THE DELAGOA BAY REVIEW

19/02/2013

LOUIS ARMSTRONG E SAINT LOUIS BLUES EM MOÇAMBIQUE, 1971

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

A capa do disco de 33 rotações, dos anos 50, de Louis Armstrong, baseado num documentário feito pelo grande Ed Murrow.

Tive alguma sorte em ter tido o pai que tive. E uma das sortes foi, em boa parte por causa dele, ter crescido numa casa com livros bons para ler, o que me ajudou a criar o hábito de ler, que considero útil, mas também de poder conhecer e aprender a apreciar boa música. Descobri pela primeira vez, na casa que os meus pais alugavam na Polana, em Lourenço Marques – hoje Maputo, a capital de Moçambique – o prazer da música clássica e do jazz. Beethoven, Sinatra, Debussy, Gounot, Bizet, Louis Armstrong e Walter Wanderley, todos estavam disponíveis, num monte de discos de 33 rotações, que eu ia descobrindo e podia tocar num velho gira-discos que ligava ao velho rádio Telefunken do Pai Melo, anos antes de uma pequena bolha de prosperidade ter possibilitado a evolução para um sistema de stereofonia.

É sobre Louis Armstrong que eu queria escrever umas linhas. Aos dez anos de idade já conhecia vários dos seus discos e simplesmente adorava ouvir as suas baladas, que eram para mim autênticos hinos. Mas não só. A sua presença no filme Hello Dolly, com Barbra Streisand, que vi algumas vezes pendurado no camarote do lado direito do Cinema Scala, na baixa, e ouvi depois dezenas de vezes em casa, quando mais tarde consegui adquirir o disco, e ainda o impacto do que acabou por ser talvez um dos sucessos maiores e mais inesperados da sua carreira – What a Wonderful World – que saiu em 1968, tudo isso representava um dos grandes prazeres da vida de então para mim, alheio às vicissitudes e dramas que poderiam rodear uma já de si despreocupada pré-adolescência. Louis Armstrong foi o único artista por quem eu alguma vez chorei, quando, na primeira semana de Julho de 1971, soube pelo Rádio Clube que tinha falecido. Foi tragicómico, eu com 11 anos choroso o dia inteiro, a família toda a interrogar-se o que é que se passava comigo (típico, quando finalmente, e em confidência, pensava, revelei a causa da minha tristeza à Mãe Melo, toda a família e arredores se pôs a gozar comigo, o que me deixou revoltado).

De longe, para mim o símbolo e o expoente dessa era de descoberta e deslumbramento musical é a canção cuja gravação reproduzo em baixo, contida num disco que o Pai Melo tinha em casa, e que ainda tenho guardado volvidos estes anos todos, e que descobri por acaso esta noite que uma alma caridosa colocara no Youtube. E que deixo aqui como registo. Trata-se talvez do maior dos hinos do velho jazz americano, Saint Louis Blues, composto numa noite (supostamente) por W. C. Handy.

Aqui gravado ao vivo no Lewisohn Stadium em Nova Iorque em 14 de Julho de 1956, por nada menos que Louis Armstrong e a sua banda de então, os All Stars, acompanhados pela Orquestra Sinfónica de Nova Iorque, dirigida pelo incomparável Leonard Bernstein. Na audiência, sentado à frente, nada menos que o próprio W.C. Handy, então com 83 anos e já cego.

Absolutamente sublime.

1 Comentário »

  1. Olá António,

    Que bom foi ler o seu artigo e “viajar” no tempo, (Louis Armstrong, Hello Dolly, Scala, LM…). Música sublime e imtemporal. Eu também senti tristeza quando o grande Armstrong partiu. Mas a tristeza foi se transformando em gratidão para com ele, por nos ter deixado usufruir e partilhar a sua música.

    Abraço

    Comentar por José Viegas — 23/02/2013 @ 10:54 am


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