THE DELAGOA BAY REVIEW

14/12/2010

A MORTE REVISITADA

Filed under: António Botelho de Melo — ABM @ 3:30 am

por ABM (13 de Dezembro de 2010)

A morte visita-nos mais frequentemente em Maputo. É algo a que nunca me habituei, nem creio, alguma vez me habituarei. Pessoas com quem privei, de quem gosto, ou gostava, e que, unicamente com base no critério algo arbitrário da idade, da minha e da deles, e que pensaria que estariam comigo muitos mais anos, a apreciar a vida, o mundo, os amigos e a família, partem, assim de repente, sem mais nem menos.

Nos quase dez anos em que tive o privilégio de viver entre moçambicanos e em Moçambique independente, fui a vários funerais. Lembro-me com enorme saudade da minha querida Martinha Thavede, uma senhora com uma inteligência refinada e com um refrescante sentido de humor, e que de repente, sem aviso, morreu. Ela devia ter 47 anos de idade apenas. Ficou a saudade e ter que ver o sofrimento dos seus filhos, órfãos da mãe tão cedo.

E não compreender.

O mesmo senti no funeral do Sr. Passarinho Fumo, um colega morto em circunstâncias pouco esclarecidas. Um homem de armas, uma força da vida, conhecido na cidade, partiu demasiado, demasiadamente, cedo. No dia do seu funeral, fui incumbido de ler o elogio fúnebre do banco onde ele fora um destacado membro, o BCM. Toda a cerimónia foi conduzida em changana, menos o curto texto que eu li alto em português, ao pé da sua sepultura, precariamente pendurado em cima de um monte de areia deixado pelos coveiros, em frente a uma multidão de amigos e conhecidos. A família depois veio agradecer-me as palavras que eu tinha encontrado na altura, as suas jovens filhas, Dulce e Dinamene, então com 17 e 21 anos de idade, apenas.

A morte visita mais cedo também porque muitos moçambicanos viveram (muitos vivem) uma vida infernal durante anos e anos, e os dispositivos médicos são, ou parecem ser, mais precários ou menos acessíveis em Maputo, para não falar no resto de Moçambique. Por mais que uma vez tive que me meter no carro e ir a Nelspruit, ou a Joanesburgo, discutir com os médicos e os caixas sul-africanos, assistir a esta ou aquela pessoa, que não falava inglês, na ala de cuidados intensivos do hospital em Milpark, o dinheiro e a sobrevivência de alguém atirados na mesma frase, ali, para ser decidido na hora: sim ou não. Nalguns casos com algum sucesso, noutros nem por isso.

Tirando o funeral do meu saudoso Sr. José Craveirinha, que faleceu sempre cedo mas com uma longa e aventurosa vida, e que foi assunto de Estado – o governo do dia declarou-o poeta-herói, não menos – e em que eu fiquei invisível, escondido num canto no meio da enorme multidão lá no Conselho Municipal de Maputo, sempre achei que, em quase todos os restantes funerais em que participei, os falecidos eram demasiadamente jovens.

Partiram demasiadamente cedo.

Parecia-me estranho, uma injustiça. Como é que um povo que me parece saber gozar tanto e tão bem a vida, com tal alegria, apesar de todos os sofrimentos, pobreza, revezes, tem que enfrentar a tristeza de ver os seus partirem tão cedo?

Mas, recordam-me as estatísticas abstractas, em Moçambique morre-se mais, e mais cedo que na Europa e na América. Muito mais. É uma tragédia e uma enorme tristeza.

E ainda há o Sida, a malária.

Num funeral em Maputo sofre-se mais, mas partilha-se mais o sofrimento. Sinto uma maior empatia. Talvez por causa da cultura, mas também por causa da idade de quem morre. E do choque de se perder, regra geral, alguém ainda na flor da vida. Em Portugal e nos Estados Unidos este ritual tende a ser completamente diferente, regra geral. São pessoas velhas, ou muito velhas, que morrem. Viveram longas vidas, já quase não têm amigos vivos, só a família mais próxima e alguns amigos do antigamente. É, de certa forma, o fim de uma presença e de uma era.

Penoso, mas há uma lógica natural.

Não há lógica possível em se morrer jovem demais. Parece uma total arbitrariedade e uma total injustiça.

Em Moçambique vai-se, ou tenta-se ir, aos funerais. Ir, e estar presente, é importante. Não é assim em toda a parte. Eu lembro-me de, no fim dos anos 90, tendo chegado há pouco tempo à cidade, ter colegas portugueses que se questionavam se “aqueles funerais todos” a que os empregados iam, eram verdade mesmo, ou se era apenas uma forma de tirar um dia do emprego. Eu explicava que era assim mesmo. Moçambique é assim. Vai-se aos funerais. Todos vão aos funerais.

E partilha-se a dor.

E se há dinheiro coloca-se uma notinha curta no Notícias, a expressar publicamente a solidariedade.

Este fim de semana que passou, morreu em Maputo uma senhora que com quem trabalhei, que respeitava e de quem gostava. Não era uma figura pública, provavelmente poucos a conhecerão. Acho que a Zaida Ismael, apesar de alguns problemas de saúde, morreu cedo demais. Creio que era muçulmana e se calhar o seu funeral já se realizou. Estou triste e tenho pena de não estar no seu funeral e de poder partilhar a dor que sinto com os seus colegas, os seus amigos e a sua família.

A morte, quando nos visita de perto, deixa-nos mais sós, para sempre.

A sós, com as nossas memórias.

Neste caso, a memória de Zaida.

2 comentários »

  1. Bonita homenagem à Zaida e todos mais mencionados. Palavras leves, usaste para descrever a partida de jovens com quem privaste. Que continuem na paz, onde quer que estejam.

    Comentar por Vanize Maia — 14/12/2010 @ 1:02 pm

  2. ao abrir e ler este site, fiquei boquiaberto com o assunto , porque por acaso conheci o sr Passarinho fumo e a família, éramos vizinhos na Matola, no João Mateus , ele vivia na rua principal que hoje termina na shoprite , antiga ceres, eu era criança e tenho a certeza que a família não se lembra de mim,o Sr Passarinho era uma pessoa muito querido por nos crianças da minha era, e nesse tempo foi antes de surgir o BCM ele trabalhava no BPD na cidade da Matola, tinha um carro preto se a memoria não me falha de marca Peugeot, estou a falar dos anos 80.
    e infelizmente soube do bárbaro assassinato na Matola Rio em 2003(???) e só depois de dias encontraram o corpo dele danificado, e a mulher do tio passarinho perdeu a casa para a família dele,já que em África quando morre o marido a mulher perde tudo, mas quando morre a mulher o marido ganha tudo, que absurdo, fiquei emocionado ao ver este assunto que já esta apodrecido na justiça, alias se é que existe justiça neste país,e quero desejar a toda família do tio passarinho muita força e sucessos na vida e o tio passarinho vive nos nossos corações.

    NB: por qualquer falha ou erro com o assunto publicado neste site,as minha sinceras desculpas antecipadas a família afectada

    Comentar por chauque — 14/12/2010 @ 2:39 pm


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