THE DELAGOA BAY REVIEW

23/03/2011

A ALUCINAÇÃO SOCRATIANA

Filed under: Uncategorized — ABM @ 8:41 pm

23 de Março de 2011

A demissão de José Sócrates e do seu governo esta noite assinalam várias coisas para Portugal e os seus eleitores e contribuintes.

Quiçá a mais óbvia, e cujos benefícios não são de menosprezar, é a garantia de que deverá finalmente terminar o newspeak hilariante da gleba governativa, quanto à realidade social e económica portuguesa.

Em que o Programa de Estabilidade e Crescimento nem é um programa, nem de estabilidade e muito menos de crescimento.

Em que ao aumentar dos impostos chama-se “melhoria de receita”.

Em que cada estatística positiva congeminada pela máquina de propaganda esconde os factos que pressagiam aquilo de mau que muitos analistas vinham – sob acusação de estarem a mentir – a alertar.

Não havia dinheiro mas gastava-se. Chamava-se a quatro aumentos de impostos seguidos num só ano “plano de estabilidade e crescimento” – isto enquanto a economia se afundava e não se vislumbrava forma de a reformular e reactivar. Recorria-se a sucessivos truques de prestidigitação contabilística para dourar a pílula aqui e ali. Com um pérfido número maníaco-depressivo, ora estava tudo bem, ora estava tudo mal. Quando na verdade estava tudo, está tudo, mal e a deteriorar-se.

Termina, assim, após 35 anos de indescritível duração, o modelo do Estado Socialista. Ou pelo menos, a mais recente versão deste regime, instaurado à paulada e sob ameaça de um golpe comunista entre 1974 e 1976. Pois sendo o regime democrático, os eleitores poderão achar muito bem entregar-lhes novamente um mandato que lhe permita fazer surgir a sua cara sorridente e facilitista no panorama nacional.

Que pelos vistos não enganam os detentores de capital estrangeiros.

Os portugueses enfrentam, desta vez com estridente clareza, a decisão do caminho que pretenderão seguir no futuro.

Em termos de finanças públicas e uma boa parte das finanças particulares, simplesmente dito, o país está falido. Mais do que falido. O custo da máquina governamental, que representa mais do que metade de tudo o que ali se produz, é exagerado e desproporcionado face àquilo que as pessoas podem pagar. O modelo socialista-nacional-porreirista apostava numa elaborada teia de impostos, de endividamento gigantesco, de negociatas com meia dúzia de amigos, e uns programazecos de ajuda ao pobrezito, com fartas reformas à geração actual, tudo temperado com uma ideologia grandiloquente e inexequível e uma propaganda dulcificada.

Levou 35 longos anos a chegar aqui, mas ninguém exacerbou tanto os vícios e malefícios do Estado Socialista como os seis anos de José Sócrates. Um seu predecessor, António Guterres fez um ensaio nos anos 90, mas ao pé de José Sócrates, Guterres era um mero aprendiz de feiticeiro.

Alguns, entre eles o próprio, dirão que foi aquilo que aconteceu em Setembro de 2008 que foi a causa da actual emergência.

Não foi.

A bomba que ainda está para explodir sobre as cabeças dos portugueses (lamento: o pior ainda não chegou, nem por sombras) já vinha do final do tempo quando Aníbal Cavaco Silva foi primeiro-ministro. Cavaco criou o “monstro” do sector público e das grandes negociatas das auto-estradas, pontes e grandes obras de regime. Ele, que teve o benefício de enormes subsídios a fundo perdido da Comunidade Económica Europeia (mais tarde a União Europeia), criou a face do Portugal moderno. Nessa altura Portugal entrou no SME (que desembocou na zona euro). Com esse alinhamento precário, as taxas de juro baixaram assombrosamente e tudo, todos, precipitaram-se a endividarem-se. Sem outra saída, os bancos juntaram-se à festa.

Tudo isso teria sido bom se tivesse havido crescimento económico.

Mas não houve crescimento nenhum. Zero. Nicles. Efectivamente, tudo estava parado e quer o sector público quer o sector privado a consumir desalmadamente, tudo, todos a carregar no cartão de crédito.

A dívida agora está aí, para ser paga.

Em vez das reformas que têm que ser feitas, começando com Guterres, veio a tropa fandanga Socialista, cantando canções de equidade, nisso ajudada pelo bacoco discurso comunista e pela indignidade neo-chique do Bloco da Equerda. Mais uma vez e sempre todos e tudo a carregar no cartão de crédito.

Depois de um pequeno interregno inexplicável em que José Manuel Durão Barroso saltou para presidir à Comissão da União Europeia e deixa atrás Santana Lopes para levar com Jorge Sampaio em cima, começa a Alucinação Socrática.

José Sócrates, que do quase nada surje após mais uma purga nas hostes socialistas (que tem lá boa gente) elevou às alturas o Artifício Socialista. Sem olhar ao custo-receita, meteu-se numa série de programas tão interessantes como impraticáveis. Uma fábrica de pequenos computadores chamados Magalhães que ainda hoje não sei o que lhe deu. Substituir a electricidade feita a carvão, gasóleo e gás por geradores a vento, que custam dezenas de vezes mais ao quilowatt. Excelente ideia quando se é rico. Mas Portugal não era nem é rico. Programas para os pobres à barda, uma generosidade simpática excepto quando é feito com os impostos de receitas que já estavam a faltar e que subsidiam, com dinheiro que não existe, o ócio de quem devia virar-se mais para meter o pão na mesa (eu já fui pobre e sei extactamente o que isso é).

O momento mais alucinante da Alucinação Socratiana não foi aquele caso estranho das comissões pagas em relação a um centro comercial na margem Sul do rio Tejo, tão arrojadamente manipuladas pela Justiça, nem tão pouco o descobrir-se que a sua equipa engendrou meios quasi- criminais (pelos vistos nunca se saberá) para calar programas de notícias de televisão ou ainda abafar o director do actual jornal lisboeta Sol, ainda mais assustadoramente manipuladas pela Justiça.

Nem quando se pagou a milhares de empregados públicos para se reformarem, pagando-lhes de reforma o mesmo que eles ganhariam se tivessem ficado a trabalhar mais uns anos, pois se ficassem mais uns anos as suas reformas, como tinha que acontecer, seriam cortadas.

Não.

O momento em que se entendeu que algo de muito seriamente errado ocorria nos raciocínios do primeiro-ministro agora demissionário, foi quando, no final de 2008, quando já se apercebia a plenitude e o alcance do tsunami económico e social que viria do desmoronar financeiro na Europa e nos Estados Unidos, José Sócrates, alegremente, manteve um discurso de oásis e um aumento a todos os funcionários públicos de quase quatro por cento para todo o ano de 2009. Por curiosidade precisamente, o ano em que, em Setembro, foi a votos e vence com uma maioria simples.

Oportunista, o eleitorado votou PS.

A partir de 2010, já não havia como gerir a coisa pública, deixando positivamente indisposta a Sra D. Manuela Ferreira Leite, no PSD, que não acreditava no que estava a assistir. Mas ela não tinha jeito nem uma chance contra a máquina propagandística do PS e os PSD’s substituíram-na por Pedro Passos Coelho.

Que para mim permanece uma incógnita.

À partida, teve quase exactamente o mesmo percurso de José Sócrates: é jovem, inexperiente e um mero produto da máquina partidária.

Não lhe conheço grandes rasgos de visão quanto ao futuro de Portugal.

Não sei, talvez a ideia seja ele ser assessorado pelos decanos do seu partido e puxado por Cavaco Silva, que agora está no seu mandato final como presidente, que inaugurou estrondosamente com o silêncio cortante com que deixou cair Sócrates e o PS.

Quanto aos socialistas, prevendo-se a sua continuada presença na cena nacional, talvez esta seja uma boa altura para reflectir sobre os seus objectivos e visão. Um país pobre e falido que pretende como actividade principal redistribuir a maior parte da sua riqueza entre os pobres, fazer as negociatas e os grandes projectos para os amigos e alimentar um sector público insustentável, e que ainda por cima não cresce, não é um país. É um equívoco, uma fraude e um convite aberto à emigração para quem tiver o rasgo e a iniciativa para tal, deixando atrás um país falido, cheio de velhos reformados e sem quem lhes pague as reformas, gerido por uma plutocracia política-empresarial que invariavelmente sacará para si, como sempre, o melhor corte do bife.

Talvez um bom começo seja mudar algumas caras na sua liderança.

A procissão ainda vai no adro.

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