THE DELAGOA BAY REVIEW

12/12/2011

AS DÍVIDAS SÃO PARA SE PAGAREM

Crise? Qual crise? Um grande álgum dos Supertramp, 1975. Tema desta pequena crónica sobre o momento que se vive em Portugal.

(em cima, a incomparável Marlene Dietrich cantando “Para onde foram as flores” em Londres, 1972. Para além de grande actriz, foi sempre anti-nazi, o que lhe valeu ter sido ostracizada por muitos dos seus compatriotas).

Sempre paguei as minhas dívidas. Mesmo quando não tinha dinheiro, sempre paguei as minhas dívidas. Nunca pedi dinheiro emprestado, sabendo que não o quereria ou poderia vir a pagar. Se tinha dificuldades em pagar, arranjava maneira de liquidar as minhas dívidas. Antes de pedir dinheiro emprestado, fazia contas detalhadas ao centavo, para ver como e quando é que iria pagar o que devia.

É normal. Isto faz parte da vida e não consigo ver as coisas de outra maneira.

Não confundo, nem sou capaz de induzir alguém a confundir, entre “emprestar” e “emprestadar”. A isso chama-se enganar o próximo.

Especialmente amigos e “amigos”. Essa é uma das maiores traições a que assisto e que, no meu caso, dificilmente consigo perdoar.

Se respeito o meu dinheiro, respeito muito mais o dos outros, pelo mero facto que considerei sempre ser um enorme privilégio, e uma marca de respeito e confiança depositadas em mim, quando alguém me emprestava dinheiro ou pedia conselho sobre dinheiro. Trair esse respeito e essa confiança, não o pagando (com juros) é para mim entre as maiores falhas de carácter e de formação que posso conceber.

Com já meio século de existência, já passei por desafios de toda a ordem e, também por razões da profissão que exerci, distingo claramente entre vários tipos de pessoas: as que sabem gerir dinheiro e as que não sabem gerir dinheiro, e as pessoas que têm palavra e as que não têm.

As pessoas que não têm dinheiro e não têm forma de o pagar têm um nome: são pobres – ou para lá caminham.

Eu já fui pobre. Hoje considero-me remediado a resvalar para o pobre (mas não de espírito). Mas, por experiência e por ter a abertura para o conceber, sei o que é ser pobre. Sei o que é ganhar dinheiro e sei o que é perder dinheiro. Ambos os casos exigem uma boa dose de controlo, de humildade e especialmente de carácter. Nada me exaspera mais que ouvir alguém que é, ou se tornou pobre, e que teima em não o constatar. Quem é pobre não pode ter vícios e tem que trabalhar se quiser deixar de ser pobre.

Nos dias em que correm, ser-se pobre, não sendo agradável, tende a não ser um estatuto social, que já foi, quase como uma casta. A pobreza supera-se pelo trabalho e a educação, especialmente a educação. Para quem tem idade para trabalhar e uma educação mínima, a pobreza é por definição uma situação transitória. Para quem não tem idade para trabalhar, assisto com exagerada frequência jovens – que são por definição pobres – a viver alegre e por vezes exuberantemente à custa dos pais, abusando vergonhosamente do compacto social geracional, enquanto que os mais velhos minguam vergonhosamente na miséria, sem o apoio desses jovens, que entretanto cresceram e que insistem em tentar viver a boa vida sem ter em conta o outro lado da moeda desse compacto social geracional.

Os esquemas e apoios dos governos valem o que valem, especialmente no caso dos mais velhos. Em Portugal, o governo faliu. Faliu porque gastou muito mais do que arrecadava em termos de impostos e faliu porque pediu emprestado tanto dinheiro que já nem os juros consegue pagar.

A palavra de um governo expressa-se nos documentos de dívida que assina e que entrega a terceiros, que lha concedem. A partir de meados deste ano, em Portugal, a palavra do governo deixou de ter qualquer valor. Por isso, teve que “pedir ajuda”. “Pedir ajuda” significa pedir mais dinheiro emprestado, desta vez acompanhado de algumas garantias de que “desta vez” vai arranjar maneira de pagar o que deve, corrigindo o seu caminho, que é arrecadar mais dinheiro e pagar atempadamente o que deve.

Quanto a isso, acredita quem quiser. Os mercados tendem a não acreditar.

Neste processo, as responsabilidades pessoal e a colectiva entrecruzam-se. Na actual crise portuguesa, pessoas que sempre pagaram o que deviam e pouparam nos tempos da fartazana estão a ser coagidas a cobrir as asneiras de quem se endividou e viveu acima das suas posses durante, nalguns casos, décadas. Noutros casos, pessoas sem grandes posses viram o tapete ser-lhes puxado por baixo dos pés, ou porque são empregados do Estado e o Estado cortou-lhes o salário, ou porque a economia inverteu e perderam os empregos. Nestes, perdem desmesuradamente mais os segundos, mas os primeiros falam como se fosse o fim do mundo e até fazem greve. Os desempregados não fazem greve. Não podem.

Ficaram mais pobres e não gostam. Mas por ficarem mais pobres, devem procurar reduzir nos seus custos e limpar as suas dívidas. Quem é pobre não pode e não deve ter vícios. Se não conseguem, devem falar com quem devem dinheiro e negociar uma situação alternativa. Não dizer nada e não fazer nada é irresponsável.

Portugal não ficou mais pobre em 2011. Portugal foi sempre pobre, muito mais do que se suporia ao se olhar para o que as pessoas, as empresas e o governo faziam até há pouco tempo. No fim, apenas se andaram todos a enganar nos últimos quinze anos e finalmente, graças a um contexto internacional muito grave e uma última loucura de um agora ex-primeiro-ministro, sujeitaram-se a uma mudança tectónica na medida em que essa realidade se tornou incontornável.

Agora, as pessoas, as empresas e o governo lamentam-se e procuram formas de lidar com a situação.

Uma das formas é consumir menos, o que vai provocar falências e mais desemprego, menos impostos e por essa via menores gastos do governo, nomeadamente com apoios sociais e reformas. As consequências vão ser claramente negativas e corre-se o risco de uma espiral em que uma coisa alimenta outra.

Um dos argumentos mais apetecíveis para lidar com esta situação é, em vez de se trabalhar mais e arranjar maneiras de ir buscar o dinheiro para se pagar o que se deve, é ….não se pagar o que se deve.

O argumento mais simples é que a culpa é de quem emprestou o dinheiro, não de quem o pediu emprestado e que agora diz que se enganou ou que não sabia o que estava a fazer. Ou a melhor: que foi enganado.

Ao nivel macroeconómico, o ajustamento à nova realidade tem sido penosamente demorado, como sempre parece a ser a tendência em relação às coisas portuguesas. Aumentaram-se e vão-se continuar a aumentar os impostos, e espera-se que se arranje maneira de diminuir as despesas do governo, o que não está a acontecer.

O grande embate virá no próximo ano, se entretanto Portugal não sair do euro, o que, a acontecer, será uma catástrofe sem precedente. Nesse embate, irá haver um confronto entre uma realidade em que, no mercado de trabalho, os que ainda têm empregos tê-los-ão mais ou menos garantidos, e outra, em que cerca de um milhão de desempregados (jovens e “velhos”) não terão nada e ficarão sem nada.Nem sequer subsídios de desemprego ou poupanças. Face à grandeza dos números e o seu impacto, poderá haver consequências. Entre elas a tentação de não se pagarem as dívidas. Ou de partir para aventuras políticas pouco condicentes com a actual dispensação constitucional.

Mas neste capítulo já está a haver um custo. Ninguém já empresta dinheiro a Portugal e a empresas e bancos portugueses há quase um ano.

Ninguém a não ser o Banco Central Europeu, sem o qual Portugal já teria, mais do que falido, entrado em colapso total. O BCE não é o credor de último recurso na União Europeia. Mas tem-no sido para Portugal, em parte porque, contabilisticamente, Portugal é irrelevante em termos económicos na Europa – 1 a dois por cento do seu PIB.

Muitos acusam agora os alemães de intransigência em bloquear a abertura das comportas do financiamento “barato e farto” europeu. Esquecendo-se que isso para os alemães significa serem eles a pagar do bolso deles pelas asneiras feitas por, entre outros, os portugueses. Ainda por cima sem qualquer garantia de que não voltariam a fazer a mesmíssima coisa logo a seguir.

Este fim de semana, esperava-se um “momento da verdade” numa reunião de líderes europeus. Em que os putativos maus da fita eram os alemães, que, pelos vistos, um pouco como eu, acreditam que as dívidas são de quem as contraiu e são para serem pagas. Daí resultou uma solução meio acinzentada e imprecisa de se vir a fazer alguma coisa num futuro próximo. Ganhou-se algum tempo, apenas, os britânicos mais uma vez e como sempre ficando à margem da festa.

A economia de mercado tem disto: periodicamente, da mesma maneira que produz riqueza, ajusta-se às novas condições do mercado. Nesse ajuste, não se compadece com os desejos dos governos e menos ainda com o bem estar e “direitos adquiridos” dos seus eleitores. O que urge é, dentro do que se pode fazer, tentar prevenir contra a miséria (que se distingue da pobreza e a qual não permite uma vivência digna).

No fim, os alemães, que pagaram há cem anos a ferro e fogo e aprenderam a lição (tiveram o inferno de Weimar, a depressão, Adolf Hitler, uma guerra intestina) têm razão: a melhor maneira de não ter que lidar com as dívidas excessivas é mesmo não pedir demasiado dinheiro emprestado.

Tivesse agido desse modo, Portugal não estaria na posição em que se encontra hoje.

E a mesma lição se aplica a todos e cada um de nós.

Tudo o resto é conversa.

De mau pagador.

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