem de Sueste e a seguir as chuvas a captarem aquele lixo tóxico todo, o mais provável é que, para já, toda aquela poluição deve estar a cair no mato a uns quilómetros de distância da Matola. Onde por acaso os senhores da SGS não devem estar, pois devem ter metido os seus aparelhómetros ali à volta da Mozal.

Que assim não acusam nada.

Quanto às emissões de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, uma importante componente dos poluentes, diz a peça, afinal ninguém sabe bem o que aconteceu pois as amostras colhidas foram enviadas para análise por um laboratório na Bélgica e ainda não se sabem os resultados.

Mas não faz mal porque a gente já sabe que está tudo bem.

Como é que diz a música? “tudo bom, tudo bom, tudo bom”.

Aleluia.

2 comentários »

  1. Caro ABM.

    Repare que eles podem estar a dizer a verdade.

    Se ler bem, eles dizem que depois do by-pass as emissões não aumentaram. Você parte do principio que os filtros estavam a funcionar, mas na realidade e como eles frizam que a propria instalação de tratamento corria o risco de colapsar, isso quer dizer que os filtros não deviam funcionar há muito tempo. Por isso não há alterações nas emissões.
    Mesmo não conhecendo o processo nem a instalação, ao ver os poluentes envolvidos. quase que adivinho que a estrutura metálica deva estar completamente corroída devido ao tipo de atmosfera altamente corrosiva que esses poluentes provocam.

    Quanto ao artigo em si, faz-me lembrar os primeiros exploradores que compravam territórios enormes a troco de missangas.

    Comentar por Luís Bonifácio — 03/12/2010 @ 2:44 am

  2. ABM

    Uma pena! As missangas do nosso tempo serviam para se juntarem num fio só, junto com mais umas outras pedrinhas para colares se fazerem, para nos adornarem, hoje as mesmas missangas veem para nos intoxicarem!Uma pena Moçambique, não haver quem esteja no poder, não tenha a coragem de isto mesmo denunciar e terem sido em tempos idos, por elas condecorados!Mr.Sean O´Brien, Mozal.inc, and Mr.Fauvet,se faz favor, vão “vomitar” para outro lugar, aqui não! Simples! Bom Natal ABM, JPT , Mas´hamba toda!Claro é sempre mais facil escrever do que dizer!Bom Natal Moçambique!
    “””MOZAL””” vai-te incorporar para outro lugar , lá , mas distante!Kanimambo!

    Comentar por rui cruz — 03/12/2010 @ 1:53 pm


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