THE DELAGOA BAY REVIEW

24/02/2012

REQUIEM POR UMA PRINCESA: INFANTA MARIA ADELAIDE DE BRAGANÇA, 1912-2012

Filed under: D Maria Adelaide de Bragança — ABM @ 5:21 pm

Maria Adelaide Manuela Amélia Micaela Rafaela de Bragança. (31 de Janeiro de 1912-24 de Fevereiro de 2012).

Uma parte significativa da história de Portugal está ligada a uma família, os Bragança, especialmente desde que um deles, João, aceitou em 1640 liderar a revolta que devolveu aos portugueses, em Portugal, o epicentro da sua vida nacional (hoje soi dizer-se, quase empresarialmente “o centro de decisão).

Por um período, parecia que Portugal, uma das mais velhas nações da Europa, iria perecer no caldo ibérico castelhano. Mas não aconteceu, mercê de enormes sacrifícios por parte dos portugueses e dos próprios Bragança.

Assim tornada na primeira família da nobreza de Portugal, os Bragança exerceram o poder soberano entre 1640 e 1910, quando um ignóbil duplo assassinato, seguido de um golpe militar liderado por uma virulenta, raivosa minoria radical em Lisboa, com um discreto piscar do olho britânico, sucederam em fazer inaugurar a Era das repúblicas portuguesas.

Já sei vai na terceira, cada uma com as suas peculiariades, qual delas a pior.

Os Bragança tiveram momentos altos e baixos, alguns por razões internas, outros – como os devaneios napoleónicos – vindos de fora. Marcou a história a sua permanência no Brasil, os únicos reais que escaparam às garras do tirano francês, e em particular a virulenta relação entre dois deles, irmãos, Miguel e Pedro, isto há quase duzentos anos. Atrás deles, foram a política e a sociedade portuguesas, em cuja dialéctica ainda reverberam traços desses tempos. Miguel era absolutista e conservador católico, Pedro liberal, constitucionalista e um tanto revolucionário.  Pelo meio, uma crescente burguesia em Lisboa, na qual germinavam ideias republicanas, laicas e liberais, afiliadas em casas maçónicas e uma série de grupos diversos, foi mordiscando a soberania dos Bragança, sedentos de poder, especialmente a partir da última década do Século XIX, quando se definiam as fronteiras do penúltimo Império (se se aceitar a tese do Fernando Pessoa que o último é a língua).

Da monumental zanga entre os dois irmãos resultou uma cisão na família. Pedro e seus descendentes reinaram em Portugal, enquanto que Miguel, exilado na Áustria desde Évora-Monte, e que fora rei durante seis anos, reclamava à distância o seu direito e o dos seus à coroa de Portugal. Casou tarde e teve uma catrefada de filhos.

Um deles, Miguel também, é o pai de D. Adelaide, a que faleceu hoje. Até hoje, ela era a única neta viva de Dom Miguel de Bragança.

Entretanto, a história faz das suas. Manuel, o último monarca reinante de Portugal, morreu em 1932 sem deixar descendência. E através de um complexo processo negocial, os Bragança resolveram a questão da cisão familiar e da sucessão de direitos: o pretendente à coroa de Portugal passaria a ser Duarte Nuno, o irmão mais velho de Adelaide e o pai de Duarte Pio, o actual Duque de Bragança.

Sobre D. Adelaide, cuja fotografia se pode observar mais acima, tirada no dia do seu centésimo aniversário, há apenas três semanas, já coloquei algures as informações biográficas de relevo.

Claramente, a nobreza da sua genealogia foi superada pela nobreza do seu carácter e uma vida familiar e pública exemplar.

Mas para o leitor mais distraído, repito em baixo o texto que copiei da Wikipédia:

Maria Adelaide de Bragança, Infanta de Portugal (Saint-Jean-de-Luz, 31 de Janeiro de 1912 – Lisboa, 24 de Fevereiro de 2012), é filha de Miguel II de Bragança e de Maria Teresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg.

Casou com Nicolaas van Uden em 13 de Outubro de 1945, em Viena. Do casamento, tiveram seis filhos:

Adrianus Sergius Antonius Maria van Uden (1946-)
Nuno Miguel de Bragança van Uden (1947-)
Francisco Xavier de Bragança van Uden (1949-)
Filipa Teodora Maria van Uden (1951-)
Miguel Ignacio van Uden (1954-)
Maria Teresa de Bragança van Uden (1956-)

Viveu em Viena, trabalhando como enfermeira e assistente social. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando havia bombardeamentos, deslocava-se durante a noite para os locais atingidos, para prestar ajuda às vítimas. Integrou um movimento de resistência à Gestapo, tendo sido presa e condenada à morte pelos nazis. O então Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, interveio junto dos alemães, afirmando que D. Maria Adelaide era cidadã nacional. Desta intervenção da diplomacia portuguesa resultou a sua libertação e deportação imediata, tendo-se estabelecido na Suíça, onde vivia o seu irmão Duarte Nuno, Duque de Bragança. Após a guerra, a família regressou para a Áustria.

Em 1949, D. Maria Adelaide foi viver para Portugal. Enquanto isso, o marido graduou-se em medicina na Universidade de Viena, especializando-se em doenças de pele. Mas quando Nicolaas van Uden chegou a Portugal, não lhe foi dada equivalência, pelo que não pôde exercer a profissão. Foi então trabalhar num pequeno laboratório de pesquisa na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, até que teve a oportunidade de trabalhar em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian. Assim nasceu o Instituto Gulbenkian de Ciência, que promove a investigação científica em diversas áreas desde os anos 50.

Originalmente, a família Van Uden instalou-se na Quinta do Carmo, em Almada. A Infanta Maria Adelaide começou a trabalhar como assistente social em algumas iniciativas locais, dado que a Trafaria e o Monte da Caparica eram locais muito pobres.
Alguns círculos monárquicos em Portugal consideram que a Infanta D. Maria Adelaide, por ser neta de rei (D. Miguel I), é o único membro da Família Bragança que poderia reclamar um direito ao trono de Portugal, de acordo com as leis tradicionais de sucessão, em representação dos direitos dinásticos de seu pai, D. Miguel, a quem os legitimistas reconheciam a designação de D. Miguel II. A maioria dos monárquicos reconhece, no entanto, ao Duque de Bragança, D. Duarte Pio, bisneto de D. Miguel I e sobrinho da Infanta Maria Adelaide, o direito ao Trono de Portugal, caso a Monarquia fosse restaurada.

Em 31 de Janeiro de 2012, data do centenário do seu nascimento, foi agraciada pelo Presidente da República Portuguesa com a medalha da Ordem do Mérito.

(fim)

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