THE DELAGOA BAY REVIEW

18/10/2011

A ERA DO CARAPAU E O REPOLHO EM PORTUGAL

Muitos moçambicanos se lembram da Era do Carapau e do Repolho.

Agora chegou a vez dos portugueses.

É preciso mesmo estar-se em Portugal para se entender a ironia do que se está a passar.

Por um lado, e finalmente, e inexoravelmente, fizeram-se algumas contas e começou a ser dado conhecimento público da verdadeira dimensão do gigantesco buraco que quinze anos de Estado Socialista, com um breve interlúdio do PSD, e em especial dois anos e meio de governação alucinante de José Sócrates, entre Outubro de 2008 e Junho de 2011, produziram.

Por outro lado, e por uma cruel coincidência, o verão português estendeu-se alegremente pelo Outono, com temperaturas máximas de 30 graus em pleno Outubro e noites suaves. Não chove há meses. Este ano, o clima em Portugal parece o do Sul da Califórnia.

O que ajuda a explicar a aparente demora, por parte dos contribuintes e demais residentes em Portugal, em sequer assinalar a sucessão de anúncios tétricos, por parte do governo do dia, de um crescente montante de dívidas públicas, de uma crescente incapacidade de gerir a despesa pública, e de um crescente rol de medidas, quase todas fiscais, para tentar controlar o turbilhão da dívida pública.

Só pode ser. As pessoas devem estar num estado catatónico entre o choque do que anda a ser anunciado e a anestesia do longo, quente, suave, verão.

O crescendo culminou com um anúncio na noite do dia 12 de Outubro, pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, de que, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012, praticamente todos os impostos directos e indirectos subirão brutalmente, quase todas as isenções fiscais serão eliminadas, incluindo o confisco, aos funcionários públicos e os cidadãos que recebem reformas do Estado, dos chamados “subsídios” de Natal e de Férias. A partir de quem aufere uns meros, quase míseros, quinhentos euros por mês, o que é um furo acima do chamado salário mínimo nacional português.

A electricidade, a água, os transportes, o gás, as comunicações, a comida, o tabaco, tudo isso subirá significativamente. A lista do que vai subir em preço não acaba.

O resultado global para já? Em 2012, uma parte muito significativa da população portuguesa deverá ter cortes nominais de entre 15 a 30 por cento nos seus rendimentos, contra aumentos de entre 5 e 10 por cento nos preços de muito do que compram, consumem e pagam em impostos.

O efeito combinado será arrasador para muitas pessoas.

E mais se presume virá.

E tudo isto para quê?

Supostamente, não para “resolver” os efeitos da gestão criminosa da coisa pública que foi feita em Portugal nos últimos vinte anos (com lugar de honra para o inesquecível José Sócrates).

Nem sequer para o governo dar um ar da sua graça perante os que neste momento já estão a financiar a falência portuguesa.

Não.

O objectivo primário é meramente evitar a catástrofe social e económica que, diz o governo, quase certamente ocorrerá se medidas drásticas não forem (não fossem) tomadas.

Assim, o anúncio formal feito ontem (17 de Outubro de 2011) do orçamento do governo central para 2012 é um marco histórico no percurso dos portugueses, pois significa o fim dos “happy days” do dinheiro fácil, da vida à custa das gerações futuras, das reformas aos cinquenta anos, do pecúlio da coisa pública à escala industrial.

Finalmente, trinta e seis anos depois da Descolonização, e vinte seis anos depois do início da Era da Euro-subsidiocracia, em que uma nova elite predadora, saída do pronunciamento militar que acabou com a ditadura inventada por António Salazar, entreteve o povo com benesses alucinantes enquanto ao lado fazia as suas negociatas oportunistas, assiste-se agora ao desmoronar do Estado Socialista.

Ou melhor, ao início do seu desmantelamento. De que o orçamento do governo central português para 2012 é apenas o começo.

O melhor, ou seja, o pior, ainda está para vir.

Curiosamente, quase ninguém se refere ao que se está a passar como tal. Quem ler os jornais portugueses fica com a impressão que se está a passar “apenas” um mau bocado.

Em parte percebo porquê. Por três razões.

Primeiro, porque as pessoas ainda vivem em negação da realidade.

Em segundo lugar, porque creio que a ideia do Estado-papá está tão profundamente enraízada na maneira de pensar e ser de tantos portugueses, que a ideia de que a organização da sociedade portuguesa, que é rígida, centralizadora e gerida de cima por uma minoria predadora, e que desde 1975 teve a forma do Estado Socialista, possa vir a ter uma forma diferente daquilo que tem sido, é quase incompreensível para o cidadão médio.

E em terceiro lugar, porque, de facto, pese o carpir dos nacionalistas die-hards (por aqui há muitos), há uma muito desconfortante sensação de que provavelmente os tempos que vêm aí poderão provar o impensável: que, no actual contexto, poderá ser concebível que o que vai ser feito é, dito de uma forma simples, insuficiente.

Ou ainda pior. Que o improvável, quase milenário, projecto nacional português, concebido pelo filho de um francês e de uma leonesa durante o Século XII, se tornou, finalmente, inviável.

Pessoalmente, não sou tão negativo. Penso que os portugueses vão passar um bocado muito mau, em que haverá que tomar decisões difíceis e de fundo sobre a forma como o país funciona e está organizado. Em que o padrão de vida, que voltará a caracterizar-se pela fome, pela miséria, pela falta de oportunidade e pela emigração, continuará a cair enquanto não se tomarem as medidas que é preciso serem tomadas.

Mas a implosão do Estado Socialista implica a criação de um novo Portugal, que pouco ou nada poderá ter que ver com aquilo que quem vive em Portugal pensa que é a sua identidade, ou marca.

Os portugueses não gostam de mudança, a não ser aquela que lhes traga algo mais em troca de nada.

Esses dias acabaram. Provavelmente para sempre.

Mas a maior parte das pessoas ainda não se apercebeu disso.

Os que se aperceberam, ou auguram o Fim (o melodrama suicidário compõe uma parte crucial e muito apreciada do imaginário colectivo português) ou não parecem saber que caminho tomar.

Todos criticam, com alguma razão, o governo do dia. Afinal, as medidas draconianas agora anunciadas poderão bem ter como consequência o fim de um pacto de não agressão social na sociedade portuguesa, que no passado deu provas de uma insidiosa propensidade para a violência. Verdade é que Portugal nunca foi um país de evolução. Como acontece com os terramotos, a sua história recente, desde a chamada Restauração, é uma sequência de episódios em que, a uma paz mais ou menos podre em que um ou mais sectores da sociedade paga os custos dessa paz, sucedem-se as revoluções. Que são violentas, abrangentes e muito dificeis de resolver.

E em que preciosidades como a liberdade e os direitos dos cidadãos tendem a ser os primeiros valores a serem mitigados.

Mas ninguém parece ter alternativas, para além daquela Esquerda perdida no tempo e oportunista, que aparece agora a sugerir que uma espécie de comunismo esclarecido (que em termos fiscais pelo menos 2012 vai parecer ser) ou simplesmente deixar o país falir e renegar o que deve a quem deve.

Pois pois.

Assim, depois de décadas em banho-Maria, finalmente aproxima-se a tempestade.

O que em Moçambique quem tem idade para isso chamava a Era do Carapau e do Repolho.

Mas em Moçambique eram os tempos da guerra, passava-se fome e morria gente todos os dias. Dizem-me que foi um mau momento. Em Portugal não há guerra e o verão californiano estende-se até à terceira semana de Outubro.

Curiosamente, um indício dos desafios dessa realidade veio-me da leitura de uma interessante entrevista que o Professor José Hermano Saraiva, agora com uns provectos 92 anos de idade, e que viu o auge e o estertor do projecto colonial português, deu no final da semana passada a uma publicação que acompanha o Diário de Notícias de Lisboa.

Nessa entrevista, o historiador, conhecido pelos programas televisivos que há muitos anos faz na televisão pública portuguesa, chamados Da Gente e da Alma, às tantas foi questionado acerca da situação actual de Portugal. A quem atribuía a responsabilidade por esta crise e que medidas é que deviam ser tomadas para o País superar a actual “ruptura socieconómica”, perguntaram-lhe.

Eis a sua resposta, na íntegra: “Tão simples! Portugal tinha como principais rendimentos os produtos ultramarinos e as alfândegas e, de uma só vez, acabaram com tudo. Nós não temos produção. [Quanto às medidas a tomar] julgo que nenhumas. Portugal não tem hipóteses de sobrevivência. Portugal era o principal produtor de café, de urânio, de ferro, e deixámos de ser tudo isso. Não temos nada. Somos um País mendigo, vivemos de dinheiro emprestado. (…) Portugal não vai re-erguer-se, não vejo maneira nenhuma de isso acontecer.” (Notícias TV, 14 de Outubro de 2011, pp. 11 e 12).

Internamente, o Arcebispo das Finanças de Portugal, Vítor Gaspar, que vai pontificando nas televisões numa cadência messiânico-papal, diz que vai fazer o que for preciso para endireitar a economia nacional.

Mas se a Grécia, a Espanha e a Itália caírem sozinhas (curiosamente se fosse toda a Europa seria menos mau) Deus salve Portugal.

Baseado na minha experiência africana, face ao que poderá vir a acontecer, cada português que se salve a si próprio.

Esta noite, a famigerada Agência Moody’s baixou a notação de risco de Espanha de AA2 para A1.

Vem aí a tempestade.

E muito pia e latinamente, e mais uma vez, reina a total impunidade em relação ao porquê se chegou aqui e a quem foi responsável pela forma como se chegou a este ponto.

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2 comentários »

  1. […] Chima de milhoA crise financeira portuguesa (e não só) tem suscitado uma série de comentários de vários quadrantes da Lusofonia, como é exemplo este da Era do Carapau e do Repolho. […]

    Gostar

    Pingback por A sensação de segurança, ou “piri-piri é chupa-chupa” « perspectivas — 19/10/2011 @ 1:43 am

  2. Está mais que certo . Não tenham dúvidas .

    Gostar

    Comentar por Adriano Veiga — 19/10/2011 @ 1:16 pm


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