THE DELAGOA BAY REVIEW

14/05/2012

JOEL ALÍRIO CHIZIANE, REPÓRTER FOTOGRÁFICO MOÇAMBICANO, 1964-2012

Filed under: Joel Alírio Chiziane 1964-2012 — ABM @ 7:00 pm

Alírio Chiziane. Auto-retrato, colorido por mim.

Alocução de Fernando Lima, amigo e colega de Alírio, falando em representação do Conselho de Administração da Mediacoop, SA [holding do Savana e de outros media moçambicanos] no funeral do fotógrafo moçambicano, que se realizou hoje em Maputo:

Queridos amigos e familiares do Alírio Chiziane,

Caros colegas,

Querida Bela,

Querida Nídia,

Nestes rituais a que cada vez com mais frequência nos fazemos presentes, é habitual fazer o elogio, no caso vertente da imagem, fazer também o retoque, de laboratório ou de computador, para que a fotografia saia bonita.

Porém, nestes dias algo amargurados por que passa o jornalismo moçambicano, podemos tratar este “shot” a corpo inteiro, porque os factos falam mais alto que os truques de luz e sombra.

Estamos a falar de um homem com um legado determinação, coragem e de um enorme talento.

O seu portfolio profissional fala por si. Quando a fome e a seca eram sobretudo palavras e propaganda para atrair ajuda alimentar para o país, as imagens do Alírio foram o murro violento no estômago que nos colocaram, infelizmente, no mesmo patamar das fomes do Biafra e da Etiópia.

O seu percurso profissional começou na AIM do Carlos Cardoso. Ao contrário da maioria dos jovens que na altura metia requerimento para arranjar um emprego nas instituições do Estado, a Alírio chegou porque queria ser fotógrafo. Aceitou acertar o passo com outros jovens e menos jovens que faziam a sua iniciação pela mão do nosso companheiro solidário Anders Nilsson.

A sua determinação, tenacidade e facilidade de assimilação depressa o tornaram uma “pequena estrela” no universo do que podemos considerar o primeiro lote de continuadores da escola de Ricardo Rangel e Kok Nam formados a partir da Agência: o António Muchave, o Lázaro Alfredo e o Sérgio Santimano. Provavelmente os herdeiros da novíssima fotografia moçambicana, o Mauro Pinto, a Solange Santos e o Filipe Branquinho se revejam actualmente no trabalho talentoso e profissional deste grupo do pós-independência.

E como os desafios não eram apenas as emoções do “click” por detrás da máquina, o Alírio foi também dos primeiros a assinar a demanda pela liberdade de imprensa em Moçambique, um documento que em 1990 levava o título de “O Direito do Povo à Informação”. Sempre com a mesma determinação, em 1992, abandonou o conforto do Estado para formar um novo espaço de liberdade em Moçambique, uma cooperativa de jornalistas que queriam ver na prática o que a Constituição do país garantia.

O Alírio e os seus companheiros de aventura pagaram caro o atrevimento. As perseguições e as expulsões compulsivas que marcaram a criação da mediacoop, mais que um acto administrativo, são um vergão político que permanece até hoje. Como o “oito”, a famosa fotografia do Ricardo Rangel.

Graças ao esforço do Alírio e de muitos dos seus companheiros de percurso, a mediacoop, a imprensa independente estão vivas e são uma conquista inalienável da cidadania moçambicana na luta para criar novas fronteiras entre liberdade e opressão, entre democracia e autoritarismo.

Como muitos moçambicanos, o Alírio cresceu no campo e sempre quis que a sua cooperativa de jornalistas tivesse uma manada de bois. No espaço democrático que era a cooperativa, chumbámos os bois do Alírio, mas mantemos ainda hoje uma quinta no Infulene onde crescem hortícolas, galinhas, patos e coelhos.

Por força das circunstâncias e das dificuldades por que passámos na década de 90, o Alírio pendurou a máquina fotográfica por uns tempos para tocar para a frente a administração executiva da empresa. Aceitando os novos desafios, ajudou a liquidar a cooperativa para criar a sociedade comercial que é hoje o nosso pequeno complexo de comunicação social.

A empresa e nós outros accionistas devemos muito, mais uma vez, à sua determinação, à sua coragem em manter o nosso projecto vivo, quando o cofre e os nossos detractores nos queriam fazer a sepultura.

A nossa história de vinte anos mostra-nos que foi sempre nos tempos de crise e nos tempos difíceis que o núcleo duro do nosso projecto se manteve firme e unido. Foi assim e assim vai ser.

Na nossa cultura, feita de muitas heranças, temos alguma dificuldade em lidar com a cessação de um ciclo biológico.

No que se convencionou em chamar de luto, o melhor luto é fazer o Alírio parte de nós.

Para sempre e naquilo que ele tinha de melhor. Tenacidade, capacidade de aceitar riscos, capacidade crítica mesmo em tom desafinado, sentido de grupo mesmo quando o coração partia para a amargura.

Queridos amigos,

Queridas companheiras e companheiros de percurso,

Querida Bela,

Querida Nídia,

O Alírio vai continuar bem pertinho de nós !

(fim)

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