THE DELAGOA BAY REVIEW

02/02/2011

A PRINCESA PATRÍCIA, OS DUQUES DE CONNAUGHT, CAVACO SILVA E LOURENÇO MARQUES

SUA ALTEZA REAL A PRINCESA PATRICIA DE CONNAUGHT. A MESMA DA RUA PRINCESA PATRÍCIA EM LOURENÇO MARQUES. AQUI EM 1912. MAIS OU MENOS COMO ERA QUANDO PASSOU PELA ENTÃO CAPITAL COLONIAL, QUANDO TINHA 24 ANOS DE IDADE.

A Princesa Patricia de Connaught (nome completo Victoria Patricia Helena Elizabeth) nasceu no dia 17 de Março de 1886 e morreu em 12 de Janeiro de 1974, com 88 anos. Filha de Sua Alteza Real o Duque de Connaught e de Strathearn e da Princesa Luísa Margarida da Prússia, pertenceu ao círculo mais restrito da família real britânica nos últimos anos da Rainha Vitória.

Cresceu junto dos pais e, depois de se casar algo tardiamente em 1919 com Alexander Robert Maule Ramsay (ela tinha 33 anos de idade), a princesa deixou de o ser e passou a usar o título de Lady Patricia Ramsay. Ela hoje está sepultada no cemitério real em Frogmore, perto do Castelo de Windsor, onde estão também sepultados os seus pais e os seus avós, a Rainha Vitória e o Principe Alberto.

Patricia teve um irmão e uma irmã. Naqueles tempos, mais precisamente em Janeiro de 1905, correu o boato, veiculado no Sun, um jornal britânico, de um possível casamento de uma delas com o Príncipe Real de Portugal. Facto que não passou despercebido na legação portuguesa em Londres, chefiada pelo mais tarde Marquês de Soveral, que recortou a notícia do jornal e mandou para Lisboa com um ofício. Dom Luiz Filipe acabou assassinado com o pai, o rei Dom Carlos I, em 1 de Fevereiro de 1908. Mais tarde ventilou-se, entre outros, um eventual enlace de Patrícia com o então jovem chefe da Casa de Orleáns e Bragança, o rei Dom Manuel II. Até o republicano e improvável correspondente do The New York Times, a propósito de uma visita que o jovem rei Dom Manuel fez ao Reino Unido em Novembro de 1909, elaborou um longo e fascinante texto, saído na sua edição de 14 de Novembro de 1909, especulando desalmadamente em relação a quem eram as candidatas mais prováveis para o tímido Bragança. Segundo o jornal, elas seriam Patricia de Connaught e Alexandra, uma filha do Duque de Fife. Depois de uma aturada e hilariante apreciação, o correspondente do New York Times basicamente concluiu que Patricia seria de longe a mais boazona para Manuel, mas que era independente demais para poder ser forçada a casar com seja quem for. Para além de já antes ter dado tampa ao rei de Espanha, Afonso, toda a gente nessa altura sabia que ela estava metida até às pontas dos cabelos com o Earl de Anglesey. Mas a coisa com ele também não duraria muito.

PatrÍcia de Connaught à direita. Ao centro, a sua mãe, a Duquesa de Connaught. À esquerda dela a sua irmã Margaret, que foi rainha da Suécia, mas que morreu cedo,antes do sexto parto.

Mas a especulação na altura não passou disso. Manuel II foi a Albon e voltou solteirinho da Silva. Em 1919, Patricia finalmente casou-se com o tal de Alexander Ramsay, um comandante da marinha, não da alta nobreza mas ainda assim o terceiro filho do Earl de Dalhousie.

O pai de Patrcia era Artur, Príncipe Real e, a partir de 1874, Duque de Connaught e Strathearn (1850-1942). Artur foi o sétimo de nove, o terceiro filho varão e supostamente o favorito da Rainha e Imperatriz Vitória. Foi, portanto irmão do Rei Eduardo VII, que era tio de Patrícia, e primo de Jorge V, rei entre 1910 e 1936, este o avô da actual monarca britânica, Isabel II.

Durante a maior parte da sua vida, o Duque desempenhou funções de chefia militar e de representação da coroa britânica, de que destacam os anos em que foi Governador Geral do então Domínio do Canadá, nos anos antes e durante a I Guerra Mundial, a única vez em que o Canadá teve um Governador-Geral que foi um membro da família real britânica. Patricia foi com ele e adorou os anos que lá passou, sendo ainda hoje lá recordada com reverência.

Artur e Luisa, os Duques de Connaught. Ele era filho da rainha Vitória e irmão de Eduardo VII.

A mãe de Patricia era Louise, filha do Príncipe Frederico Carlos da Prússia, com quem Artur se casou em Março de 1879. As ligações de Patricia às grandes casas reais da Europa são incontornáveis, nomeadamente a Casa de Saxe- Coburgo e Gotha, que também tinha ligações fortes com a casa real portuguesa através do marido de Dona Maria II, Fernando, que foi rei consorte de Portugal.

Uma fotografia da época com a família real britânica antes da rainha Vitória falecer em 1901. Da esquerda para a direita: Leopoldo Battenberg, Maria Luisa Schleswig-Holstein, a Príncipe Eduardo de York, a Duquesa de York com a Princesa Maria, Margarida de Connaught, Alexandre Battenberg (sentado no chão), o Duque de York com o Príncipe Alberto, a Rainha Vitória, Artur Connaught (o Duque de Connaught), a Duquesa de Connaught, a Princesa Beatrice, Patricia de Connaught (sentada no chão a segurar o Tareco), Ena Battenberg, Helena Vitória de Schleswig-Holstein e Mauricio Battenberg. Tudo boa gente.

Em Novembro de 1910, os Duques e a sua filha visitaram a África do Sul, para onde o Duque fora convidado, ou melhor, mandado ir, para, em representação da coroa britânica, inaugurar o novo parlamento da então recém-formada União Sul-Africana, que, oito anos após o conflito anglo-boer, representou o regresso dos boers à cena nacional, que eventualmente viriam a dominar.

O Duque de Connaught em traje de gala.

Fizeram o trajecto de barco, no Balmoral Castle.

Durante a viagem, passaram brevemente pela pequena capital colonial de Moçambique, Lourenço Marques. Em sua honra e em memória da sua passagem pela cidade, eventualmente a edilidade deu os seus nomes e títulos a duas artérias: A Rua Princesa Patrícia e a Avenida Duques de Connaught.

Tudo isto para que, muitos anos mais tarde, numa curta visita de três dias a Moçambique, em Março de 2008, um babado casal que vivera em Lourenço Marques meados dos anos 60 e que nunca esqueceu o que viu, viesse dizer: “O nome da nossa filha surge da predilecção que a minha mulher e eu tínhamos por uma rua em Maputo, cheia de jacarandás e que se chamava rua Princesa Patrícia.”

Disse Aníbal Cavaco Silva, dantes alferes na tropa portuguesa e, na altura em que fez a firmação, presidente da república portuguesa.

O Alferes algarvio Aníbal Cavaco Silva em Lourenço Marques, 1965.

A actual Rua Salvador Allende em Maputo (Allende foi o presidente chileno “socialista” derrubado em 1973 pela mais tarde junta militar liderada por Augusto Pinochet) era anteriormente designada Rua Princesa Patrícia. Havia lá uma conhecida pastelaria e restaurante com o mesmo nome, cujas especialidades eram entre os melhores bolos e pastéis de nata da cidade e os bifes à Princesa, regados com molho de natas. Do outro lado da rua havia a Farmácia Princesa (da sociedade Manuel Frutuoso Agostinho, Ldª, que por sua vez era do Sr. Arlindo Malosso). Ao lado da farmácia havia a Florista Magnólia, que era da Mrs. Cory Reynolds, que por sua vez era dona de uma escola onde se ensinava inglês, dactilografia, estenografia do estilo Pitman. A sua filha, Jenny, que ganhou o concurso “o bebé mais bonito da cidade nos anos 40, mais tarde casou o Sr. Gonçalo Mesquitela, que era filho de um advogado, o Dr, Mesquitela, que vivia na Matola.

A actual Avenida Friedrich Engels, em Maputo, onde se situa o Miradouro para a Baía, era anteriormente designada Avenida dos Duques de Connaught. Engels foi mais ou menos o pimp de Karl Marx em Londres.

Que eu saiba, após a efémera passagem, Patrícia e os pais nunca mais estiveram em Moçambique.

7 comentários »

  1. …e hilariante é isto! a forma como nos vais ensinando a história dos quotidianos🙂 parabéns, Tomané!🙂

    Comentar por cg — 02/02/2011 @ 6:45 am

  2. Nasci e vivi em LM/Maputo e só agora conheço a origem do nomes dessas artérias da cidade: nunca é tarde para aprender. Abraço. Nicha

    Comentar por Alfredo Rocha (Nicha) — 02/02/2011 @ 8:06 am

    • Nicha, Carlos,

      Isto é só uma graça. Vi uma fotografia da menina e segui o rasto ao tema. Se forem ver o artigo novamente, actualizei com mais uns dados.

      Comentar por ABM — 02/02/2011 @ 2:48 pm

  3. E fiquei a saber assim a história da Patrícia, eu que no início de 60 até vivi na esquina da rua com a 31 de Janeiro – Viva a República! – Já do Aníbal, pois, ‘polaninha’ e Alto Maé, onde o alferes viveu, era difícil, muito difícil de se darem…
    beijo divertido, Tomané,
    IO

    Comentar por IO — 02/02/2011 @ 8:59 pm

  4. Vivi em Moçambique Lourenço Marques na Av Duques de Connaught que após a Independencia se
    passou a chamar Frederich Engels. Muito interessante o artigo.
    Não sabia que a princesa Patrícia fosse a filha dos Duques.
    Muito interessante.Obrigada

    Comentar por Ana Ferro — 03/02/2011 @ 7:59 pm

    • Olá Ana

      Obrigado….estas coisas valem o que valem, mas de facto tinha lido umas coisas sobre o assunto e decidi fazer a notinha que coloquei aqui e que leu… e que fica registada sob “assuntos diversos”….

      Comentar por ABM — 03/02/2011 @ 8:06 pm

  5. Saborosas recordações, ABM. Como recordar é viver, vive-se mais um pouco. Obrigado e continua.

    Comentar por jorge — 13/02/2011 @ 8:19 am


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