THE DELAGOA BAY REVIEW

30/12/2010

O ÚLTIMO DEBATE PRESIDENCIAL PORTUGUÊS

Filed under: José Sócrates, Politica Portuguesa, Presidenciais 2010 — ABM @ 3:20 am

30 de Dezembro de 2010

A grande Ella Fitzgerald acima, acima consegue dizer mais nos 6 minutos e 36 segundos que a levaram a cantar o imortal Samba de Uma Só Nota, que o que foi dito na cerca de uma hora que levou o debate esta noite entre Cavaco Silva e Manuel Alegre – que era suposto ser o único “grande” debate da campanha presidencial portuguesa.

O debate foi pouco menos que medíocre.

O formato não ajuda. A Judite passou o tempo de cronómetro a cortar a palavra aos dois, chamando-lhes artificial e republicanamente de “candidato Cavaco” e “candidato Manuel Alegre”, o que os dois, estupidamente mimicavam, chamando-se entre si a mesma coisa. Sendo o tempo breve, e sendo isto Portugal, a consequência é que menos que nada havia para dizer que fizesse algum sentido. O “debate” foi na melhor das hipóteses uma troca mal ensaiada de piropos, alguns cuspidos espontaneamente, outros tirados de uns papelinhos que os dois pretendentes ao trono da República tinham à sua frente.

Portanto, na falta de conteúdo, fico-me pelas superficialidades:

1. ou era do meu televisor hiper-de-luxo-HD, ou os dois estavam mais pintados que uma corista em dia de espectáculo. Cavaco estava mal pintado, tinha um mancha do lado esquerdo da cara dele (ou seja, do lado direito na imagem), a gravata dourada esquivada para o lado direito. Manuel estava mais bem pintadinho e a gravata era menos carnavalesca e o fato era decididamente melhor. Parecia um executivo da Portugal Telecom a anunciar um grande dividendo.

2. Cavaco Silva pareceu menos à vontade, os ataques dele estavam mal ensaiados e pareciam mais defesas encapotadas que ataques genuínos. Manuel Alegre esteve sempre mais composto e bem disposto.

3. Enquanto que a voz de Manuel Alegre era o paradigma da clareza cristalina e transpirava boa dicção, a voz de Cavaco Silva era tão fanhosa que mal se ouvia. Alegre fala a partir das cordas vocais, a voz de Cavaco parece que vem do estômago. Por causa de Cavaco, tive que subir o som do meu televisor, suscitando o imediato protesto de quem lá estava, incluindo a minha gata Kitty, que só para chatear anda com cio há três semanas seguidas. Não há alguém que dê umas lições ao candidato Silva de como falar de forma que se faça entender na televisão?

4. A Judite Correia, uma jornalista da estação pública de televisão de todos nós (1 milhão de euros do erário público por dia) e que era suposto “moderar”, estava tão particularmente “speedada” esta noite que até fazia impressão. A sua intervenção parecia uma daquelas consultas de hospital público em que o essencial era despachar o paciente antes que ele morra na marquesa. Ajudava a atropelar o que quer que seja que o candidato Cavaco e o candidato Alegre tentassem dizer. Ora sendo isso já pouco (o que eles tinham para dizer) o efeito foi cacofónico.

5. o candidato Alegre foi sempre tentando abraçar o lado social-humanitário-lírico-poético da Grande Herança Socialista, sem nunca mencionar que foi precisamente por causa desse tipo de discurso sem contabilização dos débitos e créditos, e dos Amigos Socialistas dos últimos quinze anos, que Portugal está a resvalar a partir de dia 1 de Janeiro, para a maior recessão económica de que há memória desde os saudosos tempos da I República. Desta vez sem as falinhas mansas da União Europeia e sem subsídios. Vai ser lindo, ver Portugal a voar sem rede por baixo. Faz-me lembrar um pouco quando eu saí das Colónias em 75, até os bilhetes de avião os meus pais tiveram que comprar.

6. Por sua parte, o candidato Cavaco, o pai do Portugal moderno (pós-soarista) e o verdadeiro arquitecto da infernal máquina subsídio-fiscal (e das grandes negociatas) que começou a descambar imediatamente após o seu desmaio na tomada de posse de António Guterres em 1995, procurou evidenciar o seu valiante contributo, enquanto presidente, para o bem comum e a “estabilidade”, nos anos do seu primeiro mandato – o mesmíssimo mandato de José Sócrates, que usou a mesmíssima máquina para espalhar o Estado Socialista e ganhar votos. Afirmação que não me convenceu por um segundo, pois se houve um pai para o “monstro”, foi Aníbal Cavaco Silva. Só que na altura quase ninguém notou porque em tempos de vacas gordas não se nota o que é que o monstro realmente come. Quando chegaram as vacas magras, todos repararam mas então já era tarde demais. E aparentemente Sócrates nunca soube o que era um monstro, ou uma vaca, gorda ou magra.

A parte do eleitorado que já não está quase completamente alienada por isto tudo no dia 23 vai re-eleger, com a provavelmente mais baixa taxa de participação da história desta república, o mal menor. Aníbal Cavaco Silva será presidente.

E é, de facto, assim, apropriado e até edificante, que seja Aníbal Cavaco Silva a presidir à nojice que já se faz sentir e que vai caracterizar a vida dos portugueses durante os próximos anos. Esses já com e sem Sócrates.

No fim, é uma espécie de penitência partilhada.

Porque, no fundo, no fundo, ele merece-nos.

E nós a ele.

1 Comentário »

  1. “E nós a ele.”

    Comentar por umBhalane — 03/01/2011 @ 6:38 pm


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