THE DELAGOA BAY REVIEW

01/08/2012

CÃO QUE LADRA NÃO MORDE

Filed under: Cão que ladra não Morde, Economia de Moçambique — ABM @ 11:12 am

“Eu não estou a roubar o Barclays Bank, minha senhora, eu trabalho aqui”.

Faisal Mkize, o recentemente nomeado operacional número um do antigo BPD/Banco Austral, redenominado Barclays, perdeu esta semana uma excelentíssima oportunidade de estar calado, ao sugerir, algo subrrepticiamente, que o banco onde trabalha em Moçambique poderá reluzir mais que a sua concorrência de capitais maioritariamente portugueses, pois os seus accionistas (se me recordo, uma curiosa mistura entre o Barclays e o ABSA, este último maioritariamente detido pelo Barclays, de qualquer maneira) vegetam fora da problemática área euro, entre a libra estrelina e o rand.

Isto a propósito do anúncio, em Londres, de que o Barclays casa-mãe reduzira a exposição do seu balanço em 22% em relação a países do euro, entre os quais se encontra Portugal, cujos bancos e outros investidores (como o Sr. Américo Amorim no caso do nascente e rapidamente crescente Banco Único) detêm e operam uma parte crítica do negócio financeiro moçambicano.

A Agência Lusa cita exactamente o que Faisal terá dito: “qualquer companhia que opera em Moçambique detida por capitais da zona euro sofrerá o impacto de alguma forma”. E a seguir, num timing de chico-esperto: “a economia moçambicana tem crescido sete por cento ao ano e nos próximos será oito por cento de Produto Interno Bruto (PIB)”, pelo que “é claro que esta economia merece uma aposta do Barclays”.

Ai sim, Faisal?

Pois então, claro, a solução para o “risco de redenominação” será sair do BIM, do BCI, do Único, do Moza etc e tal e passar tudo para o Barclays.

É isso?

Passando tudo para o Redenominado e repintado BPD evita-se o risco da redenominação do euro português para o Escudo (vade retro). Pois sabe-se lá o que é que esses bancos portugueses ou aportuguesados irão fazer em Moçambique – ou a Moçambique.

Sobre o assunto, apenas referiria algumas coisas curtas, para além do que já disse no primeiro parágrafo.

1. Neste momento tenho imensas dúvidas que o tal “impacto” sugerido por Faisal tenha qualquer substância. Dadas as circunstâncias actuais das respectivas economias e negócios, quando muito os bancos e accionistas portugueses estão mais motivados para investir e focar nas suas operações em Moçambique e em Angola, não menos.

2. É curioso que Faisal escolha esta altura para, a propósito de uma medida contabilística precaucionária da sua casa-mãe, fazer esta afirmação, quando ainda há poucas semanas o mesmíssimo Barclays se viu envolvido no maior escândalo na história da banca britânica desde a II Guerra Mundial, o chamado escândalo da manipulação das taxas Libor, o qual ainda não foi sequer abordado cabalmente mas o qual já motivou o banco central britânico a anunciar multas de centenas de milhões de libras e levou os seus dois executivos de topo, entre eles o mercurial Bob Diamond (que ainda assim tentou o truque de dizer que não iria receber o seu bónus de vários milhões para tentar salvar o emprego) a demitirem-se. Seguem-se as investigações criminais, que ainda estão no segredo dos deuses.

Hum, seria, então igualmente oportuno questionar o que quer dizer isto tudo para o Barclays em Moçambique.

Ou ainda o risco, não descurável, da dívida soberana britânica e de a libra ir para o inferno. Ou de a África do Sul seguir por caminhos sinuosos.

3. O mais curioso é Faisal andar a enviar petardos contra os seus concorrentes em Maputo quando o segredo mais mal guardado da banca moçambicana é o seu próprio banco, que, dez anos depois da venda mais sensacional da história da banca desde a Independência (por um dólar ao ABSA, que descarregou a maior parte do crédito mal-parado para cima dos contribuintes moçambicanos e prontamente impôs uma tirania lá dentro com um boer por andar a vigiar os locais, que quase tinham que pedir licença por escrito para ir fazer chi-chi à casa de banho) e apesar de uma rede de balcões interessante e de ter gente muito capaz, continua a render substancialmente menos que o pior dos seus concorrentes agora rotulados pela sua casa-mãe de “em risco de redenominação do euro”. Faisal, que foi contratado basicamente para resolver isso (boa sorte) devia-se preocupar em aumentar a rentabilidade e eficiência do seu negócio e ganhar quota de mercado honestamente, em vez de vir a público com estes comentários. A Dra. Luisa Diogo não cometeria um erro destes.

4. Algo, aliás, que duvido aconteça. Para efectivar um turnaround são necessários skills e uma cultura que simplesmente inexistem na casa. De facto, antecipo que, dentro de menos que cinco anos, um seu concorrente surgido há pouco praticamente do nada, o Banco Único, suportado significativamente pelos tais capitais portugueses “redenomináveis”, terá um balanço maior e será cinco vezes mais rentável que o Barclays é hoje.

É que para se ser bom não basta ter dinheiro e balcões. Tem que se conhecer bem o país, as pessoas, e se saber do negócio e da sua cultura.

E Faisal ao pé de João Figueiredo (para não falar das equipas do BIM, do BCI, etc) é ajudante de aprendiz de feiticeiro.

4 comentários »

  1. ABM
    Tendo o Faisal que (fázer corquer négosse),quando não o seu próprio lugar JÁ ERA.,não achas que (apesar de quase infantil) este SHAKEDOWN vem mesmo a calhar para abanar esses gatos gordos TODOS que reinam na ( finança ) Moçambicana ?

    Comentar por CAMP — 01/08/2012 @ 7:28 pm

    • Olá Camp,

      Não houve qualquer abanão na banca moçambicana, que até agora tem exibido uma serenidade notável no meio do que se está e ainda vai passar no resto do mundo. Um pouco de outra forma, referi o mesmo na pequena crónica em cima. ABM

      Comentar por ABM — 02/08/2012 @ 9:44 am

  2. Boa noite ABM
    Primeiro gostaria de partilhar o meu alivio, pois hoje descobri que a visao que sempre tive pelo BARCLAYS EM MOCAMBIQUE estava correcta, e sinto pela Dra Luisa Diogo, que aceitou padrinhar um filho que nao teve catiqueze e nem frequentou escola dominical, nuca sabera como surgio o Mundo, o homem nao pode depender apenas da ciencia, temos k ter fe, e trabalhar em prol dos objectivos com todo cuidado.
    Segundo kero concordar com ABM ” …devia-se preocupar em aumentar a rentabilidade e eficiência do seu negócio e ganhar quota de mercado honestamente…Pois de facto confirmo que o BARCLAYS nao vai bem, de tantas mudancas e transformacoes, acredito que todos os colaboradores ja estao viciados em serem comprados e niguem esta a trabalhar para justificar o que ganha, tem muita gente com mentalidade do BPD.
    Terceiro, o relatorio de contas do ano passado mastra claramente o quao negativo trabalha-se e apesar do aumento do capital social se nao mudar as politicas nada mudara o disco, O BARCLAYS em LONDRES nao e o mesmo em AFRICA e pior em MOCAMBIQUE, isto e o barco nao anda na area, estamos a querer implementar metodos e custumes fora do nosso padrao de vida, o BARCLAYS esta a levar 10 a 0 com bancos pequenos como a SOCREMO, alguma coisaesta a falhar SR FAISAL se nao abrir o olho cedo nao vais conseguir alcancar os objectivos.

    Paulo Baloi

    Comentar por Paulo Baloi — 05/03/2013 @ 7:37 pm

    • Baloi, alívio partilhado e registado. Estamos juntos. ABM

      Comentar por ABM — 05/03/2013 @ 8:35 pm


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