THE DELAGOA BAY REVIEW

19/11/2011

PORTUGAL E AS GUERRAS GLOBAIS

Enquanto os portugueses lambem desconsolados as suas feridas porque – coitadinhos – vão ter menos para gastar já partir deste Natal, e a Europa dança no fio da navalha do precipício que ela própria escavou quando criou o SME, guerras maiores se formam no horizonte.

Talvez a mais relevante para já vai vir por duas vias: a guerra das moedas e a guerra do desconto das dívidas soberanas.

Segundo o Le Monde de 17 de Novembro, na terça feira passada a dívida federal norte -americana atingiu praticamente os 100% do PIB norte-americano, que é um bocadinho maior que o português. Estamos a falar de 15 milhões de milhões de dólares (15.009.330.000.000 dólares no momento em que escrevo estas linhas, segundo o sítio U.S National Debt Clock).

Isto enquanto se assiste a uma significativa dimunuição dos valores de muitos activos. Quem tem acções do BCP que comprou a, digamos, 2 euros, e que agora valem 10 cêntimos cada acção, sabe do que estou a falar.

Só que isto está a acontecer na Europa e nos EUA a uma escala arrasadora.

Do outro lado do Pacífico, a China insiste em manter, essencialmente, alguma paridade com o dólar norte americano, apesar dos esforços quase frânticos dos norte-americanos para que essa situação mude.

Na Europa e nos EUA, conscientes que uma mudança deste curso implicaria uma recessão horrenda, os respectivos bancos centrais mantêm a quase todo o custo as taxas de juro a taxas reais negativas. Na Europa do Euro, por exemplo, a taxa de redesconto está a 1.25%, contra uma taxa de inflação esperada em 2011 de perto dos 3.00%.

Num mundo globalizado, em particular desde que a China passou a ser um membro da World Trade Organization em meados dos anos 90, de momento não é claro como é que se vai desenrolar o próximo capítulo da actual crise, pois não se entende de onde poderão vir os factores de criação de riqueza que ajudem a colmatar os enormes desequilíbrios que se têm vindo a desenvolver a e acentuar, com impacto nos níveis de endividamento público e privado, produtividade e taxas de desemprego.

Uma coisa parece certa: as dificuldades que os portugueses estão a começar a sentir já se estão a começar a sentir em muitos outros países, incluindo países como os Estados Unidos e os principais parceiros da Europa.

Só que, para variar, desta vez, o processo assemelha-se ao efeito de uma gigantesca bomba atómica a explodir em câmara lenta, a sete velocidades diferentes.

Nas economias “clássicas”, com mecanismos tradicionais tais como as suas próprias moedas, controlo monetário, das taxas de juros, controlo de capitais e controlo total daquilo que importam e exportam (casos, por exemplo, do Brasil, de Moçambique e de Angola) a maior ou menor miséria nestas situações gere-se mais ou menos bem, com umas doses de intervenciosnismo governamental com objectivos definidos.

Mas no actual contexto do eixo China-Japão-EUA-Europa, está-se a entrar em campo desconhecido, em parte porque os factores são dificilmente controláveis e os valores e volumes são tão grandes que governos de países inteiros parecem incapazes de negociar as suas posições.

Quais, então, as grandes tendências?

1. Uma progressiva desvalorização do dólar norte americano, a qual poderá ser acompanhada pela desvalorização do euro, se este sobreviver o que vem aí. Claro que, para quem detém activos nestas moedas, importará as respectivas inflações e a desvalorização relativa de uma moeda relativa à outra, se esse for um factor a considerar (é, para os detentores de capitais líquidos e os investidores, os importadores e os exportadores).

2. Uma muito significativa secagem do capital disponível para investir e para emprestar em geral.

3. Uma subida no custo do dinheiro, uma vez que as actuais políticas de manutenção de taxas directoras a baixos níveis não são sustentáveis a médio prazo.

4. Maior risco na detenção de capital, dado que os riscos sistémicos vão subir, quer através da instabilidade das moedas e dos valores dos activos, que porque os veículos para a sua manipulação (bancos, casas de investimentos, títulos de tesouro e outros instrumentos) entraram numa fase de maior fragilidade.

5. Maior instabilidade política, resultante das tendências acima descritas, acrescidas de maiores taxas de desemprego e um gradual mas acentuado empobrecimento das pessoas.

Devido à total incúria dos governos entre 1991 e 2011, Portugal presta-se a levar em cheio com os efeitos destas tendências.

No entanto, os portugueses estão tudo menos sozinhos, nesta tempestade que se aproxima.

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