THE DELAGOA BAY REVIEW

17/11/2011

PORTUGAL NO LAGO DOS CISNES

Em cima, Aníbal Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Paulo Portas negoceiam o tortuoso caminho do empobrecimento estruturado de Portugal. (Na verdade, são quatro competentes bailarinas do Teatro Bolshoi em 1989, executando a sublime coreografia de Marius Petipa para a grande obra de Pyotr Illyich Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes).

Ao fim da tarde outonal de ontem, chegaram a minha casa algumas novidades que caracterizam o momento actual português.

A primeira, é que o governo português contabilizou, ao final de Setembro, 689.400 desempregados, traduzindo-se numa taxa de desemprego de 12.4 por cento. Na verdade, a taxa real é muitíssimo mais alta, a meu ver no mínimo semelhante à de Espanha, que vai pelos 21 por cento. Mesmo assim, estes dados, juntando-se ao verdadeiro exército de sub-empregados (gente com empregos mas salários miseráveis) e ainda mais à multidão de gente excessivamente endividada, constitui a base potencialmente explosiva para coisas para vir.

Em segundo lugar, e não menos importante, no conclusão das análises para se decidir quanto à entrega da segunda tranche do empréstimo para gerir a falência portuguesa (a tranche é do 8.000.000.000 euros), os senhores localmente conhecidos por “troika” foram ao parlamento e à televisão dizer de sua justiça.

O que disseram foi deveras interessante, pois ilustra e confirma algumas coisas que por vezes são menos claras.

Por um lado, confirmaram que, de um modo geral, as coisas estão a correr bem do ponto de vista deles (da “troika) pois os dados macreconómicos, com mais ou menos uns problemas aqui e ali, indicam que os grandes objectivos ainda estão “ao alcance” (aqui, ênfase nas aspas…). Especificamente, referiram que em 2011 se deve ficar mais ou menos por um défice das despesas do governo central de 6%. Um balúrdio, mas em Portugal parece que já todos se habituaram a viver assim há muitos anos.

Por outro lado, confirmaram que há duas tendências graves e as quais não foram, ou melhor, ainda não foram colmatadas.

A primeira, é que, provavelmente por razões de expediente e de sobrevivência política (e também para minorar a miséria que se vai instalando) um pouco como o precedente primeiro-ministro, o actual governo está a tentar desesperadamente atenuar o embate que aí vem. A forma como o faz está à vista: aumentaram muito significativamente em tudo o que respeita a impostos directos e indirectos, estão a fazer alguns mas poucos cortes no fantástico leque de direitos “dinásticos” dos portugueses, e para tapar o buraco de 2011, estão a proceder à venda de património e outros activos do Estado para arranjar o dinheiro que permita que o défice não descambe completamente logo no primeiro ano. Neste capítulo, os Srs. da “troika” especificamente criticaram a decisão do governo de se apropriar dos fundos de pensões dos empregados da Caixa Geral de Depósitos (cerca de seis mil milhões de euros, passando as reformas destes a serem asseguradas pela recolha de impostos junto dos contribuintes).

Ora, isto é tudo muito bonito maa consiste em medidas predadoras e irrepetíveis. Ou seja, se nada mais for feito, como vai ser em 2012?

Mais importante foi o que Paul Thomsen, explicou sem rodeios numa curta mas interessante entrevista que concedeu à RTP ontem à noite e que repetiu várias vezes, para o caso de alguns dos seus espectadores mais burros não apanhar à primeira, à segunda ou à terceira.

O que ele disse é básico: que sem a implementação imediata de um pacote de medidas de “mudança estruturais”, que a) todo o esforço e exercício em curso serão em vão, b) condenarão inexoravelmente os portugueses a viver um padrão material de vida mais baixo e c) em última instância não resolverão o grave problema de falência latente em que ficámos após a loucura de José Sócrates e os seus amigos do Estado Socialista.

O que ele não disse, portanto, e que depreende-se facilmente, é que essas medidas de mudança estrutural não foram e não estão a ser implementadas.

E enquanto dizia isto, aproveitou (já agora, não é)para dizer que na sua opinião os cortes salariais já anunciados para os funcionários públicos deveriam também ser imediatamente aplicados também a quem trabalha no sector privado.

Ora tudo isto é muito grave, em particular porque estes senhores têm o mandato para fazerem o que tem que ser feito e – principalmente – porque já não há tempo a perder. As incertezas a nível do desempenho da economia internacional são mais do que muitas, em especial dos principais parceiros económicos de Portugal.

E as tais mudanças estruturais já deviam ter sido feitas há cinquenta anos, sem as quais qualquer dia, tirando os ricos e os que já saíram e estão para sair de Portugal, qualquer dia nem os que ficam atrás conseguem viver no país.

Por isso seria muito bom se o governo deixasse de mais delongas e, em ver da dança do lago dos cisnes, faça o que tem que ser feito.

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