THE DELAGOA BAY REVIEW

19/01/2011

COMEMORANDO A MORTE DE SAMORA MACHEL

Filed under: História Moçambique, Samora Moisés Machel — ABM @ 6:16 pm

O Presidente Machel exercita os músculos na praia.

19 de Janeiro de 2011

Segundo o Notícias de Maputo de hoje, e reflectindo aquela aparentemente eterna não-dicotomia entre Estado e Partido, o governo moçambicano decretou 2011 o ano de “celebração” do 25º aniversário da morte de Samora Machel.

Mas é a Frelimo – o Partido – que diz que se está a mobilizar à esquerda e à direita, para, no próximo dia 3 de Fevereiro, assinalar a data do desaparecimento do primeiro presidente de Moçambique independente. Vai haver uma cerimónia em Gaza, onde ele nasceu, e vão ser inaugurados nas províncias onze monumentos alusivos ao malogrado presidente. Quem vai pagar estes monumentos e por iniciativa de quem, não foi revelado.

Esta situação coloca duas questões que considero interessantes.

A primeira, simples, é se a figura de Samora Machel é uma figura de Estado ou de partido. Naturalmente que a resposta é que ele é as duas coisas. Mas, num contexto histórico global, e em termos de uma nação, claramente ele é, e está condenado a ser, uma figura de Estado. Daqui a cem anos, quando já ninguém souber bem o que foi a Frelimo (o partido), suspeito que Samora Machel ainda vai estar algures nos livros de história moçambicanos.

A segunda questão é esta para mim estranha e aparente “necrofilia”, decorrente das datas escolhidas para celebrar as pessoas e, mais que as pessoas, as figuras de Estado.

Eu explico.

No firmamento dos feriados moçambicanos, celebra-se no dia 3 de Fevereiro – presumo – a memória dos que morreram na luta pela independência do país.

O dia 3 de Fevereiro assinala aquela segunda-feira à tarde, em 1969, quando Eduardo Mondlane, o primeiro presidente do então movimento guerrilheiro sediado na Tanzânia, morre na sequência do arrebentamento de um pacote-bomba.

A efeméride agora evocada reporta-se àquela segunda-feira ao princípio da noite (dia 19 de Outubro de 1986) quando, agora se sabe, o avião presidencial moçambicano despenhou-se nas colinas em Mbuzini, na África do Sul, junto da fronteira moçambicana, provocando a morte a Samora Machel e grande parte da sua comitiva.

Ora ambas são datas em que os líderes morreram. À partida, não há nada a “comemorar” por assim dizer. São datas tristes, quando muito para as pessoas se vestirem de preto e reflectirem sobre a pessoa que partiu. No caso do 3 de Fevereiro, se calhar é apropriado assinalar os que partiram na data em que Mondlane partiu. Quase todos os países têm datas similares, em que homenageiam respeitosamente os seus compatriotas mortos na defesa do ideal pátrio. Mas, nesses casos, as datas em si extravasam qualquer pessoa e são dedicadas ao colectivo dos que morreram. Em Moçambique, é o dia em que Mondlane morreu.

Eu acredito que, se se pretende comemorar e assinalar as figuras de Mondlane e de Samora, mais simpático e apropriado seria assinalar as datas em que nasceram e aquilo que fizeram em vida, não a particular circunstância das suas mortes.

Ambos são de Gaza e nasceram em localidades relativamente perto uma da outra. Mondlane nasceu em Manjacaze num domingo em 1920, no dia 20 de Junho, e Samora em Madragoa (rebaptizada de Chilembele) numa sexta-feira, a 29 de Setembro de 1933. Há, respectivamente, 91 e 78 anos.

Eu dou um exemplo daquilo que falo. Toda a gente sabe que um dos mais marcantes presidentes e líderes políticos dos Estados Unidos da América, John Fitzgerald Kennedy, foi assassinado ao princípio da tarde do dia 22 de Novembro de 1963 na cidade Texana de Dallas.  Kennedy teve um mandato particularmente notório e atribulado, que incluiu entre outras a única ocasião em que a Guerra Fria esteve a um fio de virar um conflito nuclear. A sua morte foi particularmente bárbara (assassinato a tiro de carabina durante uma parada) e foi seguida de uma série de eventos, os quais ainda hoje são objecto de um muito aceso debate.

JFK e Jackie num dos bailes para assinalar o início do seu mandato presidencial, em 1960. Parte do espólio da Biblioteca Kennedy em Boston.

Alguns vinte anos mais atrde, nos arredores de Boston, foi inaugurada a Biblioteca e Museu Kennedy, cujo objecto é recolher, analisar, estudar e divulgar tudo o que tem que ver com John Kennedy e a carreira pública de Kennedy. Pouco depois, eu visitei o complexo, e entre a documentação e artifactos exibidos, assisti a um filme sobre a vida e a carreira política de JFK. Que foi muito interessante, mas que tinha algo que na altura achei uma particularidade: a história do filme acabava na manhã do dia em que ele foi assassinado. E nem sequer mencionava o que sucedeu a seguir. A história simplesmente parou ali.

Na altura achei aquilo um bocado estranho, mas logo percebi o significado: o objectivo ali era conhecer o homem e a sua obra, não deambular sobre a sua morte e muito menos sobre as circunstâncias em que ocorreu.

Moçambique ainda hoje não possui, que eu saiba, um museu nacional dedicado à sua história. Onde se pudessem reunir a documentação e alguns artifactos dos que contribuiram para a sua edificação e do seu passado. O Arquivo Histórico faz alguma coisa, mas é um arquivo essencialmente bibliográfico, não um museu. E nota-se que isso faz falta, não só para guardar para futuras gerações um pouco do que foi o seu passado – hoje o seu presente – como também de ajudar a estudar, celebrar e comemorar a vida e obra das pessoas que, bem ou mal, contribuíram para construir o país.

Um partido político comemorar circunstancialmente as suas mortes pode não ser, não será, a melhor forma de os recordar.

Samora e Mondlane merecem mais do que isso.

1 Comentário »

  1. Infilizmente eu sou do ano em que o nosso pai querido foi assassinado,mas,bem claro que tenho andando atraz de todas fontes que existem no nosso pais para cultivar e acolher informações sobre quem foi ele e como ele era,sobretudo quem o matou! Essa é uma resposta que ainda está de baixo do poço ençelada dentro de uma lata virada para baixo que torna difícil de encontrar,o que mais deixa me confuso é: será que a frelimo não tem condições para reunir todas teses para satisfazer o povo? Será que o açidente foi devido as avarias do avião? Se foi avarias não devem dizer que a morte dele foi um assassinato enquanto não deixem claro de quem o matou porque se não acabo afirmando que o Samora foi assassinado pela gente da Frelimo.

    Comentar por Flávio Cambane — 18/10/2011 @ 9:20 am


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