THE DELAGOA BAY REVIEW

07/04/2011

NOW MEANS NOW MEANS NOW*

O Portugal do Ali Babá e dos 40 Assessores.

Sabe o exmo Leitor porque é que só foi ontem às 08:40 horas da noite que o ainda primeiro-ministro português José Sócrates finalmente despertou do seu estado de aparente estado de autismo socialista?

Apenas por uma razão.

Porque já não era possível adiar a ilusão por mais um dia.

Mas não foi porque o seu governo continua a gastar muito mais do que recebe de receitas após três Peques.

Nem porque cada dia que passa se descobre que as dívidas escondidas pelos cantos da teia de empresas públicas, privadas e afins é de proporções antediluvianas.

Não.

A razão foi que, após cortado o crédito ao Estado, e em que este encenou um último “leilão” de dívida pública em que os compradores foram os bancos portugueses, estes lhe informaram que estavam a poucos dias da falência.

A maior parte dos bancos, ao contrário do que se possa supor, não vai à falência no sentido normal, ou seja, quando a sua situação de capital líquido é negativo.

A maior parte vai à falência por falta de liquidez. Ou seja, pura e simplesmente deixam de ter dinheiro para pedir emprestado lá fora, para pagar o que pediram emprestado lá fora, para emprestar cá dentro, e nem sequer para poderem dar os seus clientes depositantes o seu (deles, dos depositantes) dinheiro.

Ora como o acesso a dinheiro fácil via o banco central europeu e outras fontes secou a partir do momento em que a espiral da descida dos ratings acelerou, e estes estão endividados lá fora até à ponta da ponta dos cabelos, era uma questão de dias.

Citando uma fonte do governo que logicamente deixou o nome de fora, comunicado em surdina ao jornal Económico, “o factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado”.

Ou seja, mais duas semanas e os clientes dos bancos portugueses nem o seu dinheiro poderiam levantar nos balcões e ATM’s e o governo teria que intervir, nacionalizando praticamente toda a banca portuguesa.

Ora eis algo que haveria de fazer todos os portugueses lembrarem-se com infinito e perpétuo afecto de José Sócrates.

Foi nesse momento que ele percebeu que a brincadeira, finalmente, acabara.

Só uma dica: em Hespanha, o maior cliente e o maior ivestidor em Portugal, a banca está mais ou menos na mesma.

E a crise ainda vai no adro.

Na Irlanda, a braços com uma estrondoso arrebentamento de uma bolha imobiliária (a Hespanha está mais ou menos na mesma situação), depois de uma intervenção de 70 mil milhões de euros, foi revelado ontem, depois de se terem feito umas contas (a que eufemisticamente chama-se stress tests) que os bancos necessitam de uma injecção adicional de 24 mil milhões de euros. A acontecer, basicamente isso significa que toda a banca irlandesa será nacionalizada.

Adicionalmente, há uma pequenina coisa que era o que “realmente” preocupava os bancos portugueses antes do que aconteceu esta semana; a entrada em vigor do que se chama “Basileia 3“, que são critérios mais rígidos e exigentes de capital por parte dos bancos, que essencialmente exigem da parte destes níveis significativamente mais elevados de capital social. O problema deles é que, nesta fase do campeonato, quase ninguém quer entrar com mais capital em bancos, apesar de já se observar uma corrida em alguns bancos italianos e alemães para anteciparem o nível mínimo de capital Tier 1 de 6% em 2015 (ver aqui). No caso dos bancos portugueses, será seguro dizer que se sente algum desconforto.

Definitavemente, por todas as razões, estes são tempos agitados.

*Citação de Hillary Clinton quando há umas semanas incitava o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a demitir-se do cargo de presidente. Quer dizer “agora quer dizer agora quer dizer agora”. Na realidade, Hillary disse apenas “Now means now”.

1 Comentário »

  1. Coincidência ou não, ontem à tarde, em Cascais, só após percorrer 4 caixas Multibanco, consegui fazer um levantamento. Umas não tinham dinheiro, outras tinham a entrada do cartão barrada por um mecanismo interno. Achei estranho e claro que relacionei logo com o facto de os bancos se estarem a preparar para fechar as torneiras, caso o Governo não pedisse ajuda. A Hillary disse “now is now is now”. Lembro-me que a Thatcher uma vez disse “crime is crime is crime” .. será que alguem tem outra teoria ?

    Comentar por Lucia Costa — 07/04/2011 @ 6:09 pm


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