THE DELAGOA BAY REVIEW

03/12/2011

EM CUAMBA, 2011, BRANCO=COLONIALISTA

Filed under: Uncategorized — ABM @ 3:04 pm

Maria Moreno, candidata ao cargo de presidente da municipalidade de Cuamba, uma pequena cidade no Niassa.

Lourenço Vicente, o candidato à municipalidade de Cuamba pela Frelimo. Foto publicada no Faísca, publicação de Lichinga que cobre o Niassa, na sua edição de ontem, 6ª feira, 2 de Dezembro de 2011.

Segundo a Wikipédia, “Cuamba é uma cidade da província moçambicana do Niassa, localizada no distrito do mesmo nome. Administrativamente, Cuamba é um município, com um governo local eleito, uma área de 131 km² e uma população de 56 801 habitantes. Antes da Independência, tinha o nome de Nova Freixo. Foi elevada à categoria de cidade em 30 de Setembro de 1971.”

Se  o exmo. Leitor se deslocar de Nampula directamente para Oeste na Estrada Nacional 8, a meio caminho de Chiponde, na fronteira com o Malawi, encontra a cidade.

Cuamba não seria alvo de grande realce não fossem dois eventos recentes.

O primeiro evento, é que, vai-se lá saber porquê, a Frelimo, que na última eleição praticamente arrasou a oposição em todas as frentes – presidencial, parlamentar e municipal – há uns tempos decidiu, despejar os seus próprios eleitos para algumas cidades e convocar eleições intercalares.

A razão formal era que os titulares estavam a ter um mau desempenho.

Numa eleição intercalar, o mandato dos vencedores prolonga-se apenas até ao final do prazo do mandato dos eleitos anteriores. Estamos, portanto, a falar de um período remanescente de cerca de dois anos.

Cuamba é uma dessas municipalidades.

Na eleição de Cuamba, uma municipalidade com quase todos os habituais problemas das demais edilidades moçambicanas (há uma lista desses problemas que se pode ver premindo aqui), os candidatos de renome são um senhor chamado Vicente Lourenço, pela Frelimo, e uma senhora chamada Maria Moreno, por parte de um partido recente, surgido quase no final da última eleição presidencial, chamado Movimento Democrático de Moçambique, ou MDM.

Das informações que vou lendo, tirando Pemba, em que parece que o candidato da Frelimo é sério e considerado o favorito, nas outras duas já não é bem assim.

De certa forma surpreende, pois o domínio da Frelimo tende a ser arrasador em praticamente todas as esferas da vida política, civil e governamental do país. Desde o presidente do Tribunal Constitucional em Maputo ao reles cão da rua em Cuamba, com ou sem cartão de membro, quase todos pertencem à teia formal ou informal desse partido, que faz questão de se identificar com a própria nacionalidade e identidade do país.

A Frelimo tem influência, dinheiro que baste e uma máquina eleitoral sem rival.

E tem muita gente boa e com juízo – excepto, ao que parece, em Quelimane e Cuamba, em que, diz-se, os candidatos do MDM, respectivamente Manuel Araújo e Maria Moreno, são melhores que os seus contrapartes e têm estado a gerir uma campanha melhor, apesar do que parece um investimento inusitado, se algo tardio, pela máquina da Frelimo, que, em desespero de causa, despachou Eduardo Mulembwé, que foi a segunda figura do Estado durante anos e até recentemente, para a pequena cidade macua, a ver se espantava a caça.

As eleições realizam-se na próxima 4ª feira, dia 7 de Dezembro de 2011.

Se o exmo. Leitor quiser ler uns artigos interessantes sobre esta eleição, sugiro que leia, entre outros, alguns recortes no excelente excelente sítio que é o Macua Blogues.

Maria Moreno, cuja fotografia se encontra em cima, e que tem uma relativamente curta carreira política, primeiro na Renamo e mais recentemente no MDM, parece que teve o seu trabalho facilitado devido à má gestão dos edis demitidos – e que eram todos da Frelimo – e pela notória dificuldade no actual candidato da Frelimo, que parece não ter nem capacidade pessoal nem jeito nenhum para andar em campanhas.

Ou pelo menos parece que não tem.

O que me fez escrever isto tudo – e é a segunda razão porque Cuamba é o tema desta minha crónica- foi uma notinha publicada pelo jornal de Maputo A Verdade ao princípio da tarde de hoje na sua página no Facebook.

Diz a nota do conceituado jornal de Maputo, sob o título “Inaceitável”:

“O nosso jornalista que está em Cuamba, a cobrir as eleições, está a ser impedido de acompanhar a caravana de campanha de Vicente Lourenço, do partido Frelimo, por haver reportado os comentários racistas proferidos por este candidato a edil.  Recorde-se que na quinta-feira [1 de Dezembro de 2011], Vicente afirmou que “votar na Maria Moreno (candidata do MDM) é votar num branco, e no regresso do colonialismo”. O candidato foi mais longe, desta vez no mercado conhecido por Burundi, ao dizer aos jovens vendedores que se não votarem nele correm o risco de ver a cidade de Cuamba “assaltada por beirenses e portugueses”.

Não duvidando da veracidade do que reportou o jornalista do A verdade, e sendo o candidato Vicente preto e a candidata Maria José mulata (acho sempre curioso que um mulato para os americanos é preto e para os moçambicanos é branco. Vá lá uma pessoa tentar entender) ficam algumas questões para reflexão.

– O que pensa a Frelimo do que foi proferido duas vezes em campanha, em 1 de Dezembro de 2011, pelo seu candidato em Cuamba?

– É aceitável hoje em dia um político proferir este tipo de declarações impunemente?

– Qual é o problema com beirenses e portugueses irem viver e trabalhar para Cuamba?

– Num plano mais largo, pretende Moçambique ser ou vir a ser uma sociedade plural e multiracial no Século XXI, em que um cidadão, pela mera circunstância de ter uma dada epiderme,  não será discriminado, nem privilegiado, ou perpetua-se em capicua o racismo a que todos fazem referência e que constituiu uma das principais injustiças e uma das molas principais para se acabar com o domínio colonial português há quase cinquenta anos?

Nas décadas que se avizinham, Moçambique enfrentará desafios enormes, alguns inimagináveis, que exigirão o contributo de todos, com as suas capacidades, habilidades e génio. Num país que é 98% negro, importaria esclarecer se raça e etnia são, como se diz que foi no tempo colonial, critério de selecção acima de talento e capacidades.

Para entendermos melhor se, em Cuamba, no dia 7, sendo ambos moçambicanos, a candidata Moreno ganhou porque era a melhor para o cargo, ou o candidato Lourenço ganhou simplesmente porque é preto.

Só para a gente saber.

6 comentários »

  1. Custa a acreditar que tantos anos depois da independência ainda haja uma supremacia tão grande da Frelimo em Moçambique eu que ainda fiquei em Moçambique 5 anos não consigo entender como a Frelimo consegue controlar ainda toda a vida politica em Moçambique, será que existe mesmo democracia?Em relação a essa critica inadmissivel do candidato da Frelimo á cor da candidata nesta altura não me espanta pois na TEORIA a Frelimo tinha um discurso anti-racista mas na prática após a independência incitava ao ódio racial.Quanto ao Obama que é mulato na realidade, bem dizia recentemente numa entrevista Mia Couto que em muitos países de África nunca seria eleito para qualquer cargo politico por ser exatamente mulato apesar de nesses países muitas vezes omitirem o facto de ele não ser realmente negro.SE isto fosse na Europa chamava-se simplesmente RACISMO!

    Comentar por victor fernandes — 03/12/2011 @ 10:55 pm

  2. Era bom que Maria Moreno conseguisse ser eleita. Poderia ser uma esperança para o resto do País. A Frelimo está a mostrar um certo receio na candidatura de Maria Moreno, poderá estar a sentir que a sua estrutura está a ser posta à prova. Se não acontecer com esta candidata o que aconteceu com Joana Simeão ou Uria Simango. ( ataque cardiaco por excesso de trabalho?).
    Já agora aproveito para desejar.
    Um óptimo Natal, e que os dias do Novo Ano sejam uma sequência de proveitosas realizações e informações deste Moçambique sempre presente, repletos de paz e felicidade! Feliz ano 2012, 2013…
    Aquele Abraço

    Comentar por jorge — 04/12/2011 @ 5:22 pm

    • Jorge, a Frelimo tem uma qualidade e um defeito. A qualidade que gosta de jogar para ganhar. O defeito que tem mau perder. Face hegemonia arrasadora de que disfruta actualmente, Cuamba no exactamente um “litmus test” da sua sobrevivncia. Alis, foi a Frelimo que, de sua iniciativa, provocou estas eleies. Vamos assistir aos eventos. Abrao. ABM

      Comentar por Antonio Botelho de Melo — 04/12/2011 @ 5:27 pm

      • A Frelimo, pode ter as qualidades e os defeitos que tu achares que tem. Eu não acho que a Frelimo gosta de jogar para ganhar. Acho que a Frelimo ” impõe” ganhar. Também não acho que tenha mau perder….perde quando lhe interessa. Infelizmente Moçambique vive em ditadura, não sendo admiração nenhuma. Prova da ditadura é Armando Guebuza ( tive o azar de o ter conhecido, quando era o arrogante ministro do interior). Mas já agora…há gente boa na Frelimo e alguns descontentes que não se podem manifestar.
        Aquele Abraço ABM

        Comentar por jorge — 12/12/2011 @ 7:23 pm

  3. Penso que num passado há muito esquecido houve uma mulher que incomodou a Frelimo. Seu nome Joana Simeão. Infelizmente suicidou-se com dois tiros na nuca. Espero que o mesmo tipo de Harakiri se não venha a repetir. Há quem diga que a história não se repete…. será ????

    Comentar por Adriano Soares — 22/12/2011 @ 3:52 pm

  4. a politica em cuamba e de tensao cada vez insuportavel devido apropria maquina governativa para isso eu venho subustituir.

    Comentar por PEDRO BERNARDINO ESTUDANTE DA UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE CURSO DE CIENCIA POLITICA — 19/04/2013 @ 8:56 pm


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