THE DELAGOA BAY REVIEW

05/04/2011

A TEMPESTADE PERFEITA

O transatlântico britânico Titanic parte para a sua viagem inaugural, Abril de 1912. Uns dias depois, afundou em menos de três horas.

Se eu tentasse inventar um cenário mais apocalítico para o fim da III República portuguesa do que se está a viver, não conseguiria:

1. Um governo socialista demissionário, mas ainda liderado por José Sócrates e os seus coadjuvantes, que não conseguem abrir a boca sem referir que estava tudo bem até eles terem levado um cartão vermelho dos seus opositores;

2. Uma oposição que vai ter que propor o impensável, e que não parece saber como o vai dizer;

3. Taxas de juro de entre oito e dez por cento para pagar não as dívidas do estado, mas os juros dessas dívidas, que são de proporções antediluvianas;

4. Sucessivos anúncios de abaixamento das notações de risco da República e dos bancos que contam, e que já afectam todos os bancos que, no agregado, respondem por mais que 90 por cento de tuda a actividade financeira em Portugal;

5. Uma campanha eleitoral sem contornos definidos, mas que se adivinha suja, descarada e desonesta, para uma eleição a realizar daqui a dois meses, que vão ser sessenta longos, tortuosos dias;

6. A constatação de que a situação é mais do que provavelmente muito pior do que a que tem sido retratada na imprensa;

7. A certeza de que, a partir de hoje, e até ver, os bancos deixaram de ter dinheiro para emprestar seja o que fôr, seja a quem fôr, seja para o que fôr;

8. A persistência do mito de que Portugal realmente tem alguma escolha no que concerne a decisão de pedir ou não ajuda internacional para re-estruturar, re-financiar, re-negociar a sua dívida pública e privada;

9. A percepção alucinante, por parte de alguns agentes políticos, de que isto é apenas mais uma questão de esquerda-direita, ou seja, que há uma solução de esquerda e uma de direita;

10. A sensação de que. para a maioria dos eleitores e contribuintes, isto que está a acontecer não é uma questão que vai exigir uma mudança de regime, de paradigma, que tudo vai alterar e todos vai afectar, de forma contundente.

Olho lá para fora da janela do meu quarto neste fim de tarde de primavera e observo silencioso os pinheiros em frente a minha casa a oscilar tranquilamente com o vento suave.

É a calma antes da tempestade.

A tempestade perfeita.

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