THE DELAGOA BAY REVIEW

10/10/2011

O PRÉMIO DA FRASE POLITICAMENTE INCORRECTA DA SEMANA É DE….MO IBRAHIM!

Filed under: Uncategorized — ABM @ 11:50 pm

O Sr. Mo Ibrahim, milionário filantropo para África.

Ao fim do dia de hoje, a Fundação Mo Ibrahim, criada pelo senhor cuja foto está em cima, anunciou em Londres que vai atribuir o Prémio Mo Ibrahim de Sucesso na Liderança a Pedro Pires, um líder cabo verdiano.

Pedro Pires, aqui em 2008. Foto da CNN. Laureado Lusofónico Nº2.

O prémio tem duas componentes. Para além de uma soma paga imediatamente de cinco milhões de dólares, o beneficiário passará a receber 200 mil dólares por ano todos os anos enquanto estiver vivo.

Nada mau. E se calhar Pedro Pires mais do que merece.

O problema – se é que o há, nestas coisas nunca se sabe – é o desabafozito do Sr. Ibrahim, um indígena da atribulada nação do Sudão, que em parte para resolver a salsada que por lá anda desde que os britânicos largaram o poder para as instâncias locais, acabou de se dividir ao meio, ficando os campos de petróleo no meio até ver.

Ora vejam só a mensagem “de gracejo” que a portuguesa lusa Agência Lusa deve ter-se apressado a traduzir ainda aquilo estava quente:

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segunda-feira, 10 de Outubro de 2011 | 17:54

Mo Ibrahim lamenta que Sudão não tenha sido colónia portuguesa

O empresário Mo Ibrahim lamentou hoje que o Sudão não seja uma antiga colónia portuguesa como Moçambique e Cabo Verde, de onde são originários dois dos três vencedores de um prémio de boa governação em África.
«Quem me dera que o Sudão tivesse sido uma colónia portuguesa», gracejou hoje em Londres, no final da cerimónia de anúncio do vencedor da edição de 2011 do prémio Mo Ibrahim, no valor de cinco milhões de dólares (3,7 milhões de euros).

O empresário sudanês comentava o fato de o ex-Presidente cabo-verdiano Pedro Pires se ter juntado hoje ao pequeno clube de laureados, onde figura outro lusófono, o ex-chefe de Estado moçambicano Joaquim Chissano.

fonte: Diário Digital / Lusa

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Pressinto que o que resta dos colonialistas portugueses agradece vivamente a simpática mensagem de Mo Ibrahim.

Na verdade, Joaquim Chissano, um outro beneficiário da generosidade institucional da Fundação que o Sr. Ibrahim achou por bem criar, presumo que mais para incentivar a que se roube, pilhe e mate menos, do que a recompensar aquilo que qualquer político que se preze devia fazer sem ninguém ter que lhe dar nada (nada para além do que eles já levam, claro), recentemente expressou a igualmente interessante afirmação, já não me lembro bem a propósito de quê, de que o colonialismo português em Moçambique fora pior que o apartheid sul-africano. Muito pior. Já não me lembro quais foram as razões que invocou.

O Presidente Joaquim Chissano, Laureado lusofónico Nº1

Eu compreendo totalmente o lamento de Joaquim Chissano e pessoalmente sempre tive alguma pena de Portugal não ter sido uma colónia norte-americana, tipo Puerto Rico, ou como parece que alguns madeirenses no poder dizem que ser a actual situação com o “contenente”. Em que o colonizado é colonizado, sim, mas cobra por isso. E bem.

Pois afinal estas coisas dos colonialismos podem-se comparar facilmente, não é? o colonialismo A é melhor que o B, C fica lá pelo meio, etc e tal. Eu tenho um amigo brasileiro que dizia ter pena de o Brasil não ter sido colonizado pelos holandeses. E um americano que lamentava não terem sido os Estados Unidos colonizados pelos suecos (se bem que eu ache que o que ele queria mesmo dizer era “pelas suecas”).

Já o sempre saudoso Samora Machel, sempre que podia, nos seus discursos gostava de gozar com os portugueses (aqui no sentido gerúndio, e se calhar com carradas de razão) lamentando-se de a sua terra ter sido colonizada pelo país mais pobre, atrasado e periférico da Europa Ocidental. Ah, como eu o entendo. Eu próprio fiquei de boca aberta quando, com 12 anos de idade, saí da então Lourenço Marques e visitei a “metrópole”. Pensei qualquer coisa como “o quê? estes gajos é que mandam em nós? devo estar a sonhar”. E afinal, não há nada como ter um G-19 à porta, junto com o FMI, o Banco Mundial, o ADB, o IFC e mais meia dúzia de organizações, sem se omitir uma menção honrosa às carradas de ONG’s, com quem se vai amigavelmente negociando as prioridades nacionais, num clima de total parceria. Que é o que se passa em Moçambique desde que terminou tragicamente a fase “revolucionária” do pós-Independência.

Aliás, estudando a história de Portugal, sobre a qual sei algumas coisas, imagino vagamente que, pese o genocídio, a injustiça e o gigantesco rol de sacanices que devem ter sido perpetradas na altura, provavelmente a colonização romana da “sua” Lusitânia afinal deve ter sido coisa boa, pois para além de me parecer que antes da Pax Romana a margem ocidental da península devia ser uma macacada das antigas, tribos analfabetas e guerreiras permanentemente à estalada umas com as outras, cada um a falar a sua língua, religiões das mais estapafúrdias que se possam imaginar, uma economia agrária, de pastorícia e de rapina. Os romanos, em três tempos, deram cabo desta gente toda e trouxeram ordem ao pagode. O que muitos séculos depois deu no que se chama hoje Portugal, passou a ter uma língua nacional (bem, tem duas, se se contarem as velhotas que falam mirandês enquanto fazem crochet em frente à lareira lá no Norte), uma só religião que não é “romana” por acaso, uma herança cultural em termos de leis e costumes, estradas, pontes e demais infra-estruturas. Quando o Império Romano se desfez finalmente, com um empurrãozinho dos Bárbaros, ficou a herançazita, e o sémen do que estava para vir em Braccara Augusta (oops, Braga). A única nésguia de civilização que os proto-lusos conseguiam encontrar era na sua outrora matriz colonial. Os árabes que uns anitos depois colonizaram devem ter feito muita coisa boa mas por uma perfeitamente entendível aversão anti-colonial, os poderes emergentes despacharam as mesquitas, mudaram os nomes que interessavam e demoliram o que havia para demolir. Ficaram apenas vestígios, tais como essas palavras e esses sítios todos com nomes começados com “al” (tais como “aldrabão”, “alcunha” e “Alverca”) e uma vaga sensação nacional de que tudo o que previamente foi mouro (ou seja, situado na margem Sul do Rio Mondego) é preguiçoso, complacente e muito provavelmente vigarista. Qualquer portuense explica esta teoria melhor do que eu, mas o Pinto da Costa melhor do que todos, para não falar de Eça de Queiroz, que há cento e tal anos esteve uns tempos em Évora e Lisboa e como consequência do que viu escreveu umas crónicas que deram cabo da reputação nacional de vez.

Claro que o paradoxo desta dialéctica, a de Mo, de Samora e de muito boa gente, é pressupor que houve bons e houve mais colonialismos. Nomeadamente, que o dos britânicos era bom e que o dos portugueses era mau.

Por mim, que assisti a parte do processo, acho que é uma conversa um pouco extemporânea e depende da consideração de muitos factores.

No fim do dia, Pedro Pires está de parabéns.

E quem fala português fica de olhos arregalados com a estranha coincidência de, dos quatro laureados com o Prémio (o do Sr. Mandela é honorário), um ser Joaquim Chissano, e agora o outro ser Pedro Pires.

Mo Ibrahim, rói-te de inveja.

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