THE DELAGOA BAY REVIEW

22/10/2011

ANÍBAL CAVACO SILVA E O FIM DA MACACADA

Nesta data, mapa com as previsivéis ilacções de uma deficiente resolução do "problema grego" - para quem ainda não percebeu. Cavaco Silva percebeu três dias antes de Pedro Passos Coelho. Haja paciência.

Durante esta semana aconteceu algo que à primeira vista parece que não faz sentido nenhum.

Isto porque, pela primeira vez e depois de imensa ginástica e muita sorte, Portugal assistiu à eleição de uma espécie de Santíssima Trindade da chamada direita portuguesa, ao ter, com a re-eleição de Aníbal Cavaco Silva e a eleição do PSD de Pedro Passos Coelho para o poder, um parlamento, um governo e um presidente, da esfera política do chamado centro-direita.

E não faz sentido nenhum porque, no preciso, crucial momento em que o governo do dia apresentou o mais sanguinário orçamento desde que António Oliveira Salazar achou por bem equilibrar as contas nacionais no princípio dos anos 1930, o presidente da república portuguesa, figura estelar do firmamento social democrata, vai a uma de outro modo suporífera sessão da (ainda e sempre) corporativa Ordem dos Economistas, onde se lembra de usar o momento para essencialmente pregar uma rasteira às intenções orçamentais, recentemente reveladas, do governo para 2012, ao dizer (não sugerir ou sequer mandar a proverbial boca) que o orçamento do ano que vem tresanda a inequidade e injustiça.

Passos Coelho, que até tem sido discreto que baste e que supostamente bebe um cházinho semanal com Cavaco em Belém, ficou de boca aberta, enquanto que os comunistas, esquerdistas, sindicatos e afins mal podiam esconder os orgasmos intelectuais com a providencial deixa oferecida pelo presidente.

Levou três dias primeiro que Passos Coelho conseguisse responder ao tirocínio presidencial, resmungando qualquer coisa que se percebe que não se percebe bem.

E, para o analista casual como eu, fica a questão de que raio de Santíssima Trindade é esta em que um dos seus componentes anda aos tiros aos outros em público.

Eu creio que a razão é muito simples, e tem que ver em parte com o fluxograma que coloquei no cimo deste texto, creio que feito por um inglês bem disposto (o Reino Unido ainda tem a libra, o que ajuda).

As medidas já tomadas e listadas no orçamento do governo central para 2012 são draconianas, supostamente mais para os flagelados (e excessivos, e ineficientes) funcionários públicos portugueses, que às vezes parece que são metade de Portugal, mas que mesmo que não sejam, conseguem estoirar alegremente mais do que metade do produto nacional bruto português todos os anos – e sempre a crescer.

Isto fora as dívidas reveladas, as escondidas, as fraudes inexplicadas dos bancos dos amigos e o facto de que parece que tudo o que foi construído nos últimos vinte anos afinal parece que ficou tudo por pagar.

A postura do actual governo foi, e tem sido, honorável. A sua tese de base: os portugueses são gente de bem e vão pagar o que devem, que mais não seja que para continuar a rolar o empréstimo em curso, sem o qual a república resvalecerá inexoravelmente para a falência e quiçá para uma catastrófica saída do euro.

Portanto, como são mentirosos, preguiçosos ou simplesmente incapazes de colocar 150 mil funcionários públicos sem o regime cair, ou cortar aparentemente seja o que for das despesas inacreditáveis a que o governo se foi obrigando a pagar no decurso da República Socialista, os novos senhores da Casa optaram pela via das tomada de medidas fiscais à escala industrial.

Só que, nas últimas semanas surgiram informações, que pelos vistos Cavaco Silva primeiro tomou conhecimento primeiro, e que pelos vistos ou se esqueceu de avisar Passos Coelho nos seus cházinhos semanais ou que este não lhe prestou atenção, que mudaram as circunstâncias radicalmente.

A primeira, é que a Grécia, se tudo ficar na mesma ou mesmo que mude um bocadinho, vai à falência. Aliás, já está falida, agora a questão é como se vai gerir essa falência.

A segunda, é que toda a banca europeia, mesmo sem a falência grega, mas com ela no horizonte, está mesmo à beira do abismo.

E o abismo, se nada mudar já – “já” sendo as reuniões em curso este fim de semana e nos próximos quinze dias – em termos temporais, vai acontecer nos próximos três meses.

Ou antes.

Em terceiro lugar, não é preciso ser J M Keynes – ou Cavaco Silva – para se ter percebido que o actual curso, indicado pelo orçamento português para 2012 e pelas informações macroeconómicas europeias, não só nada contém que possa ajudar a estimular os agentes económicos, como na verdade confirma que o mais provável é a economia europeia, e em especialmente a portuguesa, entre numa espiral descendente que corroerá a fibra e a essência da sociedade e a catapultará para terreno muito perigoso.

Foi o que aconteceu nos anos 1930, para quem não se recorda.

Cavaco Silva apercebeu-se disto antes de Passos Coelho e a sua equipa. Ele entendeu que o orçamento do governo central para 2012 era o cheque garantido para entrar na espiral descendente e que, ainda por cima, Portugal faliria na mesma. Com a agravante de que em seguida, provavelmente para selar a catástrofe, logo a seguir iriam os bancos.

E nesse dia, seria o Fim da Macacada.

Por isso, em tempo real, mudou o discurso.

O que Aníbal Cavaco Silva tentou dizer na Ordem dos Economistas há uns dias é que, se houver, a única salvação para os portugueses é um pacote de ajuda europeu muitíssimo mais substancial do que o quase ofensivamente ruinoso orçamento para 2012 e o empréstimozeco negociado há uns meses.

E, ao fazê-lo em público, quis forçar a mão de Passos Coelho, que ainda andava a fazer de menino bem comportado junto da Troika e ainda dizia que eram os portugueses sozinhos que tinham, que conseguiriam, arrumar a casa.

Levou três dias. Mas Passos Coelho finalmente percebeu.

Que, mais uma vez, e pela segunda vez em seis meses, a salvação do que resta de algum bem-estar dos residentes em Portugal está situada não em Belém e São Bento, mas mais a Norte na Europa.

As medidas a tomar no âmbito do orçamento de 2012 são quase uma política de terra queimada fiscal. Sem qualquer margem de dúvida irão provocar uma tempestade económica, política e social sem precedente desde os últimos dias da famigerada I república. Já estão a começar a fazê-lo.

Mas a verdade é que é preciso muito, muitíssimo mais dinheiro que o que o governo poderá arrancar dos bolsos dos contribuintes para salvar os bancos, para arranjar dinheiro que chegue para emprestar às empresas e às pessoas em 2012, e ainda fazer frente à crescente onda de endividamento com que a República Socialista, com lugar de destaque para José Sócrates, presenteou os portugueses de hoje e das duas gerações que vêm a seguir.

Este fim de semana vão finalmente começar o frio e a chuva em Portugal. Em breve, a não ser que algo venha do Norte entretanto, virão também a fome e a miséria.

Politicamente, fica a paradoxal constatação de que, no actual sistema constitucional e mapa político português, ter uma Santíssima Trindade no poder parece que no fim acaba por não fazer diferença nenhuma.

Nem em bons tempos.

Nem quando se está beira do abismo.

2 comentários »

  1. […] Posto isto, vamos às profecias tremendistas e apocalípticas do novo ciclo do Yuga que se aproxima com a morte de Brahma. […]

    Pingback por Os cenários catastrofistas dos profetas da desgraça « perspectivas — 23/10/2011 @ 6:18 am

  2. Comentar por zé povinho — 24/10/2011 @ 10:00 pm


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