THE DELAGOA BAY REVIEW

11/12/2011

PONTA DOBELA

Uma vista da actual Ponta Dobela.

A história que vou contar ouvi da boca creio que do Dr. Magid Osman, numa conferência a que assisti há uns anos no Hotel Polana.

Ele, que mais tarde chegou a ministro, e que foi accionista e presidente do então BCI (antes da fusão com o Banco de Fomento) era um dos pouquíssimos economistas moçambicanos que em 1975  ficaram atrás e que restaram do impulsivo desmantelamento da economia moçambicana. Outro era Mário Machungo, que mais tarde foi primeiro-ministro durante 11 anos. O resto da maioria da cúpula da Frelimo percebia pouco ou nada de economia e de negócios e passou os anos seguintes em guerras e a suportar projectos marxistas da treta que não deram em nada.

Magid, cujo pai e foi o dono da pequena Camisaria Benfica mesmo colada à então veneranda Mesquita de Lourenço Marques, do outro lado da rua da Papelaria Spanos, e cujo irmão era um bom jogador de futebol, tendo jogado numa equipa que o pai Melo treinou (daí eu os conhecer), desde logo foi integrado nas equipas do novo governo.

Logo a seguir à Independência, não havia relações com a África do Sul, e hoje entende-se que a ideia dos Libertadores era que o regime da África do Sul cairia a seguir, portanto a ideia não era continuar o clima de business as usual com os boers, mas sim de fazer-lhes o que a Tanzania havia feito com Moçambique: abria-se uma espécie de Nachingwea do lado moçambicano da fronteira sul-africana e mandava-se guerrilheiros e bazookas lá para dentro para libertar o outro lado. Bem, está-se a ver como foi.

Mas isso não vem para o caso.

Logo após a Independência, pelo menos os telefones entre a então Lourenço Marques e Pretória ainda funcionavam. E pouco depois de Junho de 1975, alguém do novo governo na capital moçambicana recebeu um telefonema de Pretória: o governo sul-africano desejava ter uma reunião com representantes do governo de Moçambique e perguntavam se havia disponibilidade para ocorrer tal reunião.

Os camaradas olharam-se, quase incrédulos, a ideia era matar os agentes do apartheid e não falar com eles, o que é que os racistas querem, não há hipótese nenhuma de se fazer seja o que for com eles. Mas alguém decidiu permitir que a reunião ocorrese – em Lourenço Marques.

Pretória concordou e, uns dias depois, aterrou em Mavalane um avião da força aérea sul-africana, cheio de homens brancos com o ar mais suspeito do mundo, óculos escuros, que foram levados a uma sala de reunião algures na cidade.

Do lado moçambicano, a Frelimo escolheu uma equipa a dedo, de que fazia parte o então jovem Magid Osman (naquela altura, todos eram desesperadamente jovens, desesperadamente inexperientes e achavam que tinham o rei na barriga).

A reunião, que supostamente durou menos de dez minutos, terá decorrido assim: entraram as duas delegações na sala e sentaram-se em lados opostos da mesa. Um sul-africano levantou-se e disse qualquer coisa como isto: “nós pedimos esta reunião por uma razão apenas. Antes da entrega do governo à Frelimo, o governo português havia acordado construir um novo porto de águas profundas perto da Ponta Dobela. Tudo já está aprovado e pronto para arrancar. Nós só queremos saber se esse projecto é para avançar ou não.”

Calou-se, e sentou-se.

Do lado moçambicano (Magid Osman deve-se recordar dos nomes de quem lá esteve, eu não, infelizmente) a reacção foi de quase indignação. O quê? a zona recém libertada do jugo colonial racista imperialista a lidar com os imperialistas racistas do apartheid? Nem pensar. Não há porto em Dobela coisa nenhuma.

Ouvindo esta resposta, os delegados do governo de Pretória concluiram que nada mais havia a discutir, agradeceram, levantaram-se, foram para os automóveis, que os levaram de volta ao aeroporto e embarcaram de volta para Pretória.

1973. Ponta Dobela. Manuel Pimentel do Santos, então Governador-Geral de Moçambique, mostra o local do suposto futuro porto de águas profundas a Rui Patrício, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. (fonte: IICT)

Mais um aspecto da visita de Pimentel dos Santos e Rui Patrício a Ponta Dobela em 1973. (fonte: IICT)

Nos anos seguintes, as relações entre os dois estados deterioraram-se, nomeadamente as económicas. O fluxo de tráfego entre o hinterland sul-africano e a costa foi re-orientado para Durban, Port Elizabeth e o Cabo. Maputo, o porto ideal para a África do Sul e que tanta tanta chatice dera desde que abriu no final do século XIX, ficou positivamente às moscas.

No entanto, se as vontades políticas variam com os tempos, a geografia é o que é: o Sul de Moçambique será sempre o caminho mais directo e mais barato para ligar o complexo agrícola, comercial e industrial de que Joanesburgo é o centro.

A sua competitividade depende unicamente de dois factores: da eficácia e eficiência no transporte de bens entre os dois pontos e da fiscalidade negociada entre os dois países.

Se se compararem as realidades nos últimos quarenta anos, só há dois pontos significativos no que concerne a Maputo.

O primeiro, é que os volumes de que se está a falar agora em termos de carga transportada são muito maiores que há 40 anos.

O segundo, é que houve uma enorme evolução nos transportes marítimos. Hoje utilizam-se navios muitíssimo maiores, muitos dos quais  não conseguem entrar em segurança na baía de Maputo. E não é possível dragar a baía para tornar tal possível. Seria caro demais, provavelmente ambientalmente inexequível e um dia Maputo literalmente cairia ao mar (como aliás, já está a cair, em boa parte devido precisamente às décadas de dragagens ali feitas, que inclusive levaram as areias das suas praias).

E aqui vem o velho projecto de Ponta Dobela à tona novamente.

As grandes vantagens de Dobela é que 1) seria uma mina de dinheiro para Moçambique, pois se as coisas fossem bem feitas, o custo do transporte de bens seria muitíssimo competitivo comparado com os portos sul-africanos (que não se importariam mesmo nada se não fosse feito); 2) seria um porto de águas profundas, ou seja, os mega petroleiros e os mega-transportadores podiam ali atracar e largar e pegar as suas cargas rápida e eficientemente. 3) sendo uma área a começar do zero, ali poderiam-se fazer as infra-estruturas exactamente à medida com o melhor que se faz hoje em dia, e à medida das necessidades; 4) geraria emprego na orla a Sul de Maputo, o que o pessoal ali bem precisa.

O que nos traz aos pontos negativos. Bem, na realidade só há um que me interessa, e que na altura dos fascistas-colonialistas-racistas etc portugueses não devia ter o peso que tem hoje.

É a questão ambiental.

Não sei se o exmo. Leitor sabe onde fica Ponta Dobela. As coordenadas GPS são Latitude : 26. 37.0′ S e Longtitude : 32.55.0′ E.

Se conhece a Ponta de Ouro, fica na costa a uns quilómetros ao Norte, logo a seguir à Lagoa Piti e a uns quilómetros a Sul de Milibangalala.

Eu já nem falo no local em si, que é natureza pristina e essencialmente intocada pelo homem.

Falo, mais, do que está à volta.

E o que está à volta é um imenso património natural, que no dia em que for não volta mais. No mar, campos de coral únicos e fauna animal preciosa. Em terra, reservas naturais e animais já constituídas. Toda a zona é um delicadíssimo eco-sistema que no mínimo urge a maior das maiores precauções no que toca a qualquer projecto de dimensão mínima. Nos anos 20, apenas sei que ali se procedeu a uma matança de elefantes sem precedentes precisamente porque a população daqueles grandes animais havia crescido sem qualquer restrição e estava a destruir a ecologia da zona (foi dessa matança que resultaram duas colecções de fetos de elefante únicas no mundo, uma delas ainda alojada no Museu de História Natural em Maputo (para os do tempo da outra senhora, o Museu Álvaro de Castro).

Ou seja, seria de todo recomendável, antes de se sequer começar a falar no porto, que primeiro se analise o que é que isso quer dizer em termos ecológicos para a zona. E também em termos paisagísticos e turísticos. Ir para a Ponta de Ouro para depois levar na praia em cima com as borras dos petroleiros não vai dar e acabaria com o mais precioso ponto turístico do Sul de Moçambique.

O governo, a elite precisam destes projectos para dinamizarem a economia, capitalizarem numa vantagem estratégica quase única do país e ganharem dinheiro. As pessoas precisam destes projectos para terem empregos.

Mas a natureza, que Deus deu, e que não se conserta facilmente, tem que ser levada em conta.

E, do meu parco conhecimento da zona, aí os desafios serão enormes, senão insuperáveis. E até esta data, não conheço estudos sobre a zona.

A única coisa que vi é o vídeo em baixo, preparado por uns tais de Aquaterramovement,

que dizem que percebem do assunto e que dizem também que construir um porto em Dobela seria provocar uma catástrofe ecológica.

Nesta fase, seria talvez importante analisar esta questão antes que aconteça o mesmo que aconteceu com a Mozal há quinze anos: quando deram por ela, já lá estava, a cintar e poluir a cidade da Matola.

O filme, partes I e II:

6 comentários »

  1. Quem financia?

    Comentar por Macuácua — 12/12/2011 @ 4:15 pm

    • Boa pergunta Macuácua, mas se se tiverem em conta os pressupostos (que presumo indicarão uma clara vantagem para os importadores e exportadores do hinterland austral), o apoio dos governos sul-africano, suázi e do Botswana e ainda uma clara luz verde do governo de Moçambique, a montagem de um sindicato financiador não seria problema de maior. Por enquanto. A construção de um porto com estas características é extremamente aliciante. Mas como referi, há a questão ambiental que a meu ver deve ser vista primeiro. E pode ser que haja outras alternativas. Não estou muito dentro dos meandros desta questão para além do que referi. Um abraço, ABM

      Comentar por ABM — 12/12/2011 @ 11:59 pm

  2. Hum…

    Não me parece que a Transnet esteja muito à vontade com essa ideia do novo porto…

    Entretanto, na sua recente estadia em Maputo, sabendo-se que a África do Sul é o único país que poderia viabilizar o projecto da barragem de Mpanda N’kuwa, Zuma “fintou” Guebuza…

    Comentar por Álvaro — 15/12/2011 @ 11:52 am

    • Álvaro,

      A barragem pode esperar mais um tempinho. O rio não foge nem a oportunidade. ABM

      Comentar por ABM — 15/12/2011 @ 12:22 pm

  3. TECHOBAINE PORT in Mozambique, Coastal catastrophe looms at Techobaine

    Comentar por Raul — 22/12/2011 @ 4:35 am


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