THE DELAGOA BAY REVIEW

05/04/2011

FIZ A MINHA PRIMEIRA COMPRA NA AMAZON

Filed under: Amazon.co.uk, António Botelho de Melo — ABM @ 8:58 pm

Ontem fiz a minha primeira compra na Amazon.

Durante anos comprei uma pequena fortuna em livros, invariavelmente em livrarias que eu visitava, frequentemente em antiquários, alfarrabistas e afins, de vez em quando directamente a um ou outro que o vendiam na internet, mas quase nunca via a tal de Amazon, que está para este negócio como os Estados Unidos estão para o negócio dos armamentos.

Porquê, perguntará o exmo leitor?

Por uma razão muito simples.

É que a Amazon tem a sua maior base de operações nos Estados Unidos.

E aí reside o meu problema.

Eu explico.

Uma vez comprei um livro que queria ler nos Estados Unidos. Já nem me lembro bem o que era. mas era um livro que só havia lá.

A compra em si foi simples.  Telefonei para a livraria da Universidade de Boston (onde logrei obter um mestrado em gestão há uns anitos). Atendeu uma miúda qualquer, simpática e despachada, viu no computador se o livro estava à venda (estava) disse que custava uns vinte dólares. Dei-lhe o número do meu cartão de crédito. Uma semana depois, estava em Portugal.

E aí começou a aventura.

O livro afinal não foi simplesmente entregue pelos correios em minha casa.

Não.

O que eu recebi foi uma notificação dos Correios e Telégrafos de Portugal (CTT) para comparecer pessoalmente e com identificação válida, no Centro Nacional de Distribuição etc e tal, que fica em casa do caraças mais velho, no outro lado de Lisboa, junto da antiga Expo 98.

Para abordar -referia o bilhetinho – o assunto “livro procedente dos EUA”.

No dia seguinte, fui lá. 45 minutos de popó para cada lado, estacionamento, com a pernoca do carro em cima do passeio, corrida para dentro de um armazém que não acaba, pesquisa da secção onde está a minha encomenda, depois pus-me atrás de três pessoas e fiquei à espera, de pé, enquanto uma funcionária mais ou menos indisposta ia o mais latinamente possível despachando o expediente.

Chegou a minha vez e entreguei-lhe o papelinho que recebera na caixa do correio. Ela despareceu durante quatro minutos e meio. Voltou com um volume que supus (correctamente) conter o livro.

“Este livro é para si?”

Fiquei a olhar para ela.

“Sim, para quem é que seria”

“Mas é para si para ler pessoalmente ou faz parte do seu trabalho?”

“Como?”

“É para uso pessoal ou profissional ou académico?”

“Desculpe lá, mas o que é que interessa à senhora para que é que eu vou usar o livro?”

“É que este livro vem dos Estados Unidos, que é um País Terceiro. E quando os livros vêm de um Pais Terceiro, não é como na União Europeia. Pagam-se direitos, e esses direitos, que dependem de se o uso é pessoal, profissional ou académico, têm que ser pagos agora, antes que o senhor o possa levantar. ”

Louvado seja Deus, pensei.

“Bem, eu vou usar o livro para….qual é o mais barato?”

“Uso académico”.

“Então é para uso académico”.

“Trouxe o seu cartão de docente ou investigador consigo?”

“Como?!”

“O comprovativo de que o senhor é professor ou investigador.”

“Ó minha senhora, eu estou aqui há 45 minutos à espera, saí de casa que fica a 6o quilómetros daqui há uma hora e meia, paguei portagens, para vir buscar um livro que demorou cinco minutos ao telefone para encomendar em Boston e agora quer que eu apresente comprovativo de ser docente ou investigador?!”

“O senhor é que disse que era para investigação”.

Sim, mas não disse que era investigador ou docente encartado. Não se pode investigar sem ter uma credencial?!”

“Sim, mas nesse caso em que não tem comprovativo nós consideramos ser uso pessoal”.

“Os direitos para uso pessoal são mais caros que uso académico quando se trata de um País Terceiro. Como é o caso com os Estados Unidos”.

“Mais caro quanto?”

“Pode chegar aos cem por cento. Temos que proteger o negócio das livrarias especializadas, que pagam impostos”.

“Mas que raio de trampa de país é este que se lembra de fazer estas coisas?”

“Não sou eu que faço as regras”.

“Oiça, faça como quiser mas despache-me isso pois eu quero ir-me embora e não ter que voltar aqui”.

“Então vai como uso pessoal”.

De seguida escrevinha uma coisa num papel e diz-me “leve isso ao guichet ao lado, pague os direitos e volte com ele carimbado, para eu lhe dar a encomenda”.

Fui para o guichet ao lado.

Não estava lá ninguém.

Esperei.

Esperei.

Esperei.

Voltei à senhora.

“Desculpe, no guichet ao lado não está ninguém”.

“Espere um bocado que o colega vai aparecer”.

Voltei para lá.

Esperei.

Esperei.

Voltei à senhora.

“Desculpe, não aparece ninguém”.

“Só um minuto”.

Ela foi a uma sala contígua e ouvi-a a falar ao telefone. “Então mas ela está onde? é que está aqui um pagamento de País Terceiro à espera….ah. Sim. Sim. Sim. Está bem. Até já”.

Voltou à sala.

“A colega vem já”.

Dali a cinco minutos apareceu uma senhora no guichet ao lado. Tinha o ar de quem tinha comido sete pregos e bebido duas Superbocks. Sem uma palavra, tirou-me o papel da mão e sentou-se em frente ao que me pareceu ser o computador pessoal mais velho de todo o funcionalismo público português.

Com os dois dedos, começou lentamente a teclar o que parecia ser um formulário.

Muito lentamente.

Finalmente, levantou-se, desapareceu na sala de trás e voltou com um papel impresso.

“São 19 euros e 32 cêntimos sefachavor. Se tivesse trocado, agradecia.”

Saquei uma nota de vinte euros, obviamente já na fase do sentimento de pós- ter sido mais uma vez aldrabado pelo governo, e entreguei-lhe. “Fique com o troco”.

Ela pegou na nota sem dizer uma palavra e desapareceu outra vez.

Três minutos depois, re-aparece. Pegou no papel que preparara, deu-lhe umas valentes carimbadelas em cima e entregou-mo, juntamente com 68 cêntimos em moedas (uma de 50 cêntimos, uma de dez, um de cinco, uma de dois e uma de um cêntimo).

“Apresente este documento no guichet ao lado para fazer o levantamento da sua encomenda”.

E foi-se embora.

Voltei ao guichet inicial.

Entreguei o papel à senhora, que o inspeccionou e lhe deu mais duas valentes carimbadelas.

Desapareceu na sala atrás e voltou com a encomenda contendo o meu livro.

Entregou-mo.

“Obrigado, boa tarde”, consegui rosnar.

“Boa tarde”, escapou-se-lhe de entre os dentes, displicentemente.

E isto foi o que aconteceu.

Logicamente, jurei preferir morrer estúpido que ter que mandar vir mais um livro que fosse para Portugal.

Só que, numa pesquisa que estou a fazer actualmente, achei ser perfeitamente imprescindível adquirir um dado livro, pois o mesmo custava 15 dólares, quando a alternativa era ir lê-lo a uma de duas bibliotecas que o têm em Portugal, o que implica outro pequeno inferno, que é fazer uma consulta de um livro numa biblioteca portuguesa (poupo ao exmo. leitor o horror da descrição de uma tal situação). Fazendo as contas, saía-me mais barato comprar e mandar vir o livro pelo correio que ir a Lisboa lê-lo e mandar fotocopiar o capítulo em causa.

Só que o livro mais barato que encontrei foi na Amazon nos Estados Unidos.

Depois de uma hora no computador (na verdade o processo é fácil) descobri que o podia encomendar via a Amazon no Reino Unido – a tal Amazon,co.uk que aparece lá em cima.

Ora o Reino Unido fica na União Europeia e logo, fazendo ali a compra, pensei, evitava ter que ir aturar as senhoras dos dois guichets da Central de Distribuição dos CTT junto à Expo 98 em Lisboa.

E foi o que fiz. Tic tic tic no teclado, cinco minutos e o livro ficou encomendado e pago.

Só que logo hoje de manhãzinha (menos de 12 horas depois de ter encomendado o livro) recebi uma mensagem electrónica que me deixou mal disposto.

Num tom gritantemente entusiasmado (sabem como é que são os americanos) a mensagem dizia qualquer coisa como “Hello Antonio! recebemos a tua encomenda e já expedimos o livro! Thank you!”

“Livro, que já foi enviado directamente para ti via a DHL a partir de Chicago”.

Ora, Chicago fica nos Estados Unidos.

Estados Unidos é País Terceiro.

País Terceiro paga direitos.

Ou seja: lá vou ter que ir a Lisboa aturar as senhoras no guichet dos CTT e ser roubado pelo governo.

Se assim for, esta será a minha única primeira e única compra na Amazon.

14 comentários »

  1. Sinceramente não compreendo.
    Compro centenas de livros por ano em Portugal e no estrangeiro. EUA, Austrália, África do Sul etc.
    Nunca tive tal rapsódia.
    Com a paciência que não tenho teria desistido.
    Ainda há menos de duas semanas, recebi, encomendas de 2 livros da RSA, EUA e Canadá. E nada disto.
    Uma diferença, não compro há mais de um ano na amazon ! Ebay, abebooks, etc.,
    Um abraço.
    C. Serra

    Comentar por Casimiro Serra — 05/04/2011 @ 9:27 pm

    • Sr Casimiro

      A sua nota alimenta a minha esperana de nada me acontecer de diferente do seu caso. Talvez as regras tenham mudado. Mas no viverei suficientemente para esquecer o filme do levatamento do livro que mandei vir de Boston h uns anos. E como depara ficou o trauma…

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — 05/04/2011 @ 9:37 pm

  2. Tomané, já nos aconteceu o mesmo, uma valente seca. Mas fizemos recentemente uma compra através da amazon.uk e entregaram em casa sem custos e chatices adicionais, de certeza que te vai acontecer o mesmo. Beijo Patrícia AS

    Comentar por pas@netcabo.pt — 06/04/2011 @ 9:26 am

    • Patrícia

      Espero que sim, espero que sim, espero que sim…🙂

      Comentar por ABM — 06/04/2011 @ 12:15 pm

  3. Oh Tomané…. andas mesmo com azar.
    Já comprei uns ténis no Amazon EUA e fui levantá-los ao correio. Não paguei mais nada.
    Tenho um colega que costuma fazer boas compras no Amazon.
    É preciso é saber…. eu ando sempre a ver qual é o acréscimo do envio.
    Um abraço
    Maria Mourão

    Comentar por Maria Mourão — 07/04/2011 @ 12:06 pm

    • Pois pois, ninguém tem problemas, ok ok, vamos a ver…🙂

      Comentar por ABM — 07/04/2011 @ 12:17 pm

  4. A DHL cobra-te os direitos a porta…. mais 100% por nao saires de casa ah ah ah

    Comentar por Jose Pepe — 24/05/2011 @ 12:56 pm

    • Só para referir que o livro chegou ao Ribatejo sem qualquer incidente – pelos correios normais. Felizmente, porque nos correios da Vila todos sabem quem eu sou. O que duvido que seja o caso com os Deixa-Há-de Levar portugueses.

      Comentar por ABM — 24/05/2011 @ 1:06 pm

      • Outra coisa não seria de esperar… Há anos que compro Livros, CDs e DVDs na Amazon (USA, UK e Fr), que me chegam dos destinos mais exóticos (Nova Zelândia, Colombia, etc. – mas sempre numa embalagem Amazon), sem qualquer problema. Boas compras!

        Comentar por Ana Marques — 01/11/2011 @ 3:35 pm

      • Obrigado Ana, por enquanto ainda compro a maior parte do entulho literário aqui perto de casa. Mas a Amazing Amazon está por aí…

        Comentar por ABM — 01/11/2011 @ 3:43 pm

  5. Olá ABM ! Dá vontade de dizer , isto só a mim me acontece ……………….pois ! Beijo grande amigo ! Pena não ouvi o que tanto queria o cd que colocas-te e logo do Grande Sinatra ..Flay me to the moon……..

    Comentar por Rufina Bexiga — 11/09/2011 @ 3:45 pm

  6. Não fosse ter encontrado sem seu texto a expressão “o mais latinamente possível”, teria tido eu a agradável leitura de uma narrativa escrita em bom e humorado português de Portugal! No entanto, e lamentavelmente, deparo com essa expressão infeliz que, para mim, estragou todo o texto!
    Ao lê-la, Inexoravelmente recordei-me da VERDADEIRA história do Brasil, colonizado, roubado, assassinado e estuprado por Portugal. Para cá vieram e dizimaram nossos índios, estupraram nossas índias, levaram nossos nobres metais e aqui protagonizaram um dos maiores horrores que a humanidade já viu: a escravidão de índios e negros. Os latinos (Brasil, principalmente) alimentaram a desídia e cobiça portuguesa por séculos e destes nada herdou de bom, até mesmo porque nenhuma boa herança poderia Portugal ter deixado aos (latinos) brasileiros.
    Hoje podemos acompanhar a economia portuguesa levando vergonha e humilhação ao seu país, enquanto o meu Brasil destaca-se no cenário mundial em todos os aspectos, inclusive econômico. Já se foi o tempo em que o brasileiro se via daqui para acolá pelo mundo, à procura de trabalho. Hoje, ironicamente, são os portugueses, espanhóis e italianos que desejam desesperadamente uma vaga de emprego em nossas terras!
    O mais incrível de tudo é que, mesmo depois de todos os séculos de exploração a que os portugueses submeteram o Brasil e mesmo com o atual cenário decadente destas terras lusas, portugueses não perdem sua empáfia, sua arrogância, seu sentimento de superioridade…
    “O mais latinamente possível” foi das expressões mais infelizes que li nesses últimos tempos!

    Comentar por dansampaioo — 07/09/2012 @ 1:48 am

    • Corrigindo, “Não fosse ter encontrado EM seu texto…”

      Comentar por dansampaioo — 07/09/2012 @ 1:54 am

    • Olá Dan, interessante a sua perpsectiva. Então, acha que Portugal é “meu” e o Brasil é “seu”? e acha irónico alguns europeus procurarem melhor vida no “seu” Brasil? Ah sim? mas onde é que você tem estado nos últimos 500 anos? e preocupa-se com 500 anos de roubo, exploração e estupro do “seu” Brasil por parte de um punhado de portugueses que um dia de repente se çlembraram que eram brasileiros e se declararam assim? mas você acha mesmo que eu tenho alguma coisa a ver com isso tudo? e ainda por cima escreve-me a chatear-me com essas questões? fulaniza essa treta toda na minha pessoa?

      Desculpe mas isso é mesmo muito latino.

      Um abraço e vá escrevendo. É uma terapia barata. ABM

      Comentar por ABM — 12/09/2012 @ 5:41 am


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