THE DELAGOA BAY REVIEW

01/11/2011

TRABALHAR PARA A DÍVIDA E MESMO ASSIM FALIR

Mais fácil digo que feito.

Ora vamos lá a ver o que se passa na Europa e em Portugal, já que as redacções das televisões portuguesas e o exército de comentadores que têm andado a falar, falar, falar, não têm explicado bem, na minha opinião, o que se passou este fim de semana.

A primeira constatação, de que a maior parte das pessoas já se apercebeu, é que o chamado negócio da Troika em Junho, é insuficiente para evitar o descalabro que se aproxima para Portugal.

Pior, há duas semanas (fiz referência a esta constatação numa nota que escrevi aqui) alguns se aperceberam que as medidas draconianas em parte já em vigor e previstas para 2012, não só não resolvem quase nada como ainda ameaçam degradar mais o ambiente social e económico português.

Parte da solução, alguns referiam, estaria numa tomada de medidas corajosa por parte da Europa, já que a parte crítica do problema tem que ver com a Grécia, o euro, a dívida pan-europeia.

Este fim de semana, enquanto os líderes portugueses estavam perdidos algures no Sul da América Latina, de onde mandaram uns recados meio desesperados, os poderes europeus reuniram-se para “resolver” o problema.

O problema reparte-se por componentes.

A primeira componente e a mais conhecida é que toda a gente já admitiu, é que o volume de dívida da Grécia é….impagável. A Grécia, que já está falida, em breve arrastará a Europa com ela se nada for feito.

A segunda é que, se nada fôr feito entretanto, esse efeito de arrastamento se verificará em economias periclitantes mas muito maiores e que estão a pouca distância de uma crise: a Espanha, a Itália, a Bélgica. Considera-se que Portugal está incluído neste grupo.

A terceira é que, mesmo que tudo o que está previsto funcione e nada mais de mau aconteça, que a Europa estará condenada a um longo, perigoso e complicado, período de estagnação económica, uma vez que um simples exercício de aritmética indica que não há dinheiro disponível para a) investir no desenvolvimento económico b) conceder crédito às pessoas e às empresas.

A quarta e última é que (hum, como é que poderei dizer isto de uma maneira simpática) uma parte considerável da banca europeia – que inclui a portuguesa – está num estado lastimável, pois a) vem aí uma montanha de dívidas incobráveis, b) têm níveis de capital insuficientes e a diminuir rapidamente, c) não têm dinheiro disponível para emprestar mesmo aos bons clientes, d) vão levar agora em cima com uma boa parte das medidas, anunciadas este fim de semana, para perdoar a dívida grega.

Isto para não referir o perigo, que persiste, de uma cadeia de falências que arrasariam o sistema financeiro. Ainda há uns dias um grande banco franco-belga foi “salvo” através de intervenção estatal.

Quais, afinal, foram as “medidas” anunciadas este fim de semana para salvar o euro e as economias da zona euro?

Foram três: 1) o perdão de metade da dívida privada grega, 2) o financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, e 3) o aumento do capital disponível de uma espécie de super-linha de crédito, chamada Facilidade Europeia de Estabilidade Financeira (em inglês, EFSF)

Dada a enorme importância deste tópico, analisemos estas medidas individualmente.

Quanto ao perdão de metade da dívida privada grega, por um lado, analistas indicam que mesmo assim a Grécia teria no ano de 2020 um endividamento global de 120 por cento do seu PIB, o que muitos acreditam que continua a ser miserável e provavelmente insustentável para os gregos. Por outro lado, “perdoar” essa metade da dívida privada significa que quem teria que a perdoar eram bancos e outras instituições financeiras europeias, incluindo bancos portugueses (cerca de 1300 milhões de euros no caso destes) com efeitos demolidores, já que estes à partida já estão em condições de enorme fragilidade.

Quanto ao financiamento da re-capitalisação dos bancos europeus, na reunião mencionou-se a necessidade de um montante global de cerca de 107 mil milhões de euros, para bancos que em princípio levarão em cima com o plano grego mencionado atrás e cuja dívida passaria a valer zero. No caso português fala-se da necessidade de 12 mil milhões de euros, o que não deixa de ser interessante pois a banca portuguesa é menos que um por cento da europeia mas precisa de quase dez por cento do tal montante global. De qualquer modo, não é claro que estes valores endireitem os bancos e lhes permitam voltar a emprestar. Nem se estas medidas efectivamente signifiquem a sua re-nacionalização (afinal, o dinheiro em última instância é dos contribuintes europeus, portugueses incluidos).

Quanto ao aumento de capital da EFSF, falou-se num aumento deste instrumento para mil milhões de euros (lá veio à baila a velha conversa de se “one billion” quer dizer mil milhões ou um milhão de milhões…). Mas – e aqui um gigantesco “mas” – não se percebe de onde virá o dinheiro. Aventou-se o banco central europeu mas a Alemanha disse que não. Falou-se em o dinheiro vir “de fora” (tradução:da China). De Pequim, a China mandou um telegrama a dizer “vocês devem estar mas é a sonhar”. E a conversa, de momento, ficou por aqui, ou seja, quer-se aumentar o montante da EFSF (em boa parte para acautelar eventuais problemas com a Espanha e a Itália) mas ninguém concorda em onde e como se vai arranjar o dinheiro.

A reacção dos mercados esta semana foi o que se esperava: primeiro foi brevemente positiva, e agora que as pessoas começaram a perceber que nada está resolvido, voltaram ao negativo.

A crise continua dentro de momentos.

Em Portugal, como seria de esperar, agora já se começa a fazer barulho para “renegociar”. Renegociar prazos, renegociar taxas de juro, nalguns casos com uns leves pós de dôr de cotovelo por os gregos serem recompensados pela sua incúria com um perdão de dívida e para os portugueses nada de perdão.

Mais surreal, o Partido Socialista português, agora sob a tutela recente e algo efémera do Dr. António José Seguro (condecorado com a Medalha de Ouro da Vila de Penamacor) ruidosamente contempla vetar o demolidor orçamento do governo central para 2012. O que, ocorrendo, inauguraria um novo capítulo no que concerne a irresponsabilidade e inconsistência desta geração de políticos.

Ah, 2012 vai ser um ano de arromba.

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